Amor e uma cabana


“Que bom! Diz aqui que a contenção salarial está a salvar a economia.”

Falem mal mas falem de mim


Fomos demasiado maltratados nos últimos meses pela imprensa, mas ganhamos um argumento valioso que agora podemos usar: somos os que mais assustamos, somos os desobedientes, os que verdadeiramente confrontam a ordem instituída. Nos próximos tempos podemos inverter o efeito da campanha terrorista mediática entre aqueles que tenham em si ainda alguma semente de revolta. À nossa escala e dentro das nossas possibilidades actuais, mas não podemos deixar escapar a “publicidade” gratuita que nos deram. Não somos um grupelho político violento ansioso por obter atenção e poder. Somos a expressão visível dos mais apaixonados sentimentos de solidariedade e revolta. Rejeitamos tomar o poder, rejeitamos as hierarquias, rejeitamos que nos ponham a mão em cima. Só queremos ser livres. E como nós há muitos por aí, que de momento até podem não querer levantar a bandeira negra, mas podem estar connosco nas lutas.

[somos] “Os radicais dos radicais – os gatos pretos, o terror de muitos,
de todos os intolerantes, exploradores, charlatães, falsos e
opressores. Consequentemente somos os mais injuriados, deturpados,
incompreendidos e perseguidos de todos.” Bartolomeo Vanzetti

uma navalha, uma catana de 40 centímetros e um estilete

A GNR deteve hoje de madrugada na fronteira do Caia (Elvas) duas pessoas que tinham armas brancas e vários panfletos com mensagens anarquistas e anti-polícia, disse à Lusa fonte daquela força de segurança.

A GNR encontrou no interior do carro armas brancas, designadamente uma navalha, uma catana de 40 centímetros e um estilete, e vários panfletos com mensagens anarquistas e anti-polícia

Os megafones da Nato continuam a deslumbrar pela sua audácia. Mais uma notícia-maravilha a enaltecer os heróis e a criminalizar os terroristas.

Cimeira da Nato: primeira vítima da violência policial

Militar da GNR ferido em exercício de preparação para cimeira da NATO

Até ao momento os holofotes têm incidido muito mais sobre a polícia e a guarda do que sobre os manifestantes que eles querem reprimir, ou até sobre a cimeira propriamente dita e aos políticos superstars que aí vêm. Quanto à violência que serve de pretexto a todo o aparato militar e mediático que tem sido montado, também está a ser monopolizada pelas forças repressivas.

Pôr o dedo na ferida

«Todas estas possibilidades, em aberto, para nossa intervenção, estão condicionadas pela capacidade de nos articularmos e associarmos, já que só movimentos sociais organizados têm condições para transformar qualquer situação social. Nossa fragilidade organizativa: incapacidade de associação e coordenação em cada região e mais ainda internacionalmente, são por demais evidentes para não serem vistas como um dos problemas chaves do que genericamente chamamos de movimento libertário. Não se solucionando isto, será impossível qualquer ativismo profícuo, qualquer resultado duradouro para a nossa militância ou a transmissão de uma cultura libertária entre gerações. Por essa razão podemos afirmar que, de forma imediata, teremos de encarar a questão da associação, articulação e coordenação de nossas práticas. O que passa também pela clarificação do papel da organização libertária, que é, antes do mais, o de criação de um espaço coletivo, livre e fraterno, onde se forjem novas relações sociais e se viva de acordo com os valores da cultura libertária, como aconteceu no passado quando “os trabalhadores e os pobres não estavam nem de longe tão isolados e nem submetidos ao monopólio ideológico da mídia dos negócios.” Foi por isso que a esperança e a utopia se reproduziam nesses espaços libertados onde viviam os excluídos. É esta uma das funções que temos de recuperar para as associações libertárias, ao mesmo tempo que se assumam como um núcleo de difusão das idéias anarquistas e de articulação da luta de resistência anti-capitalista.
As formas concretas de associação podem ser diversas, das organizações anarco-sindicalistas, às federações de grupos de afinidade, das redes de informação, às associações de ateneus e centros de cultura. O fundamental é federalizar e coletivizar práticas e experiências isoladas, ampliando assim as possibilidades de intervenção social. A ruptura com o isolamento e o individualismo do cidadão-consumidor-espectador – papel que o Sistema nos quer impor – é o passo mais decisivo no caminho da reconstrução do espaço coletivo da alternativa social.
Só através de um associativismo libertário que respeite a autonomia, singularidade e diferença entre cada indivíduo ou grupo, mas que seja capaz de potencializar, acima de tudo, o que temos em comum, fundamento de qualquer relação de afinidade, solidariedade e apoio mútuo, poderemos criar uma dinâmica nova no movimento e concretizarmos de imediato as formas organizacionais que propomos para a sociedade.
Este é o modelo reconhecido por qualquer anarquista, mas que tantas vezes negamos ao adotar posturas dogmáticas e arrogantes, confrontos personalizados, criticismos inconseqüentes, resultantes do descomprometimento com a ética anarquista. Essa ética que nos leva a exigir uma adequação dos meios aos fins um ponto importante da nossa crítica ao socialismo autoritário deve assumir um papel central na militância libertária, condicionando imperativamente nossa prática social. Uma realidade em que estão presentes tensões permanentes, resultantes das pressões do meio social, da introjeção dos valores dominantes e das limitações pessoais, mas que será sempre o critério determinante para a avaliação da coerência de cada um de nós. A ética anarquista e os valores libertários tornam-se, assim, pontos da ruptura radical com as ideologias autoritárias, constituindo a mais profunda clivagem com o socialismo autoritário. A rebeldia, a transformação social só podem ser um produto da vontade livre de sujeitos autodeterminados e solidários vivendo dentro de uma dada realidade histórica e social. Jamais produto das condições materiais de produção. Essas sempre potenciarão a maximização da alienação e da sujeição.»

Excerto de O Anarquismo Hoje, de António Sousa

Mais duas peças jornalísticas infames

Mais de mil Black Block na Cimeira

Cimeira NATO: grupos violentos já estarão em Portugal

Jornalistas Susana Otão, Carlos Varela e Pedro Rosmaninho, ide-vos catar mais as vossas mentiras.

Se um agente te bater à porta

When they kick out your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun

When the law break in
How you gonna go?
Shot down on the pavement
Or waiting in death row

The Clash

“Se um agente te bater à porta” é um manual de auto-defesa contra as forças repressivas do estado, mas infelizmente é primariamente dirigido à realidade norte-americana. Ainda assim, há muito em comum. Desde logo as ferramentas tecnológicas, desde telemóveis, ao email, passando pela simples navegação web, padecem de vulnerabilidades comuns tanto aqui como nos EUA. O simples facto de se assinar uma petição online pode colocar-nos na lista negra das polícias internacionalmente, e levar-nos a ser barrados em aeroportos, por exemplo. É necessário ter alguns cuidados para minimizar os riscos. Uma questão que é preciso ter sempre em mente é que a polícia não respeita a lei. A lei é uma ferramenta como é a arma de fogo, pronta a ser usada se for útil ou descartada se não.

A evitar é o perigo de ceder à paranóia da vigilância ou o medo da infiltração, que levam à inacção e ao enfraquecer dos laços entre activistas por causa da desconfiança. Deve-se, pelo contrário, cultivar de forma transparente o que o CrimethInc. chama de cultura de segurança.

StopBanque, iniciativa cívica espontânea

Uma acção direccionado ao coração do “sistema” à qual ficar atento: StopBanque, um apelo à retirada massiva de dinheiro do banco e ao fecho das contas de poupança, no dia 7 de dezembro de 2010. Parece que a iniciativa já conta com uns milhares de adesões por toda a Europa e já teve destaque em alguma imprensa.

“Si cette action est collective, et massive, nous pouvons les faire trembler.”

Além do site acima linkado, pode-se seguir os acontecimentos na página do StopBanque francês no Facebook, e uma tradução em português também no Facebook.

Últimas da fabricação do consenso à volta da cimeira da Nato (e não só)

Público: Blindados da PSP não deverão chegar a tempo da Cimeira
“Sabe-se, no entanto, que a PSP entende que as viaturas são consideradas essenciais pois pretende-se a sua utilização posterior em acções nos mais de 300 bairros problemáticos de todo o país.”

Público: Manifestantes preparam-se para confrontos
“A contestação à cimeira da NATO, que vai decorrer em Lisboa, nos dias 19 e 20 deste mês, deverá começar a fazer-se sentir quatro dias antes, altura em que grupos contestatários têm previsto o início da afixação de cartazes contra o evento.”

Conselhos de moda para os bravos e fabulosos

O CrimethInc. preparou há dois anos uma lista de conselhos para manifestantes, que agora recordo pois poderá ser útil para o momento que vivemos. Destina-se a todo o tipo de manifestantes, incluindo os que pretendem manter as suas acções dentro do rigoroso cumprimento da lei. O “quem não deve não teme” não se aplica nestas situações. E nem a outras já agora. O caso mais recente de que tive conhecimento foi, há uns dias, em Santiago de Compostela, a polícia forçar sem ordem judicial a entrada em casa das pessoas para as compelir a retirar cartazes das janelas com a mensagem para o papa: “eu não te espero”.

As críticas estéticas e de simbolismo às tendências da moda para protestos de massas neste Outono/Inverno são no mínimo inconsequentes e desprovidas de sentido prático, e no seu pior sectárias, demonstrando falta de solidariedade e incapacidade de compreensão das novas realidades de controle e vigilância social operadas pelos Estados. Por isso, são de rejeitar comparações com insurreições passadas como o Maio de 68

ou Stonewall nos Estados Unidos

por todos os motivos apresentados no vídeo seguinte, que deverá ser visto particularmente por quem se prepara para se manifestar contra a Nato ou até contra a crise (sejamos optimistas) e não tenha bem consciência de como funcionam as forças repressivas estatais.

Os melhores cartazes da Marcha para Restaurar a Sanidade e/ou o Medo

Alguns cartazes são realmente fabulosos.

Não deixem os americanos roubar os nossos trabalhos

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Evidência avassaladora

Detalhe do Grande Orador, 1944 de Irving Norman.

“Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos de pessoas que mantêm as suas crenças mesmo perante evidências avassaladoras em contrário. […] Num estudo, David Gal e Derek Rucker da Universidade do Noroeste descobriram que quando a confiança das pessoas nas suas crenças é abalada, elas tornam-se defensoras mais acérrimas das suas crenças.” Discover

O objecto deste estudo foi a manutenção de crenças perante evidências avassaladoras, porque se fosse sobre o que despoleta o abandono dessas crenças a resposta seria simples:

“Se contarmos uma mentira suficientemente grande e continuarmos a repeti-la, eventualmente as pessoas passarão a acreditar nela.”
Joseph Goebbels

“Veja, na minha linha de trabalho temos de continuar a repetir as coisas uma e outra vez para a verdade penetrar.”
George W. Bush

Breve resenha histórica sobre o Saara Ocidental

“Em 1960, a ONU adoptou a resolução 1514, que estabelece que todos os povos têm direito à autodeterminação e que o colonialismo devia ser conduzido a um final rápido e incondicional. Meio século depois, os leitores podem surpreender-se ao inteirar-se de que ainda há dezasseis territórios no mundo que ainda esperam conseguir a descolonização. Conhecidos como “territórios sem autogoverno”, a lista de lugares ainda regidos por poderes estrangeiros contém nomes familiares: Gibraltar e as Ilhas Falkland (Malvinas), para assinalar apenas duas. Mas enquanto alguns desses territórios, como a pequena ilha de Tokelau no Pacífico, são dependências das quais se poderia dizer que recusaram a independência e escolheram democraticamente manter o seu estatuto territorial, outros casos são mais polémicos. O mais notável é o do Saara Ocidental, conhecido como a última colónia de África, que lutou pela autodeterminação durante mais de 35 anos contra o vizinho Marrocos.”

Continuar a ler o artigo de Ken Loach e Stefan Simanowitz que faz uma breve e clara resenha histórica da situação do Saara Ocidental.

Wikileaks: a maior fuga de informação militar da história

“A 22 de Outubro de 2010 o site WikiLeaks publicou a maior fuga de informação militar da história. São 391.832 relatórios a documentar a guerra e ocupação do Iraque, de 21 de Janeiro de 2004 até 31 de Dezembro de 2009 (com excepção dos meses de Maio de 2004 e Março de 2009), tal como foram contados por soldados do exército dos Estados Unidos. Cada um deles é um SIGAT, ou acção significativa na guerra. Detalham os eventos como foram vistos e ouvidos pelas tropas norte-americanas no terreno e são o primeiro olhar real à história secreta da guerra que o governo dos EUA tem mantido em segredo durante este tempo.”

Wikileaks e dossier do Guardian

via Vento Sueste

O capitalismo não cairá por estar podre

Os fazedores de opinião progressistas e de esquerda têm contribuído para criar uma ideia de crise que não existe, já que o grande capital está de boa saúde e a aumentar os lucros. A insistência de que o capitalismo encerra em si contradições que o fará entrar em crise e colapsar tem sido uma constante e é um grave erro estratégico da parte das forças opositoras ao capitalismo, que se repete na actual conjuntura. A crise é uma crise da classe trabalhadora e das pequenas e médias empresas e tem sido alimentada pela ganância das grandes empresas, com a ajuda dos Estados e a cumplicidade dos patrões dos sindicatos. Com a percepção pública da existência da crise, corroborada pelos fazedores de opinião progressistas crentes nas contradições internas do capitalismo que o derrotarão, cria-se a receptividade às medidas de austeridade e recuo dos direitos e desmobiliza-se a contestação social.

A ler no Voltaire Net o artigo de James Petras que sustenta estas teses: Que crise económica? Os lucros aumentam!

[França] Informe de membros da CNT-AIT sobre as manifestações contra os planos de Sarkozy


Grevistas bloqueiam entrada da refinaria de Grandpuits. (21/10) – AP

 

A situação na França está subindo de temperatura:

Por um lado, os jovens alunos estão participando efetivamente da luta. O governo teme que essa situação possa levar a um “cenário grego”. Em 2006, a luta dos estudantes contra a “reforma do CPE” conseguiu derrubar uma lei que tinha sido aprovada.

A juventude francesa, que está sob repressão policial constante, expressa agora a sua raiva contra o sistema e especialmente contra a polícia. Houve alguns confrontos muito duros contra os agentes antidistúrbios nas cidades mais populares, nos subúrbios ao redor de Paris, mas também em cidades de toda a França.

Num primeiro momento, o governo criticou os jovens por serem manipulados e disseram que o lugar deles era na sala de aula, não na rua. Mas como o governo aprovou uma lei anos atrás que estabelecia que os adolescentes podiam ser penalmente responsáveis pelos seus atos, a juventude respondeu que se eles tinham idade suficiente para ir para a cadeia com 13 anos, também podiam discutir política e se manifestar nas ruas.

Agora o governo está tentando incitar o medo dos “jovens delinqüentes” que participam do movimento apenas para quebrar tudo e pela violência. Mas, na realidade, esses argumentos não funcionam muito bem (até agora) e as pessoas continuam apoiando o movimento.

Ademais, os trabalhadores em determinados setores estratégicos, como transportes, portos e transportes de combustível, essencialmente, mantém sua greve e até mesmo aumentaram o seu nível de luta.

Pelo menos dois terços dos depósitos de combustíveis foram deixados vazios (em parte pelo bloqueio, em parte porque as pessoas estavam com medo da escassez e correram para as bombas de gasolina… este sentimento irracional de pânico foi uma grande ajuda para os grevistas pela confusão que foi criada).

A rede de abastecimento esteve prestes a entrar em colapso. Isso levaria a um colapso total da economia, assim o próprio presidente decidiu hoje enviar o exército e a polícia para interromper o bloqueio. Os trabalhadores decidiram evitar o confronto e continuar a luta por outros meios.

Além disso, vemos o início da auto-organização em algumas áreas e cidades. Mesmo que isso ainda não tenha um caráter massivo pode ter um impacto significativo no movimento geral.

Por exemplo, em Toulouse, o sindicato local da CNT-AIT, convocou assembléias populares. A razão destas assembléias populares é para dar liberdade de expressão, para demonstrar que a política não é apenas para profissionais ou especialistas, para promover o pensamento crítico e a auto-organização.

Durante as primeiras manifestações, estas assembléias reuniam apenas 50 pessoas, mas depois o número aumentou 10 vezes (300 no dia 2 de outubro, 500 no dia 12, entre 500 e 700 no dia 16). Essas assembléias populares foram montadas com calma e determinação. Por exemplo, em 2 de outubro, quando a polícia exigiu que a assembléia fosse dissolvida, o público se recusou e continuou reunido durante 3 horas ocupando o centro da cidade sem ser incomodado. Tudo pelo poder que dela emana. Isto resultou em uma manifestação espontânea no centro da cidade. Este modelo organizacional está se expandindo, na Universidade de Mirail, cidades como Auch, Montauban, Figeac (onde existem outras seções da CNT-AIT) ou Poitiers (onde não há nenhuma).

Sobre a repressão policial, em algumas cidades os antidistúrbios estão muito nervosos. Eles agem com muita brutalidade. Na cidade de Caen dispararam à queima-roupa uma granada de gás lacrimogêneo no rosto de um manifestante. A lata de alumínio da granada se incrustou em seu crânio, e ele teve a sorte de sobreviver. A CNT-AIT de Caen está em contato com a família do manifestante. Vamos mantê-lo informado sobre este assunto. Em Montreuil, um subúrbio de Paris, um estudante foi atingido com um tiro de “flash” disparado pela polícia, o impacto na cara fez com que ele perdesse parte do rosto e pode perder um olho.

Mas em muitas outras cidades, especialmente em cidades portuárias como St Nazaire, Le Havre, Boulogne foram registrados fortes confrontos entre manifestantes e a polícia.

Desde o início do conflito mais de 2000 pessoas foram detidas durante as diversas ações.

Além dos embates mais espetaculares, muitas ações menores foram organizadas para tentar popularizar a idéia da greve geral. Por exemplo, em 13 de outubro participamos de um piquete em frente à fábrica da Peugeot em Aulnay para atrair outros trabalhadores para o movimento. Mas devemos dizer que embora muitos trabalhadores simpatizem com a causa não podem se unir ao movimento pelo montante de dívidas que eles têm que pagar. É por isso que nós estamos pensando sobre as ações que as pessoas podem fazer sem perder todo o seu salário, como a sabotagem, interrompendo a produção, bloqueios econômicos circulares… por exemplo, na biblioteca da Universidade de Paris XIII, os trabalhadores estão em greve cada um em um dia diferente. Ao fazer isso, o sistema para sem que os trabalhadores percam muito…

Tentamos ampliar os focos do movimento num sentido mais capital em seu aspecto internacional. Por exemplo, em Clermont Ferrand, o nosso sindicato local organizou durante a última manifestação um ato em solidariedade com os trabalhadores do Peru, em frente a uma loja da Zara.

Mas neste sábado começa uma semana de feriados nacionais, o governo espera que o movimento estudantil se esvazie e que o resto o siga.

Continuaremos informando…

Pelo comunismo libertário!

Longa vida anárquica!

Em solidariedade,

Membros da CNT-AIT Paris

• Imagens do protesto:

http://g1.globo.com/mundo/fotos/2010/10/veja-imagens-dos-protestos-contr…

agência de notícias anarquistas-ana

Redução das opções ideológicas ao mínimo

“O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projecto alternativo de Manuel Alegre.”

Depois de uma análise certeira da actualidade Boaventura de Sousa Santos concluiu desta forma, espelhando o completo marasmo, o atrofio de ideias, o total conformismo da grande massa social-democrata que monopoliza para nossa desgraça o campo contestatário. Mas o articulista não percebe que foi apanhado no engodo que ele próprio denunciara momentos antes?

a segunda [a ditadura mole] manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas

As opções ideológicas dessas “alternativas” não são mais do que o mesmo que temos, mas com uma maquilhagem diferente. Mais social-democracia, embora chamando-lhe comunismo ou socialismo, mais capitalismo, embora proclamando-o mais humano, mais mercados, embora mais regulados (por eles), mais crescimento, embora desejando que seja mais sustentável, mais legalismo, que se na oposição já são legalistas não mudarão com o poder, mais política parlamentar, também mais do mesmo, mais patriotismo, idem aspas. Já não dá para acreditar que um projecto político alternativo possa passar pelo parlamento ou pela presidência, quando sabemos da influência que os mercados têm na política.

Saul Newman sobre o anarquismo pós-estruturalista

Saul Newman é um académico que se tornou conhecido nos meios radicais por ser um dos principais teoristas do pós-anarquismo, abordagem que pretende ser a justaposição da crítica pós-estruturalista de, entre outros, Michel Foucault e Gilles Deleuze, às possibilidades de resistência e transformação social do anarquismo clássico. Este projecto apareceu inicialmente e desenvolveu-se, entre outros trabalhos com menos impacto, com o livro de Todd May The Political Philosophy of Post-Structuralist Anarchism, em 1994, seguido do livro de Saul Newman From Bakunin to Lacan: Anti-Authoritarianism and the Dislocation of Power, em 2001, e do livro de Richard Day Gramsci is Dead: Anarchist Currents in the Newest Social Movements, em 2005.

Este é um artigo de Newman de 2003, publicado inicialmente no Institute for Anarchist Studies, agora traduzido para português pela Conspiração Anti-cultural Universidade Invisível e colocado no Indymedia brasileiro, ao qual dei alguns retoques. Não subscrevo tudo o que aqui é dito, nem em outros trabalhos dentro do pós-anarquismo, mas são sem dúvida contribuições importantes para o anarquismo contemporâneo. O termo pós-anarquismo é bastante infeliz, pois não se trata de ir para além do anarquismo, nem sugerir que o anarquismo se encontra obsoleto. Por essa razão há quem prefira o termo anarquismo pós-estruturalista.

As Políticas do Pós-Anarquismo

Saul Newman

Recentemente, a política radical têm enfrentado um sem-número de novos desafios, contando com a reemergência de um Estado agressivo e autoritário em um novo paradigma de segurança e biopolítica. A “guerra contra o terror” funciona como o mais recente disfarce para a reafirmação agressiva do princípio de soberania do Estado, para além dos limites tradicionais impostos a ele pelas instituições legais ou políticas democráticas. Em aliança a isso, há a hegemonia dos projetos neoliberais de globalização do capitalismo, assim como o obscurantismo ideológico da assim chamada Terceira Via. A desilusão profunda que veio com o colapso dos sistemas comunistas há quase duas décadas resultou em um vácuo político e teórico para a esquerda radical, que tem sido em geral inefetiva em suas tentativas de conter a ascensão da extrema direita na Europa, assim como a um ‘conservadorismo rastejante’ cujas implicações ideológicas começam a se determinar.

O momento anarquista

É talvez por causa do desamparo em que se encontra hoje a esquerda que têm havido um novo interesse no anarquismo como alternativa radical ao marxismo. De fato, o anarquismo sempre foi uma espécie de ‘terceira via’ entre o liberalismo e o marxismo, e agora, com o desencanto geral sentido tanto em relação ao liberalismo estilo “livre-mercado’ e o socialismo centralista, o apelo do, ou ao menos o interesse no, anarquismo tende a aumentar. Esse ressurgimento também é devido à proeminência do movimento de anti-globalização (um termo bastante amplo, aliás). Esse é um movimento que contesta a dominação da globalização neoliberal em todas as suas manifestações – da cobiça corporativa à degradação ambiental e os alimentos geneticamente modificados. Baseia-se à volta de um programa de protestos sociais amplo que incorpora uma multitude de preocupações e identidades políticas diferentes. No entanto, o que estamos observando aqui é claramente uma nova forma de política radical – fundamentalmente diferente tanto das políticas particularizadas da identidade que têm prevalecido nas sociedades liberais ocidentais, quanto da antiga política marxista da luta de classes. Por um lado, o movimento anti-globalização une diferentes identidades à volta de uma luta comum; por outro, esse campo em comum não é determinado a priori, ou baseado na prioridade de interesses de uma classe em particular, mas articulado de forma contingente durante a luta em si. O que torna esse movimento radical é sua imprevisibilidade e indeterminância – a forma como ligações e alianças inesperadas são formadas entre diferentes identidades e grupos que, de outra forma, teriam pouco em comum. Ao mesmo tempo em que esse movimento é universal, no sentido de invocar um horizonte emancipativo comum que constitui as identidades dos participantes, ele rejeita a falsa universalidade das lutas marxistas, que negam a diferença e subordinam as outras lutas ao papel central do proletariado – ou, mais precisamente, ao papel vanguardista do Partido.

É essa recusa de políticas centralistas e hierárquicas, essa abertura à pluralidade de identidades e lutas diferentes, que torna o movimento anti-globalização um movimento anarquista. Não é anarquista somente porque os grupos anarquistas são proeminentes nele. O que é mais importante é que o movimento anti-globalização, sem ser conscientemente anarquista, incorpora uma forma anarquista de política em sua estrutura e organização [1] – que é descentralizada, pluralista e democrática – assim como a inclusividade. Da mesma forma que anarquistas clássicos como Bakunin e Kropotkin insistiam, em oposição aos marxistas, que a luta revolucionária não deve ser confinada por interesses classistas do proletariado industrial, e deve ser aberto ao campesinato, ao lúmpen-proletariado, aos intelectuais déclassé, etc., também o movimento contemporâneo inclui uma ampla escala de lutas, identidades e interesses – sindicatos, estudantes, ambientalistas, grupos indígenas, minorias étnicas, ativistas contra a guerra, e por aí vai.

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Acção com sentido vs acção estéril

«Acção com sentido, para os revolucionários, é o que quer que aumente a confiança, a autonomia, a iniciativa, a participação, a solidariedade, as tendências igualitárias e a actividade autónoma das massas e o que quer que assista à sua desmistificação. Acção estéril e danosa é qualquer uma que reforce a passividade das massas, a sua apatia, o seu cinismo, a sua diferenciação numa hierarquia, a sua alienação, a sua confiança em que outros façam as coisas por si e o grau pelo qual podem ser manipulados por outros – até por aqueles que alegadamente agem em seu nome.»

Maurice Brinton / Solidarity, About Ourselves, 1967

E qual é o recado, podemos saber?

«O comandante da Unidade Especial de Polícia da PSP prevê que cimeira da Nato seja complicada em termos de segurança. Os elementos da PSP estão a receber formação extra para dar conta do recado nos dias em que vai estar em Lisboa, entre outros, o presidente dos Estados Unidos.»

A não perder o vídeo desta “acção de formação” no site da RTP. Gostei em especial do martelão com o penacho inca.

Estes tipos não se cansam de nos surpreender.

Arroz e massa para Ricardo Gonçalves

O deputado Ricardo Gonçalves não está satisfeito com a generosa solidariedade mostrada na campanha Banco Alimentar Parlamento e por isso volta à carga com novo comunicado. Bem, não é propriamente um comunicado novo. É o mesmo comunicado com upgrade.

Ponto de destaque: no upgrade deixou de constar a ameaça de processo judicial. Realmente não fazia sentido desperdiçar o parco rendimento de deputado da nação em processos desta natureza.

Acrescentou também os seguintes esclarecimentos:

Em vários parlamentos da Europa a cantina está aberta ao jantar, sem que os opinadores lá da terra se escandalizem. Já foram tomadas medidas como cortarem os cafés e os chás que sempre eram servidos durante as reuniões das comissões.
Mas tudo bem! Cabe aos políticos darem o exemplo.
Há muitos anos que eu alerto para a situação difícil a que o país podia chegar. Hoje é necessário coragem e coesão para enfrentarmos a realidade.

A denúncia de graves carências na classe dirigente alarga-se a vários países da Europa. Estamos pior do que pensávamos. Já não há sequer café nem chá no parlamento. A austeridade chegou em força e os deputados preparam-se para a aceitar com abnegação.

Mas o ponto mais dramático deste upgrade, capaz de fazer chorar as pedras da calçada e enternecer o coração mais empedernido, é a identificação que o deputado Gonçalves estabelece entre ele e o resto de nós. As mesmas agruras, as mesmas privações. É necessário “enfrentarmos” a realidade, porque afinal de contas estamos todos no mesmo barco.

Mas deixemos de lado os sentimentalismos e passemos aos factos. Este novo comunicado tem também um post scriptum.

PS: É muito interessante constatar que a alguns órgãos de comunicação social não interessa informar que os cidadãos, que estão a desempenhar temporariamente o lugar de políticos a tempo inteiro, deixaram – e bem – de receber a subvenção vitalícia, deixaram de receber o subsídio de reintegração, sofreram um corte, o tal simbólico, de 5% no mês de Maio, agora sofrem, tal como os restantes trabalhadores públicos, o corte de 9 ou 10%, para além do incremento da taxa de descontos para a CGA, ADSE e IRS. Há órgãos de comunicação social que falam nos salários sem esclarecer que se tratam de valores brutos aos quais incidem os cortes previstos, os impostos directos e as taxas a que obrigatoriamente estão sujeitos.
Não é o meu caso pessoal – que interessa, – mas eu não me queixo. Nunca foi o dinheiro que me moveu na política e percebo perfeitamente a indignação de muitos portugueses que hoje atravessam dificuldades. Mas ninguém me pode impedir de dizer a verdade sem sofrer deturpações. Na actual democracia toda a gente pode falar, reclamar e protestar, à excepção dos que exercem missões políticas. No tempo do Estado Novo era ao contrário: só podiam falar os políticos da situação e o povo era obrigado a calar.
Viva a democracia!

Ele não se queixa e a ele ninguém o cala. À carência económica a que está sujeito pelo facto de ser político e deputado, junta-se a mordaça que a democracia lhe impõe. Voltaire escreveu premonitoriamente sobre o deputado Gonçalves quando criou a sua personagem Cândido, a quem a infelicidade e as desventuras sucediam incessantemente. Julgo que estamos bem entregues a deputados com esta categoria e com esta intensidade. Até me admira que ainda haja quem defenda a auto-organização como alternativa à representação. Fique-se a saber que como o deputado Gonçalves, há muitos mais no parlamento e na política. Bem hajam!

Crítica a L’Insurrection qui vient, a Tiqqun, ao Bloom e ao Partido Imaginário

Foto de biphop em Lyon

É uma longa crítica que Alex Gorrion faz no The Anvil Review ao ensaio L’Insurrection qui vient, ao jornal Tiqqun e ao Partido Imaginário. Longa mas com muitos pontos certeiros e muitas vezes demolidores, apesar do autor afirmar logo no início que

I want to critique The Coming Insurrection and some of the writings of Tiqqun not because I dislike these texts but on the contrary because I like them, because I find them interesting, and because they have become so popular.

Aliás, apesar de dizer que não se deterá nos pontos fortes das obras em questão por os achar evidentes e auto-explicativos, faz questão de os meter pelo meio do texto, entre críticas e argumentos. Os pontos fortes são principalmente dois: a análise da situação actual, a forma como se demonstra nos primeiros capítulos d’A Insurreição que vem que a guerra civil está por toda a parte à nossa volta; e o facto da comunicação ser feita por ressonância e não através de argumentação, que é essencial para criar motivação e empolgamento, e por consequência adesão.

Há 4 grandes pontos fracos que esta recensão encontra nesses textos e que são bem identificados com muitas citações das obras:

1. O primeiro é outra vez a comunicação por ressonância, em oposição à comunicação por apresentação de argumentos. Ou seja, por apresentarem uma descrição da realidade como evidente, confiantes que alguns leitores irão imediatamente se identificar com as suas palavras e que vão associar à sua própria experiência. O problema é que esta forma de comunicar sem argumentos só convence quem já está bastante predisposto para essas ideias. Os outros ficam de fora, o que para Alex Gorrion cria um dentro e um fora do Partido Imaginário.

Those with whom these texts resonate, which is to say, those who are predisposed to agree with them, will be inspired by the poetic language, the beautiful descriptions of their own isolated experiences, and empowered by the projection of strength, certainty, and confidence. For everyone else, the text will have no effect. Thus, the Invisible Committee’s chosen form of communication creates a strong divide between believer and gentile.

2. A juntar à ressonância eles somam um segundo problema grave de comunicação: o uso frequente de falsos truísmos. Apresentam algo como verdadeiro e de tal forma evidente que não precisa ser demonstrado mas que na realidade é falso.

For example: “this same lack of discipline figures so prominently among the recognized military virtues of resistance fighters.” [TCI, p.111]. Actually, one finds in the biographies of many if not most resistance fighters a strict personal and group discipline, which only some do not share. But the Invisible Committee simply does not engage with facts on this factual level. And the resonance-blinded reader will be predisposed to breeze through these errors.

3. Em terceiro está o elemento da totalização. Alex Gorrion argumenta que o Comité Invisível, tal como o seu predecessor Situacionista, propõe uma teoria da totalidade, uma teoria pela qual compreender a totalidade da dominação, da luta, da identidade, da existência. A sua teoria é sonante, interessante e inspiradora, mas seria reducionista aceitá-la como a única com validade. E no entanto é o que eles fazem, confundindo o dedo com a lua como o tolo na parábola zen.

4. Um quarto ponto fraco nos textos do Partido Imaginário é a não falsificabilidade. Este é um termo usado em ciência para garantir que determinada teoria é científica. Uma teoria falsificável é aquela que faz previsões sobre um fenómeno, esse fenómeno pode ser testado e no caso dos resultados serem negativos a teoria poder ser abandonada. Ora, eles vão além da linguagem poética, inspiradora, ou de descrições úteis da realidade e entram no campo da causalidade científica e propõem acções (semi)concretas. O problema é que essas incursões teóricas não são falsificáveis, isto é, testáveis contra a experiência, pelo que terão que ser aceites como tais, sem análise crítica.

Como disse, a recensão é muito longa e ataca muitos elementos da teoria exposta nestes textos, do método da sabotagem até à opção pela invisibilidade. Não vou fazer a exposição completa da crítica mas deixo aqui alguns momentos muito bem conseguidos para quem não quiser ler o texto todo:

We simply have to ask ourselves: what if the insurrection doesn’t come? What if we’re just getting jerked around, and capitalism finds a way out, secures itself a future existence, as it has every time so far? Will our participation in this civil war, the morale we need to be insurgents, be staked on the “fact” that the catastrophe is here? The communists drowned themselves in a hundred year defeat by gambling that capitalism contained a contradiction it could not overcome. Is the grand carousel of history, well past the point of tragedy, looking to serve up a little farce?

They’ve beefed up the importance of sabotage and the economic blockade, and they’ve thrown in a partially original call for invisibility.
They fail to answer or even ask what in my mind is the most important question regarding the defeat of this strategy: how to build the communes and the material basis for self-sufficiency—thus creating something to lose—while continuing to act like you have nothing to lose, which is to say, without falling into a defensive posture that facilitates recuperation or at the very least stagnation, seeking some uneasy truce with the dominant order.

For the Invisible Committee, in the insurrection they prophesy, the real one, their insurrection, we are all “whatever singularities,” without predicates, an emptiness brimming with possibilities. It’s a beautiful dream, and I, for one, believe in fighting for dreams. But there is a certain ownership they exercise over their insurrection, a certain power of exclusion the Invisible Committee have vis a vis the Imaginary Party, that could make this dream nothing more than a maneuver identical to the one by which the communists suppressed difference by demanding adherence to the unified identity of the Working Class. There are no women, there are no blacks, there are only members of the Imaginary Party.

Through their Bloom theory, the Invisible Committee make another of the same mistakes as Marx. Dialectical reasoning and their implicit assumption of a unilineal history make them look to the populations most advanced in capitalist development as the site of future revolutions. Scientific Marx predicted Britain and Germany, unscientific Bakunin predicted Russia, Italy, and Spain. Enough said.

Candura revolucionária

Em Ellis Island, um velho europeu de leste está a ser processado para imigração para os Estados Unidos da América. Ele encontra-se perante o funcionário dos serviços de imigração que lhe pergunta ruidosamente, sem olhar para ele: “Advoga o derrube do governo dos Estados Unidos pela subversão ou pela violência?” O velho homem pondera por um momento e depois responde: “VIOLÊNCIA!”.

Banco Alimentar Parlamento

Na foto: Ricardo Gonçalves à espera da hora de abertura da cantina da Assembleia para poder matar o bicho

Como ficamos a saber nos últimos dias, há deputados na Assembleia da República que correm o risco de passar dificuldades, a quem os parcos 3.700€ mensais, mais os 60€ diários para ajudas de custo se podem fazer escassos. O que permitiu tornar pública esta situação foi a corajosa denúncia feita pelo deputado socialista Ricardo Gonçalves que alertou para o facto de estarem a ser os políticos a terem os maiores cortes nos vencimentos e para a eventual necessidade de abrir a cantina da Assembleia da República à noite. Não deve ser fácil reconhecer as dificuldades a alguém na sua posição.

Mas em boa hora o blog Aventar avançou com uma iniciativa de solidariedade chamada Banco Alimentar Parlamento, destinada à recolha de alimentos para o deputado Ricardo Gonçalves. Vamos então todos ajudar.

“Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer”.

Em comunicado, Ricardo Gonçalves diz não se estar a queixar, que as suas declarações foram truncadas e que vai processar os responsáveis.

COMUNICADO
São-me atribuídas afirmações que no essencial nunca proferi. São falsas e injustas. Limitei-me a constatar o facto de que os políticos têm os maiores cortes nos vencimentos – não critiquei esse facto, nem me queixei da situação.
Sei bem as dificuldades e angústias pelas quais os portugueses estão a passar. Disse e mantenho que os políticos devem dar o exemplo em todos os aspectos, devendo ser os primeiros a assumir as medidas de austeridade. Terão que se adaptar à crise – nem que para tal seja necessário abrir a cantina da Assembleia da República à noite, para que lá coma quem quiser. Não vejo nisso nenhum problema, é um espaço gerido por uma empresa privada, sendo um sítio digno e aprovado pela ASAE. Usei este exemplo forte para que as pessoas percebam até que ponto pode chegar a situação difícil que o País vive e para a qual eu alerto há muitos anos.
Nunca foi o dinheiro que me moveu na política, como facilmente posso demonstrar pelo meu património móvel e imóvel.
Não concebo (nem tal pode ser permissível) que se trunquem declarações, e que se inventem situações – tal como

alguns órgãos de Comunicação Social terem afirmado que várias pessoas abandonaram a sala quando falei sobre os cortes nos vencimentos da Função Pública e dos políticos. É uma mentira. E tal é facilmente demonstrável.
Por terem mentido propositadamente, distorcendo grosseiramente tudo o que disse e inventando malevolamente frases que não proferi em local algum, pondo em causa a minha honra e dignidade pessoal, vou accionar os mecanismos legais ao meu alcance para que seja reposta a verdade.
Estarei disponível para prestar esclarecimentos adicionais.

Ricardo Gonçalves
Lisboa, 8 de Outubro de 2010

Caro deputado Gonçalves, não se está a queixar nem ninguém esperava isso de alguém com o seu enorme gabarito intelectual, mas realmente, reincidir neste comunicado na questão de os políticos terem os maiores cortes nos vencimentos e de serem os primeiros a terem de se adaptar à crise, voltando a referir a cantina da AR, é o quê senão um queixume implícito, um lacrimejar envergonhado pelo não reconhecimento pelos sacrifícios feitos, um apelo à hetero-comiseração a que agora solidariamente respondemos com esta campanha em seu favor?

Obrigado José Manuel Anes pela distinção

José Manuel Anes, presidente do Observatório para a Segurança, a Criminalidade Organizada e Terrorismo, uma espécie de Valentina Marcelino institucional, disse algumas palavras ao microfone da Antena 1 que merecem registo. Disse que enquanto os protestos forem controlados pelas centrais sindicais não haverão problemas. Certo, sabemos disso. A função das centrais sindicais não é criar problemas, provocar transformações sociais ou abalar o statu quo. As centrais sindicais lutam pelas pequenas conquistas para os trabalhadores, que são importantes para eles no imediato, mas que contribuem para que a sua situação geral não se altere. São uma barreira a que a luta endureça de forma a trazer mudanças que se vejam.

A outra coisa que o observador Anes faz é nomear os possíveis focos de problemas. Também não são os grandes partidos de esquerda, esses o presidente do Observatório (deve ganhar bem, não?) não comenta, mas supõe-se que protestos controlados pelo PC e pelo Bloco sejam tão bem comportados como os das centrais sindicais. Desta vez não é sequer a Al-Qaeda, organização de alcance mundial com capacidade para causar bastantes estragos. Quem José Manuel Anes teme verdadeiramente são os anarquistas e os gangues de bairros. Com tão grandes e importantes concorrentes para serem os ódios de estimação do sr. presidente do Observatório, só nos resta agradecer a distinção da parte que nos toca e zelar para que esteja tudo a correr bem com o avolumado investimento que as autoridades estão a fazer para nos receber na cimeira da NATO de Novembro. Até lá, abraços e continuação de bom trabalho.

PS. O observador Anes deverá registar no seu caderninho de apontamentos que não existe isso de anarquistas de direita, da mesma forma que não existem presidentes de Observatórios para a Segurança e etc. de esquerda.

via Lugar de Partilha