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Acção com sentido vs acção estéril

«Acção com sentido, para os revolucionários, é o que quer que aumente a confiança, a autonomia, a iniciativa, a participação, a solidariedade, as tendências igualitárias e a actividade autónoma das massas e o que quer que assista à sua desmistificação. Acção estéril e danosa é qualquer uma que reforce a passividade das massas, a sua apatia, o seu cinismo, a sua diferenciação numa hierarquia, a sua alienação, a sua confiança em que outros façam as coisas por si e o grau pelo qual podem ser manipulados por outros – até por aqueles que alegadamente agem em seu nome.»

Maurice Brinton / Solidarity, About Ourselves, 1967

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Arroz e massa para Ricardo Gonçalves

O deputado Ricardo Gonçalves não está satisfeito com a generosa solidariedade mostrada na campanha Banco Alimentar Parlamento e por isso volta à carga com novo comunicado. Bem, não é propriamente um comunicado novo. É o mesmo comunicado com upgrade.

Ponto de destaque: no upgrade deixou de constar a ameaça de processo judicial. Realmente não fazia sentido desperdiçar o parco rendimento de deputado da nação em processos desta natureza.

Acrescentou também os seguintes esclarecimentos:

Em vários parlamentos da Europa a cantina está aberta ao jantar, sem que os opinadores lá da terra se escandalizem. Já foram tomadas medidas como cortarem os cafés e os chás que sempre eram servidos durante as reuniões das comissões.
Mas tudo bem! Cabe aos políticos darem o exemplo.
Há muitos anos que eu alerto para a situação difícil a que o país podia chegar. Hoje é necessário coragem e coesão para enfrentarmos a realidade.

A denúncia de graves carências na classe dirigente alarga-se a vários países da Europa. Estamos pior do que pensávamos. Já não há sequer café nem chá no parlamento. A austeridade chegou em força e os deputados preparam-se para a aceitar com abnegação.

Mas o ponto mais dramático deste upgrade, capaz de fazer chorar as pedras da calçada e enternecer o coração mais empedernido, é a identificação que o deputado Gonçalves estabelece entre ele e o resto de nós. As mesmas agruras, as mesmas privações. É necessário “enfrentarmos” a realidade, porque afinal de contas estamos todos no mesmo barco.

Mas deixemos de lado os sentimentalismos e passemos aos factos. Este novo comunicado tem também um post scriptum.

PS: É muito interessante constatar que a alguns órgãos de comunicação social não interessa informar que os cidadãos, que estão a desempenhar temporariamente o lugar de políticos a tempo inteiro, deixaram – e bem – de receber a subvenção vitalícia, deixaram de receber o subsídio de reintegração, sofreram um corte, o tal simbólico, de 5% no mês de Maio, agora sofrem, tal como os restantes trabalhadores públicos, o corte de 9 ou 10%, para além do incremento da taxa de descontos para a CGA, ADSE e IRS. Há órgãos de comunicação social que falam nos salários sem esclarecer que se tratam de valores brutos aos quais incidem os cortes previstos, os impostos directos e as taxas a que obrigatoriamente estão sujeitos.
Não é o meu caso pessoal – que interessa, – mas eu não me queixo. Nunca foi o dinheiro que me moveu na política e percebo perfeitamente a indignação de muitos portugueses que hoje atravessam dificuldades. Mas ninguém me pode impedir de dizer a verdade sem sofrer deturpações. Na actual democracia toda a gente pode falar, reclamar e protestar, à excepção dos que exercem missões políticas. No tempo do Estado Novo era ao contrário: só podiam falar os políticos da situação e o povo era obrigado a calar.
Viva a democracia!

Ele não se queixa e a ele ninguém o cala. À carência económica a que está sujeito pelo facto de ser político e deputado, junta-se a mordaça que a democracia lhe impõe. Voltaire escreveu premonitoriamente sobre o deputado Gonçalves quando criou a sua personagem Cândido, a quem a infelicidade e as desventuras sucediam incessantemente. Julgo que estamos bem entregues a deputados com esta categoria e com esta intensidade. Até me admira que ainda haja quem defenda a auto-organização como alternativa à representação. Fique-se a saber que como o deputado Gonçalves, há muitos mais no parlamento e na política. Bem hajam!

Repete comigo: sou livre

«Vai para o trabalho, manda as tuas crianças para a escola

Segue a moda, age normalmente

Anda pelo pavimento, vê TV

Guarda-te para a velhice, obedece à lei

Repete comigo: sou livre»

Os preconceitos sobre a anarquia e a religião são desmentidos pela História!

[recebido pelo correio]

Anarquia e a religião – as ideias preconcebidas sobre ambas são desmentidas pela verdade histórica

Anarquia = em 150 anos de existência do anarquismo, a violência praticada pelos anarquistas existiu mais ou menos durante 10 anos ( por volta de 1890) e terá provocado algumas dezenas de mortos e feridos. No entanto, o preconceito sobre os anarquistas, associados à violência, e como alguém que coloca bombas é persistente ainda hoje!

Religião = ao longo de m ais de 20 séculos de existência, as religiões provocaram centenas de milhares de mortos, guerras sem fim, massacres, genocídios que terão causado milhões e milhões de mortos e feridos. No entanto, a imagem feita e persistente de uma pessoa religiosa é a de um ser pacífico !!!

Como discutir política com políticos

Debate aceso entre Gérard Collomb, presidente da câmara de Lyon, e dois transeuntes anónimos.

O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. II

O problema do poder não está no poder enquanto capacidade de fazer algo, o poder-fazer. É na relação hierárquica que se estabelece com os outros que começam a aparecer os sintomas semelhantes a ter o cérebro danificado.

Kevin Carson, numa crítica às hierarquias, comentou que é frequente o argumento de que “foi-lhes dada autoridade por alguma razão”, numa espécie de admissão de que se aceita as coisas desta forma porque “é assim que as coisas são”. Um argumento inabalável. Também repara no recurso algo habitual ao “foi decidido que ….”, preferindo a voz passiva à activa (“fulaninho decidiu que…”), para se evitar o perigo de ver a autoridade como um mero mortal, com objectivos e desejos individuais, e um julgamento subjectivo como toda a gente. Ver os que estão acima na hierarquia como iguais é um passo necessário para se poder dizer “se não é uma boa ideia, não me interessa que seja a lei” e daí concluir que “se tivéssemos tomado a decisão de forma igualitária, o erro teria sido evitado”.

A famosa experiência de Milgram sobre a obediência à autoridade (já reencenada várias vezes), mostra de forma clara que as pessoas tendem a considerar a figura de autoridade como detentora da capacidade e da responsabilidade de tomar decisões por elas, e decisões que normalmente não tomariam e até as repugnaria tomar. No caso desta experiência, a figura de autoridade é uma pessoa mais velha, ou que está sugestivamente vestida de bata branca (E), que em nome do sucesso da experiência insiste para que o sujeito (S) (quem na verdade está a ser estudado) continue a infligir choques eléctricos a outra (A) sempre que esta não responda correctamente a perguntas que lhe vai fazendo. Algumas das pessoas colocadas no papel de S, levam a tortura até níveis inaceitáveis, incluindo a morte (simuladas, claro) de A. Apenas porque a figura de autoridade que está ao lado insiste na importância de levar a experiência até ao fim. (descrição da experiência) (reencenação).

A experiência da prisão de Stanford é outro exemplo de como as hierarquias influenciam negativamente o comportamento de pessoas vulgares.

Em 1971 um grupo de psicólogos sociais, liderados por Philip Zimbardo levou a cabo uma experiência que ficou conhecida como a Experiência da Prisão de Stanford.

A experiência consistiu na simulação de uma prisão em que os papéis de guardas prisionais e de prisioneiros foram atribuídos a estudantes voluntários, com características psicológicas semelhantes e que visava estudar os efeitos psicológicos da vida numa prisão.

Previa-se uma duração de quinze dias e, segundo as regras, quem quisesse poderia abandonar a experiência a todo o momento.

Apesar das regras bem definidas e de todos os participantes saberem que se tratava de uma simulação da realidade e de um estudo científico, a verdade é que a experiência foi interrompida ao fim do sexto dia, porque os participantes começaram a viver com total entrega e intensidade os seus papéis, confundindo a representação com a realidade vivida e identificando-se com os personagens que encarnavam.

Alguns “guardas” tornaram-se especialmente violentos, abusaram da autoridade que lhes havia sido concedida e humilharam os seus “prisioneiros”, deixando mesmo de cumprir as regras da “prisão”.

Por seu lado, os “prisioneiros” foram-se tornando submissos, obedecendo gradualmente às ordens mais absurdas.

Retirado do blog Psicologia Experimental

Previna-se e Viva. Revolte-se e …

As instruções que ninguém esperava receber começaram finalmente a chegar. O governo adverte: “Previna-se e viva”, pela voz do Ministro da Agricultura, António Serrano, frisando que se trata de uma «resposta obrigatória» dos Estados-membros da Nato. As indicações começaram a ser dadas aos cidadãos de forma a que possam aumentar as suas possibilidades de sobrevivência. A par da “despensa de emergência” que deverá conter mantimentos para duas semanas sem acesso a supermercado, com biscoitos, bolachas, conservas, águas, sumos, etc. deverá ser preparada uma “mochila de emergência” contendo alimentos base e utensílios como guardanapos, fósforos, panelas pequenas, canivete multiusos e lanterna. “A ideia é criar uma cultura de segurança junto da população”.

O diligente governo empresta-nos o seu juízo avisado, expõe com zelo a nossa vulnerabilidade, explica-nos que a muralha de segurança acabará eventualmente por ceder. Prepara-nos para o pior lembrando-nos que estar mal não é razão para se deitar a perder o pouco que se tem. O  medo do inimigo às portas da cidade fará, como sempre, o serviço esperado:  favorecer o egoísmo em detrimento da solidariedade; o toque a reunir em torno desse bem abstracto que é a nação; o mitigar das posses e do poder da população em benefício das elites; a renúncia total à contestação interna.

Previna-se e Viva

Foto Lusa: António Serrano armazenando mantimentos num supermercado de Lisboa.
via Ferroadas

Os inimigos entre nós

«Os inimigos entre nós

Neste último Fevereiro, um pequeno black bloc juntou-se a uma acção chamada “The Heart Attack” e destruiu as janelas de diversas lojas e bancos em Vancouver durante os jogos olímpicos. Na sequência do sucesso que foi esse dia que incluiu acções não violentas, a polícia procurava desesperadamente os perpetradores e prendia activistas com os mais ridículos pretextos, como andar de bicicleta pelo passeio.

Durante a convergência anti-olímpica, o director executivo da BC Civil Liberties (BCCLA), David Eby, fazia parte da equipa legal para a Rede de Resistência Olímpica (RRO). No dia seguinte ao “Heart Attack” David Eby denunciou a acção nos média corporativos. Na sequência dessa denúncia, Larry Hildes, um advogado e membro da equipa legal da RRO desassociou-se e fez declarações à Vancouver Media Coop (um serviço de notícias locais independentes).

«Há pessoas na cadeia agora que a BCCLA que é suposto lhes dar apoio jurídico está, em vez de fazer isso, a denúncia-las.” E acrescentou: “Como advogado acho que é antiético e deviam ser disciplinados pela “law society” por fazerem isso.»

Durante este período de intensa repressão policial, o blogger do Rabble.ca, e agora co-presidente do StopWar.ca, Derrick O’Keefe, sentiu que era apropriado acusar numa rede social um activista seu conhecido e camarada de assalto. Pesquisei e pedi às pessoas que haviam repostado a acusação de O’Keefe para a retirarem do ar, e mandei um email a O’Keefe a pedir-lhe para se explicar. Até hoje estou para receber uma resposta, e O’Keefe voltou a repetir a acusação no seu blog. Em 30 de Junho deste ano, poucos dias depois de um black bloc danificar lojas das empresas e incendiar carros da polícia em Toronto durante o G20, O’Keefe promoveu um website na sua conta do Twitter que exortava as pessoas a contactar a Toronto Crime Stoppers e fornecer informações sobre um homem que foi fotografado a destruir um carro da polícia.

Da mesma forma, a 27 de Junho, o conhecido activista e escritor de Toronto, Judy Rebick, disse a um serviço noticioso local que o black bloc deveria ter sido preso… “no início, antes que eles tivessem oportunidade de fazer parte de uma grande multidão.” Mais tarde, na entrevista, Rebick completou a ideia de “bom manifestante vs mau manifestante”: agora passou a haver bons militantes e maus militantes. Os bons militantes só queriam ir até o muro que foi construído para proteger os líderes do G20 e os maus militantes foram os que quebraram janelas de lojas e montras de bancos. É importante notar que Rebick prestou homenagem no seu livro Ten Thousand Roses às sufragistas pela sua luta pelo direito ao voto. As sufragistas foram uma primeira vaga de militantes feministas que se envolveram em acções diretas, como a destruição de vitrinas e a colocação de bombas.

Seguindo a deixa de Rebick, o comentarista político “progressista” Murray Dobbin sugeriu que da próxima vez que um black bloc aparecer, os activistas sociais façam cumprir a lei pelas suas próprias mãos e os “detenham, se a polícia se recusar.”
Perigoso precedente.

Agora que denunciar e desmascarar militantes foi aprovado pelas grande entidades “esquerdistas”, a caça às bruxas para identificar e entregar os “vândalos” à polícia está viva e recomenda-se nos websites “progressistas” e no Facebook. Há pessoas a vasculhar a internet à procura de provas em vídeos e fotografias, e a Polícia de Toronto criou uma página web onde as pessoas podem carregar “anonimamente” as suas próprias pistas digitais. Em Vancouver, uma manifestação pelos direitos civis organizada “de acordo com a polícia” não vai acolher o black bloc e uma organizadora diz que “não culpa a polícia necessariamente” pelos abusos contra os direitos civis que aconteceram em Toronto durante o G20. A manifestação contará com palestrantes da Stopwar.ca e da associação Civil Liberties BC.»

Rebick a falar numa manifestação de apoio a prisioneiros apenas alguns dias depois de ter apelado à prisão de militantes.

Derrick O’Keefe durante o infame debate com Harsha Walia.

David Eby, da BCCLA, a defender a sua denúncia da acção “Heart Attack”.

Murray Dobbin quer que te juntes a um grupo de vigilantes sociais.

Stimulator

Contra os colossos de cimento

Estão previstos cinco crimes ecológicos em forma de barragens hidroeléctricas para a bacia do Tâmega. O mandante é o governo e os executantes a EDP em um deles e a Iberdrola nos outros quatro. Todos esses crimes serão cometidos a montante da cidade de Amarante, um deles em Fridão, a cerca de 6 quilómetros da cidade. A bacia hidrográfica do Tâmega está classificada como zona sensível, note-se. A discussão sobre a necessidade ou não da construção de barragens, como muitas outras discussões minadas à partida por décadas de formação de opinião sempre com o mesmo sentido, é complicada com a aparente sensatez de uma boa solução de compromisso que é a construção de barragens para produção energética. Por isso copiei um excerto do Manifesto Salvar o Tâmega que de forma concisa e muito convincente desmonta os habituais enganos relativos aos benefícios das barragens ao mesmo tempo que aponta alternativas à sua construção. O manifesto é dirigido às excelências do Estado, do Presidente ao Ministro da Economia, na habitual pedinchice e subserviência dos movimentos de contestação institucionalizada e obediente, mas isso não retira o mérito aos seus argumentos.

“1 – Fracos benefícios

Produção de electricidade
As seis barragens previstas para o rio Tâmega representam um acréscimo de apenas 1,61% na produção de electricidade em Portugal, algo facilmente obliterado por um ligeiro aumento do consumo de electricidade (só entre 2000 e 2007 Portugal aumentou o consumo em mais de 20%).

Independência energética
Portugal importa combustíveis fósseis como fonte de energia; no entanto, só uma pequena percentagem é utilizada na produção de electricidade e estima-se que as seis barragens previstas para o Tâmega venham a representar uma redução de apenas 0,25% da importação nacional de petróleo.

Alterações climáticas
Estas seis barragens poderão reduzir as emissões de gases de efeito de estufa (GEE), responsáveis pelas alterações climáticas. Porém, essa redução é insignificante (na ordem de algumas décimas em termos percentuais) em relação ao total nacional, admitindo-se ainda neste cálculo que não há emissões significativas de metano pelas albufeiras criadas (provenientes da decomposição da matéria orgânica e plantas do solo inundado e de prováveis fenómenos de eutrofização). Acrescente-se ainda que a poupança referida só será atingida ao fim de quatro anos (devido às emissões associadas à construção das barragens).
Criação de emprego
Terminada a sua construção, estas novas barragens serão insignificantes a nível de emprego, uma vez que actualmente muitos empreendimentos idênticos não têm absolutamente ninguém a operá-las no local. Pelo contrário, perdem-se empregos, especialmente a nível regional, devido à destruição de solo produtivo, à perda das águas bravas que alimentam o turismo e o desporto, à deslocação de pessoas, entre outros motivos.
Armazenamento de água
As seis novas barragens previstas para o Tâmega poderão constituir uma reserva de água útil para abastecimento e combate a eventuais incêndios, mas por outro lado serão afectadas várias captações de água existentes e fontes de águas termais, e a reserva de água não
consegue justificar o investimento e prejuízos.

2 – Prejuízos avultados

Qualidade da água
Seis novas albufeiras de água parada em substituição de um rio corrente irão provocar uma deterioração da qualidade e saúde ecológica da água, numa altura em que mesmo sem as barragens já será difícil atingir os requisitos da Directiva Quadro da Água (atingir o bom estado ecológico das águas superficiais até 2015).
Biodiversidade e ambiente
As várias barragens projectadas para o Tâmega representarão a destruição irreversível de um importante eixo de interacção e comunicação entre os diferentes ecossistemas que constituem um rio corrente, produzirão um efeito barreira para peixes e outras espécies, submergirão muitos habitats classificados e prioritários e afectarão significativamente a fauna e a flora da região, inclusivamente várias espécies endémicas, ameaçadas, com distribuição restringida, com estatuto de protecção e variedades horto-frutícolas regionais. Com seis novas barragens na sub-bacia do Tâmega, e acrescentando a do Torrão que já existe, são previsíveis vários e significativos impactes cumulativos de todas estas barragens. Continua aliás a faltar uma análise dos impactes cumulativos das várias barragens, algo que é importante para a protecção dos ecossistemas e que é obrigatório por lei (Directiva Quadro da Água)

Socioeconomia
As várias barragens projectadas para a sub-bacia do Tâmega não serão factor de desenvolvimento local ou regional. Irão extinguir recursos endógenos singulares, eliminar espaços naturais irreproduzíveis e ameaçar várias áreas de desenvolvimento, como o turismo (perda de turismo e desporto de águas bravas, submersão de património com interesse turístico – incluindo elementos classificados, submersão de praias fluviais e
parques, profunda alteração e artificialização da paisagem), a agricultura e silvicultura (submersão de milhares de hectares de solo produtivo, perda de cultivo de variedades regionais), a pesca e a fixação de populações que terão de ser deslocadas (só a albufeira de Fridão cobrirá 108 edifícios). Só no Concelho de Amarante estima-se que as barragens possam vir a afectar 2500 ha de vinha de uma região demarcada que representa uma receita de quatro milhões de euros/ano para 3216 viticultores da sub-região.

Risco de segurança
As barragens constituem um risco para as populações do Alto e Baixo Tâmega devido à violência das descargas de água e da oscilação brusca da cota das albufeiras e à hipótese da sua ruptura, caso que, embora raro, não é inédito. A questão da segurança coloca-se em todas as barragens projectadas para o vale do Tâmega, muito especialmente para as de Fridão que ficam a apenas 6 km da cidade de Amarante e onde um grande volume de água ficará a cerca de 100 metros acima da zona ribeirinha desta cidade.

3 – Alternativas viáveis

Eficiência energética
Estima-se que o investimento previsto para as novas barragens, aplicado em medidas de eficiência energética, pouparia 10 a 15% do consumo total de energia do país, sem sacrificar a economia e o conforto e evitando os grandes prejuízos das barragens. No entanto, em Portugal, continua a imperar a lógica da gestão da oferta de energia e não a gestão da procura, que é a que melhor se enquadra numa lógica de desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, na última década, o consumo de energia aumentou significativamente sem igual aumento do PIB, algo indicativo de desperdício energético.

Reforço de potência e armazenamento de energia
Portugal tem já mais de 160 grandes barragens. No que respeita às barragens com produção hidroeléctrica, apenas seis irão sofrer um reforço de potência, de acordo com informações da EDP. Prevê-se que estes seis reforços de potência possam, por si só, fornecer mais potencial de energia hídrica que toda a energia eléctrica proveniente das novas barragens do Tâmega e das restantes barragens que constam do Plano Nacional de Barragens, verificando-se assim ser desnecessária a sua construção para atingir as metas nacionais de energia hídrica previstas no Plano. Igualmente, o armazenamento do excedente da energia eólica, para ajudar a gerir as flutuações diárias, pode ser feito utilizando as barragens existentes.

Energias renováveis
Uma maior aposta em energias renováveis com menor impacte poderia suprir os objectivos energéticos das seis barragens previstas para o Tâmega e das restantes barragens que constam do Plano Nacional de Barragens. O apoio à microgeração, eólica e fotovoltaica, por exemplo, está neste momento em risco de ser bastante restringido, sendo conhecidas pessoas e empresas que têm tentado, sem sucesso, investir milhares de euros na produção de energia limpa.

Reserva de água
Os volumes de água necessários ao abastecimento são muito mais baixos que os das albufeiras projectadas, acrescendo que as albufeiras agravam a qualidade da água. Assim, seria mais racional apostar em sistemas de pequena escala e no uso eficiente da água: optimização das redes de abastecimento, reciclagem de águas cinzentas, aproveitamento de água da chuva, mudança para equipamentos de baixo consumo, salvaguarda dos aquíferos e nascentes.”

mais sobre o Tâmega:

Salvar o Tâmega
Movimento Cidadania para o Desenvolvimento do Tâmega
Remisso

Baixas expectativas

Diz um estudo de uma multinacional de recursos-humanos que 72 e dois por cento das empresas portuguesas pondera baixar os prémios ou o salário base aos executivos de topo.

Será que estes ajustes, a acontecerem, são uma questão de justiça e de moralização, como é dito neste post do Delito de Opinião? É concerteza uma forma de pensar partilhada por muita gente, quer à esquerda (pela diminuição da desigualdade), quer à direita (por ser o mercado a funcionar), mas haverá realmente alguma ponta de moralidade ou de justiça na colossal desigualdade de rendimentos que existe entre trabalhadores e executivos, com ou sem ajustes, com ou sem milhares de despedimentos e ponderações sobre se se baixa ou não prémios chorudos, ou sou eu que estou a ver mal a coisa?

Não me parece. Acho é que as expectativas sobre a possibilidade de justiça e de moralidade são tão baixas, que se chama de moralização e de justiça à manutenção da situação, desde que por um momento e ainda que numa medida despicienda o topo da hierarquia partilhe as perdas do povo.

A opinião e as formas mais radicais que ela poderia assumir são logo à partida tão restritas, tão auto-limitadas, tão pouco ambiciosas, que tende para o zero a possibilidade de mudança efectiva no que diz respeito à salubrização da sociedade. Não se deseja nada de profundo ou transformador, apenas limitar os danos, arrecadar vitórias simbólicas ou morais, com que se engana a consciência.

O mérito dos que têm estado nos degraus cimeiros da hierarquia social é conseguir limitar a opinião ao inócuo, manter aceso o debate sobre tudo o que não arrisque revolucionar a ordem instituída, mantendo a ilusão da participação. As eleições são um bom exemplo e talvez dos maiores do que é o engodo lançado aos que desejam manifestar-se. Não conheço nenhuma eleição que tivesse provocado uma mudança profunda para melhor numa sociedade. No entanto, a promessa do pequeno avanço e da pequena reforma apela directamente a essa mentalidade de baixa expectativa e com isso mantém os interessados iludidos numa batalha perdida a priori. O raciocínio é que não se podendo ter o que se quer, pelo menos se tenha o que se pode. Sendo o problema deste raciocínio que o que se pode, é basicamente a manutenção da situação.

Parasitas essenciais

«Compreende-se que gente dos partidos e deputados sejam, como diz a DGS, “essenciais ao normal funcionamento da sociedade”. Pode perguntar-se é como, sem padeiros que lhes façam o pão, sem motoristas que os levem ao Parlamento e às sedes, sem pessoal das águas e da electricidade que lhes garanta o banho diário, a energia para os computadores e a luz para estudar os dossiês, sem educadoras e auxiliares de infantários que lhes tomem conta dos filhos enquanto trabalham e toda a mais gente não “imprescindível” nem “essencial ao normal funcionamento da sociedade”, uns e outros poderão cumprir as suas funções.» Manuel Pina, Jornal de Notícias

Não. Não se compreende em que é que deputados e burocratas de partido possam ser essenciais à sociedade. Nem sequer é para ser compreendido. É para ser aceite.

O resto que o Manuel Pina diz é óbvio, é o tipo de coisa que até devíamos estranhar alguém achar necessário escrever num jornal. Ter uma noção clara das tarefas que são essenciais numa sociedade e das pessoas que carecem de mais protecção deveria ser um dado adquirido. É umas das coisas sem que uma sociedade funcional não pode passar.

Não é o caso, mas se realmente houvesse uma crise de saúde pública, as vacinas sempre poderiam ser confiscadas pela população e distribuídas racionalmente. Sem parasitas a passar à frente dos outros.

 

Normalizar o impensável

“During the Cold War, a group of Russian journalists toured the United States. On the final day of their visit, they were asked by their hosts for their impressions. “I have to tell you,” said their spokesman, “that we were astonished to find, after reading all the newspapers and watching TV, that all the opinions on all the vital issues were, by and large, the same. To get that result in our country, we imprison people, we tear out their fingernails. Here, you don’t have that. What’s the secret? How do you do it?”

“In the British media, as in the United States, as in Australia, rapacious western actions are reported as moral crusades, or humanitarian interventions. At the very least, they are represented as the management of an international crisis, rather than the cause of the crisis.”

“The unspoken task of the reporter in Vietnam, as it was in Korea, was, to normalise the unthinkable – to quote Edward Herman’s memorable phrase. And that has not changed.”

Transcrições da palestra de John Pilger’s na Universidade de Columbia, Nova Iorque, 2006 – ‘War by Media

“O importante ensaio de Edward S. Herman, “A Banalidade do Mal”, nunca pareceu mais adequado. “Fazer coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na ‘normalização’ “, escreveu Herman. “Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directa feita por um conjunto de indivíduos … e outros a trabalharem para melhorar a tecnologia (um melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada, bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É função do peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o público geral.”

John Pilger

¿Quién hizo el mundo?

Hacía pocos años que había terminado la guerra de
España y la cruz y la espada reinaban sobre las ruinas
de la República. Uno de los vencidos, un obrero anarquista,
recién salido de la cárcel, buscaba trabajo. En
vano revolvía cielo y tierra. No había trabajo para un
rojo. Todos le ponían mala cara, se encogían de hombros
o le daban la espalda. Con nadie se entendía, nadie
lo escuchaba. El vino era el único amigo que le quedaba.
Por las noches, ante los platos vacíos, soportaba sin decir
nada los reproches de su esposa beata, mujer de misa
diaria, mientras el hijo un niño pequeño, le recitaba el
catecismo.
Mucho tiempo después, Josep Verdura, el hijo de aquel
obrero maldito, me lo contó en Barcelona, cuando yo
llegué al exilio. Me lo contó: Él era un niño desesperado
que quería salvar a su padre de la condenación eterna y
el muy ateo, el muy tozudo, no entendía razones.
– Pero papá – le dijo Josep llorando – si Dios no existe,
¿Quién hizo el mundo?
– Tonto – dijo el obrero, cabizbajo, casi en secreto -.
Tonto. Al mundo lo hicimos nosotros, los albañiles.

El libro de los abrazos – Eduardo Galeano

A mesma corja em todo o lado

1485

Foto: Protesto contra o BNP

Com as lutas laborais na Inglaterra a assumirem contornos nacionalistas e xenófobos, a corja fascista anda excitadíssima e a tentar tirar dividendos políticos, à sua maneira desajeitada e retorcida. O website British Wildcats, cujo slogan é “Trabalhos ingleses para trabalhadores ingleses” e que aparentava provir da luta dos trabalhadores das refinarias, foi desmascarado no blog Ministry of Truth como sendo da autoria de Simon Bennett, militante do BNP (British Nacional Party), webmaster de vários websites nacionalistas como o da “Association of British Ex-Servicemen”, também ele uma farsa, o do “Christian Council of Britain” e o próprio website nacional do BNP.

A prova surgiu através de uma pesquisa WHOIS no website do British Wildcats que deu o endereço IP  87.117.239.65 e o DNS registado em nome de copperflash.com, propriedade de Bennett.

Do lado da esquerda, as posições são maioritariamente de condenação do aproveitamento do BNP e dos slogans xenófobos. No entanto, dentro das hostes da esquerda há quem afine o discurso pelos nacionalistas. O blog slackbastard fez um apanhado das posições das diversas forças de esquerda que eu actualizei.

“Workers taking action at Britain’s power stations are fighting for jobs, decent terms and conditions and trade unionism’, Carolyn Jones has declared today on behalf of the Communist Party of Britain.” Communist Party of Britain

Stalinists and Socialist Party defend “Britons first” refinery protest

“…This is not about race or prejudice and we are actively challenging any attempt by the BNP to spread their poison. It is about the exploitation of labour, playing one worker off against another.” Respect Renewal

“hundreds of people will be protesting against the British National Party (BNP) in Liverpool. The BNP blatantly twist people’s real concerns to fit their racist agenda; the gist of their recent “protest” at a Black/Minority Ethnic recruitment fair was “Why isn’t there a jobs fair for white people?” A better question would be: where are the jobs for anyone?” Socialist Party

Blame the bosses not ‘foreign workers Socialist Workers Party

Britain: no to the nationalist strikes Workers’ Power

mescalero

Repensar a táctica radical

peaceidyll

Uma paz idílica. Honoré Daumier, 1871.

~

Fui repescar um texto da activista anarquista norte-americana Starhawk que aborda a questão da dicotomia violência/não-violência que tanto incomoda muitos observadores do que se passa na Grécia. Explica o conceito de “diversidade de tácticas” experimentado no movimento anti-globalização e a forma como está a ser ultrapassado por uma nova evolução no pensamento dentro dos movimentos no que respeita às tácticas e do que deve ser a resistência radical.

I’m not suggesting some middle ground between the Gandhians and the Black Bloc. I’m saying that we’re moving onto unmapped territory, creating a politics that has not yet been defined. And to do so, it might be time to leave Martin and Malcolm arguing around the dinner table with each other and Emma, Karl, Leon and all the rest, and step out into the clean night air. The debate around ‘violence’ and ‘nonviolence’ may itself be constricting our thinking. […] If you tell your dog, “Rover, I can’t take you for a walk,” Rover hears “Walk!” and runs for the door. If we say ‘nonviolence’ we are still thinking in terms of violence.

Este velho maniqueísmo no que respeita à violência precisa ser ultrapassado. Por um lado o uso da violência é a mera inversão de papéis em relação à repressão autoritária, é uma nova forma de autoritarismo que à partida era o que se pretendia combater. Por outro lado, a negação da possibilidade dos companheiros exprimirem a sua revolta e de  recorrerem a formas de violência pode ser também uma forma de autoritarismo. O dilema de um movimento anti-autoritário não pode ser a escolha entre duas formas de autoritarismo, há que repensar a táctica e o discurso radical e recolocar o problema de uma nova maneira que resolva a forma essencialista como se vê a violência e ultrapasse este maniqueísmo reducionista.

Starhawk propõe que os clusters e os grupos de afinidade de activistas dos movimentos contestatários digam o que pretendem e quais as suas intenções em vez de simplesmente listarem uma série de linhas de acção do que as pessoas devem ou não devem fazer:

“We will carry out this action in a manner that prefigures the world we want to create, and act in the service of what we love.”
“We will use means consistent with our ends.”
“We will act with respect for this community, for its homes and enterprises, and in a way that encourages all to join us.”
“We hold open the possibility that those who are currently our opponents may change their allegiance and join us.”
“We will protect and care for each other in this action, and act in solidarity even with those whose choices differ from ours.”

Aconselho vivamente a leitura do texto da Starhawk.