Repensar a táctica radical

peaceidyll

Uma paz idílica. Honoré Daumier, 1871.

~

Fui repescar um texto da activista anarquista norte-americana Starhawk que aborda a questão da dicotomia violência/não-violência que tanto incomoda muitos observadores do que se passa na Grécia. Explica o conceito de “diversidade de tácticas” experimentado no movimento anti-globalização e a forma como está a ser ultrapassado por uma nova evolução no pensamento dentro dos movimentos no que respeita às tácticas e do que deve ser a resistência radical.

I’m not suggesting some middle ground between the Gandhians and the Black Bloc. I’m saying that we’re moving onto unmapped territory, creating a politics that has not yet been defined. And to do so, it might be time to leave Martin and Malcolm arguing around the dinner table with each other and Emma, Karl, Leon and all the rest, and step out into the clean night air. The debate around ‘violence’ and ‘nonviolence’ may itself be constricting our thinking. […] If you tell your dog, “Rover, I can’t take you for a walk,” Rover hears “Walk!” and runs for the door. If we say ‘nonviolence’ we are still thinking in terms of violence.

Este velho maniqueísmo no que respeita à violência precisa ser ultrapassado. Por um lado o uso da violência é a mera inversão de papéis em relação à repressão autoritária, é uma nova forma de autoritarismo que à partida era o que se pretendia combater. Por outro lado, a negação da possibilidade dos companheiros exprimirem a sua revolta e de  recorrerem a formas de violência pode ser também uma forma de autoritarismo. O dilema de um movimento anti-autoritário não pode ser a escolha entre duas formas de autoritarismo, há que repensar a táctica e o discurso radical e recolocar o problema de uma nova maneira que resolva a forma essencialista como se vê a violência e ultrapasse este maniqueísmo reducionista.

Starhawk propõe que os clusters e os grupos de afinidade de activistas dos movimentos contestatários digam o que pretendem e quais as suas intenções em vez de simplesmente listarem uma série de linhas de acção do que as pessoas devem ou não devem fazer:

“We will carry out this action in a manner that prefigures the world we want to create, and act in the service of what we love.”
“We will use means consistent with our ends.”
“We will act with respect for this community, for its homes and enterprises, and in a way that encourages all to join us.”
“We hold open the possibility that those who are currently our opponents may change their allegiance and join us.”
“We will protect and care for each other in this action, and act in solidarity even with those whose choices differ from ours.”

Aconselho vivamente a leitura do texto da Starhawk.

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Comentários

  • Savonarola  On Domingo, 21 Dezembro 2008 at 1:44 am

    Não haverá certamente um método único e infalível para combater o neoliberalismo vigente. Contudo, o contributo de todos os que têm vindo a ser tentados resultará. pelo menos, no desgaste do regime. No fundo, todos os contributos serão bem vindos.

    Um abraço

  • ovigia  On Terça-feira, 23 Dezembro 2008 at 7:00 pm

    só existe é um problema, é que esta violência é criada por infiltrados.

    agentes infiltrados que estão ao serviço dos mesmos a quem se dirige a tal raiva e violência.

    ou seja, na minha modesta opinião, ir para a rua sim, violência não, sou adepto do pensamento de Gandhi.
    e não é só ir para a rua, é processar o estado, votar nulo, nunca em branco, é fazer os nossos direitos, os poucos que ainda vão restando, etc.

  • Pata Negra  On Terça-feira, 23 Dezembro 2008 at 7:58 pm

    Por motivos de alteração provisória de humor e de Fé este ano não dou votos a ninguém.
    Passa uns bons próximos dias e, já agora, bons próximos anos também.

  • mescalero  On Terça-feira, 23 Dezembro 2008 at 11:47 pm

    vigia,

    há uns milhares de jovens na rua a combater, não serão todos infiltrados. há alguns concerteza, já foram fotografados e as suas fuças já correram o mundo, mas todos não. há também relatos de grupos de extrema-direita para além de hooligans, nihilistas e outra fauna estranha

    quanto ao gandhi, pessoalmente não estou para ser massacrado sem oferecer resistência. sou favorável à resistência pacífica mas não nesse aspecto

  • mescalero  On Terça-feira, 23 Dezembro 2008 at 11:50 pm

    pata negra,

    o solestício já passou por isso resta-me desejar-te uma passagem de ano feliz.

  • mescalero  On Terça-feira, 23 Dezembro 2008 at 11:52 pm

    savonarola,

    todos os contributos também não, há por aí gente com imaginação suficiente para inventar coisas maquiavélicas :)

    abç libertário

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