Category Archives: corporações

Pequenas vitórias que contam

A Greenpeace afirma ter conseguido fazer a gigante multinacional Nestlé recuar nas suas actividades destrutivas na Indonésia através da força das redes sociais. O que se passou foi que o departamento de marketing da Nestlé cometeu o velho erro de tentar censurar um vídeo no Youtube e com isso atiçou a curiosidade dos internautas gerando muita má publicidade.

A Greenpeace acusa a Nestlé de estar ligada através de subsidiárias à desflorestação na Indonésia.

A força da Internet e particularmente das redes sociais, sobretudo nesta era de um excesso absurdo no fluxo de informação, está mais na capacidade de estabelecer ligações do que na mera difusão de conteúdos. Como disse o activista da Greenpeace: “It’s no longer about broadcasting, it’s about interaction”.

Voltando a 8 de Junho

Fotografia: Sophia Evans

Fotografia: Sophia Evans

Passou-me ao lado o resultado final do julgamento que opunha a família de Saro-Wiwa à Shell cujo resultado foi conhecido a 8 de Junho. Ainda assim fica a informação:

Houve um acordo a reconhecer a cumplicidade da petrolífera Royal Dutch/Shell, a sua subsidiária nigeriana e do seu presidente, Brian Anderson, com práticas de tortura, assassinatos, e outros abusos dos direitos humanos em meados dos anos 1990 na região Ogoni do Níger do Delta. O acordo obriga ao pagamento de 15,5 milhões de dólares.

Judith Chomsky, uma das advogadas que representou os Saro-Wiwa, cunhada de Noam Chomsky, disse no final que

“A força de espírito dos nossos clientes nesta luta de 13 anos para responsabilizar a Shell ajudou a estabelecer um princípio que vai para lá da Shell e da Nigéria – que as corporações, não importa ou quão poderosas sejam, serão obrigadas aos padrões dos direitos humanos.”

É um pensamento optimista e muito bondoso para com os sistema judiciais vindo de uma velha advogada dos direitos humanos e activista contra a guerra do Vietname. O optimismo é necessário, sem dúvida, mas não sejamos demasiado entusiastas do que sabemos perfeitamente que é uma farsa. O valor pago é uma ninharia comparado com o que a Shell arrecadou em Ogoni, o crime compensou largamente. A própria Shell chamou à compensação financeira um gesto de simpatia negando a culpa no assassinato dos “9 Ogoni”. E no mesmo momento em que a Shell é condenada pelas suas acções criminosas na Nigéria, vem a público o que faz outra corporação predadora no mesmo país.

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Julgamento histórico contra a Shell

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Fotografia: Sophia Evans

Após 14 anos do julgamento forjado pela ditadura nigeriana contra o activista Ken Saro-Wiwa e os seus oito colegas ogoni que resultou na sua execução, está marcado para 26 de Maio em Nova Iorque o julgamento da petrolífera Shell pelo seu envolvimento nos acontecimentos.

A Shell começou a produção de petróleo no delta do Níger em 1958. Desde então, o povo ogoni da região com o mesmo nome, viu o seu modo de vida agrícola e piscatório ameaçado por poços de detritos a céu aberto e oleodutos a cruzar  a região, devastação ambiental e poluição a somar à pobreza e aos abusos dos direitos humanos.

O movimento que se formou em resposta (MOSOP) foi surpreendente para as autoridades e para a multinacional que não esperavam a resistência firme de milhares de ogonis. Ken Saro-Wiwa e os ogoni conseguíram levar à comunidade internacional o seu protesto pacífico que colocava em cheque as práticas neocoloniais da Shell e da Chevron, que afinal de contas são habituais nas grandes corporações, particularmente no terceiro mundo. A resposta foi o escalar da repressão usando de subornos às autoridades corruptas e violentas que culminou a 10 de Novembro de 1995 no julgamento e execução de nove ognoni, entre os quais a figura mais destacada do movimento reivindicativo, o autor e produtor televisivo Ken Saro-Wiwa.

Agora, devido a uma alteração na legislação norte-americana, a Shell e um dos seus executivos vão a tribunal acusados de crimes contra a humanidade, tortura e prisões arbitrárias. Do processo faz parte a acusação de suborno a duas testemunhas no julgamento dos nove ogoni. Testemunhas alvejadas pela polícia militar que defendia o oleoduto da Shell irão alegar cumplicidade da petrolífera ao pagar à polícia para proteger os seus interesses. Owens, irmão de Ken Saro-Wiwa, irá testemunhar que  Brian Anderson, o director executivo da subsidiária da Shell na Nigéria, lhe disse aquando do julgamento contra o seu irmão: “Não seria impossível desistir das acusações se os protestos forem cancelados”. Quanto a isso, as últimas palavras de Saro-Wiwa não deixaram margem para dúvidas: “Senhor, leva a minha alma, mas a luta continua.”

Saro-Wiwa havia jurado que a Shell ainda haveria de ser julgada pela sua morte. No próximo 26 de Maio, 14 anos após a sua morte, o seu desejo vai ser cumprido num tribunal de Nova Iorque.

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Poema de Ken Saro-Wiwa, escrito após a sua detenção na prisão de  Port Harcourt

Ogoni! Ogoni!

Ogoni is the land
The people, Ogoni
The agony of trees dying
In ancestral farmlands
Streams polluted weeping
Filth into murky rivers
It is the poisoned air
Coursing the luckless lungs
Of dying children
Ogoni is the dream
Breaking the looping chain Around the drooping neck of a shell-shocked land.

Mais informação em:

Remember Saro-Wiwa
Wiwa vs Shell
Earth Rights

Adenda: Coincidentemente, ou não, a Nigéria volta às notícias no dia de hoje por um problema idêntico ao que originou este post. Pfizer vai pagar quase 55 milhões de euros por morte de crianças na Nigéria. O caso remonta a 1996, quando uma epidemia de meningite fez mais de 11.000 mortos na Nigéria. A Pfizer teria enviado médicos que recolheram 200 crianças para serem usadas como cobaias nos ensaios do Trovan, um novo medicamento. 11 crianças morreram e 181 outras sofreram danos cerebrais

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Vá para a cadeia

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Subornos para fechar cadeias estatais que concorrem com privadas já não é novidade nos Estados Unidos. Inventar presos para receber mais algum do Estado também não. O negócio agora é prender o mais possível para aumentar a população prisional e assim aumentar também as receitas. Com a vantagem de não indignar os contribuintes por estarem a pagar pela estadia de presos que não existem.

Dois juízes da Pensilvânia foram condenados a semana passada por receberem subornos para prender indevidamente cerca de 2000 adolescentes. Uma por ridicularizar o director da escola numa página de Internet, outra por invadir um edifício desocupado, outra por esbofetear uma amiga durante uma discussão.

Uns dirão que são casos pontuais que podem acontecer sempre, que é inevitável e faz parte do sistema, que existem mecanismos para lidar com isso, que estamos em estados democráticos de direito e são casos de justiça (a justiça que leva a justiça à justiça). Outros respondem simplesmente: “é o negócio, estúpido”.

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A World Enslaved

Um dos factos mais demolidores para a ideia de que a humanidade tem vindo a progredir social, política e culturalmente ao longo dos séculos, é a constatação de que, no dealbar do séc. XXI, a escravatura não só não desapareceu mas há hoje mais escravos do que no auge do tráfico negreiro, quando a escravatura estava legalmente instituída.

E. Benjamin Skinner fez uma pesquisa, durante quatro anos, pelos cinco continentes, da escravatura no mundo moderno, que descreve no artigo A World Enslaved para o Foreign Policy.

In Africa, tens of thousands are chattel slaves, seized in war or tucked away for generations. Across Europe, Asia, and the Americas, traffickers have forced as many as 2 million into prostitution or labor. In South Asia, which has the highest concentration of slaves on the planet, nearly 10 million languish in bondage, unable to leave their captors until they pay off “debts,” legal fictions that in many cases are generations old.

No início do seu artigo ele descreve a conversa que teve com o facilitador do negócio de venda de seres humanos – ou agente de emprego, como ele se autodenomina – dos quais dois terços são crianças. Demorou-lhe apenas cinco horas desde Nova Iorque até conseguir realizar este negócio no Haiti.

Um aspecto para o qual ele nos chama a atenção é o erro de se pensar que grande parte desta escravatura é sexual. Na verdade, para cada mulher ou criança escravizada no comércio do sexo, há pelo menos 15 homens, mulheres e crianças escravizados de outras formas, como o trabalho doméstico ou agrícola.

O que fazemos nós, no ocidente da abundância, para combatermos este flagelo?

Benjamin Skinner apela a novos paradigmas legislativos de luta contra a escravatura. Aqui, não posso deixar de estranhar que se pretenda encontrar uma solução no mesmo código de leis que é irredutível na protecção da globalização capitalista, do novo colonialismo das multinacionais, da cooperação com os regimes corruptos e ditatoriais do terceiro mundo e que permite e fomenta guerras dementes.Romper com esta lógica terá de ser de baixo para cima, dos escravizados para os escravizadores e não o contrário. E nós, no nosso conforto e abundância primeiromundista, teremos que começar por não compactuar com o mercantilismo escravizante, deixando de fornecer hordas de consumidores inconscientes e manipuláveis à lei da oferta e da procura.

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