Category Archives: racismo

O racismo é um monstro de inúmeras faces

«O racismo é um monstro de inúmeras faces. A própria afirmação “Eu não sou racista” contém muitas vezes em si a estirpe paternalista do imundo vírus. Jorge de Sena contava, a propósito, o que, chegado ao Brasil, ouviu de uma senhora da alta sociedade brasileira: “Aqui no Brasil não há racismo. E sabe porquê? Porque, aqui, o preto sabe pôr-se no seu lugar”. Mas o racismo não raro contamina as próprias vítimas, tornando-as também em algozes. O mais inquietante exemplo é talvez aquilo que Steiner chama o “ódio de si”, ou “autoproscrição”, do judeu, que explicaria o desconcertante anti-semitismo ou rejeição do próprio judaísmo que, desde Paulo de Tarso, é notório em numerosos intelectuais judeus (mais perto de nós, alguns houve que chegaram a aprovar Hitler). Que sentir senão repugnância com uma resposta que o presidente da Câmara de Torres Vedras, cigano, deu ao “Expresso” a propósito da expulsão de França de ciganos romenos e búlgaros: “Os ciganos portugueses vêem com apreensão a chegada dos ‘novos ciganos’. Sentem que os seus comportamentos desviantes ou bizarros podem pôr em causa a integração”?»

Manuel António Pina no JN

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Os racistas entre nós

Só se pode chegar a uma conclusão: nos tempos que correm não há racistas em portugal. Anda por aí tudo a dizer mal dos ciganos por receberem o RSI, não se integrarem, serem pouco higiénicos, etc. etc. Mas racistas, racistas, não há. Racistas daqueles à moda antiga que aferroavam toda uma comunidade com chavões maldizentes e transformavam o acto de um na prática de todos, desses já não há. Não se assumem. Porque eles sabem no que deu o racismo. Por isso não são racistas, são apenas e só cidadãos conscienciosos que têm o direito moral, e porque não dizer, a coragem, de dizer o que precisa ser dito, e fazer o que precisa ser feito. Assim o repetem sorrateirinho para os seus botões. “Racista não, mas observo a realidade”.

Eu, que até tenho alguns desses não-racistas na família, fico a pensar que depois desta, digamos, reformulação conceptual, não lhes podendo chamar racistas terei que lhes chamar simplesmente de filhos-da-puta.

Sem nenhuma acrimónia.