Category Archives: guerra

Wikileaks: a maior fuga de informação militar da história

“A 22 de Outubro de 2010 o site WikiLeaks publicou a maior fuga de informação militar da história. São 391.832 relatórios a documentar a guerra e ocupação do Iraque, de 21 de Janeiro de 2004 até 31 de Dezembro de 2009 (com excepção dos meses de Maio de 2004 e Março de 2009), tal como foram contados por soldados do exército dos Estados Unidos. Cada um deles é um SIGAT, ou acção significativa na guerra. Detalham os eventos como foram vistos e ouvidos pelas tropas norte-americanas no terreno e são o primeiro olhar real à história secreta da guerra que o governo dos EUA tem mantido em segredo durante este tempo.”

Wikileaks e dossier do Guardian

via Vento Sueste

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Normalizar o impensável

“During the Cold War, a group of Russian journalists toured the United States. On the final day of their visit, they were asked by their hosts for their impressions. “I have to tell you,” said their spokesman, “that we were astonished to find, after reading all the newspapers and watching TV, that all the opinions on all the vital issues were, by and large, the same. To get that result in our country, we imprison people, we tear out their fingernails. Here, you don’t have that. What’s the secret? How do you do it?”

“In the British media, as in the United States, as in Australia, rapacious western actions are reported as moral crusades, or humanitarian interventions. At the very least, they are represented as the management of an international crisis, rather than the cause of the crisis.”

“The unspoken task of the reporter in Vietnam, as it was in Korea, was, to normalise the unthinkable – to quote Edward Herman’s memorable phrase. And that has not changed.”

Transcrições da palestra de John Pilger’s na Universidade de Columbia, Nova Iorque, 2006 – ‘War by Media

“O importante ensaio de Edward S. Herman, “A Banalidade do Mal”, nunca pareceu mais adequado. “Fazer coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na ‘normalização’ “, escreveu Herman. “Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directa feita por um conjunto de indivíduos … e outros a trabalharem para melhorar a tecnologia (um melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada, bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É função do peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o público geral.”

John Pilger

O presidente falinhas mansas

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“In the streets, on the2009campuses and on Capitol Hill, the anti-war movement is no longer moving anywhere. It has been crippled by the Obama Effect, the deep and wide delusion that imperialism with a Black face is somehow – something else. When a movement disbands itself without coming even close to achieving its objective, that is a defeat.”

Excerto de um artigo no Black Agenda Report sobre o efeito desmoralizador que a eleição de Obama está a ter no movimento anti-guerra norte-americano, que viu a sua capacidade de angariação de fundos bastante diminuida, os militantes a desmobilizar e os apoios no congresso retirados. Não que Obama esteja a levar a cabo políticas pacificadoras, porque até tem aumentado os gastos militares, está determinado a deixar 50.000 soldados no Iraque (fora os mercenários) com a desculpa de ficarem a treinar os iraquianos, e até aumentou a zona de conflito ao Paquistão, que junto com o Afeganistão (para onde já mandou mais 4.000 tropas com outras a caminho) forma o que agora designam de teatro de guerra Af-Pak. O que se passa é que o efeito alentador das suas falinhas mansas e promessas de mudança, batem fundo nos sentimentos das pessoas e criam esperança, apesar da inevitabilidade da sua frustração.

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A guerra não é um jogo

No início deste mês cerca de 50 activistas reunidos pela organização Direct Action to Stop the War, juntaram-se num protesto em São Francisco contra a campanha do exército de recrutamento de crianças, alegando que o recrutamento de menores de 17 anos é ilegal. Em causa o jogo para a Xbox, America’s Army, produzido pela famosa Ubisoft e propriedade do Departamento de Defesa.

“America’s Army”, available since 2002 as a free download, is a game developed by the U.S. military to instruct players in “Army values,” portray the army in a positive light, and increase potential recruits. The “game” is the property and brainchild of the US Army, which admit freely, and with pride, that it is one of their principal recruitment tools.

Já em Maio o American Civil Liberties Union havia publicado um relatório bastante detalhado em que denunciava o recrutamento feito regularmente a menores de 17 anos. Na terra da liberdade, jovens de apenas 14 anos podem entrar para o programa Junior Reserve Officer Training Corps (JROTC). Este programa opera em 3000 escolas por todo o país. Os cadetes JROTC recebem uniformes militares e participam em exercícios militares e paradas, manejam espingardas reais e de madeira e aprendem história e comportamento militar. O objectivo declarado é melhorar as perspectivas perante a possibilidade de uma carreira no exército.

Em Setembro de 2006 havia 7,5 milhões de utilizadores registados no site do America’s Army. Segundo o próprio exército norte-americano, em declarações perante a Senate Armed Services Committee, os seus esforços de recrutamento, que incluem o America’s Army, têm como objectivo penetrar a cultura juvenil e tornar o exército uma opção no conjunto de interesses dos jovens. Consequentemente, o website do America’s Army tem uma ligação directa para a página web de recrutamento do exército.

Numa sondagem num quartel da Geórgia – a americana, claro – ficou-se a saber que 60% dos recrutas haviam jogado o America’s Army mais de 5 vezes por semana, e que 4% afirmavam que se tinham alistado por causa do jogo.

Na secção FAQ (Frequently Asked Questions) do website do jogo, como resposta à pergunta se crianças de 13 ou mais anos devem ser expostas ao que o exército faz, aparece a resposta

In elementary school kids learn about the actions of the Continental Army that won our freedoms under George Washington and the Army’s role in ending Hitler’s oppression. Today they need to know that the Army is engaged around the world to defeat terrorist forces bent on the destruction of America and our freedoms. The game provides a virtual means to explore a variety of Soldier experiences in basic training, advanced training, and training missions in real world Army units, so that young adults can see how our training builds and prepares Soldiers to serve in units in defense of freedom.

Quanto ao jogo em si, ele pretende ser o mais fiel possível à vida militar. O jogador cria o seu soldado virtual, escolhe a sua especialidade e gere a sua carreira e a sua progressão ao longo da hierarquia desde a carreira de obstáculos até à chefia de um esquadrão. O resto é shot’em up tradicional. Não é considerado dos melhores do género, perdendo claramente para rivais como o Call of Duty 4: Modern Warfare, mas o facto de ser gratuito sempre contribui para a sua divulgação.

Têm sido vários os protestos contra este tipo de recrutamento, envolvendo activistas, escritores, ex-soldados, membros da Iraq Veterans Against the War e educadores preocupados.

Ironicamente, em resposta, a Ubisoft invoca o direito constitucional à liberdade de expressão. A fronteira entre a liberdade de expressão e de manipulação é realmente muito ténue.

“Ubisoft is a leading publisher that strives to create the best entertainment experiences possible. Ubisoft worked with the U.S. Army to create America’s Army games for the Xbox and Xbox 360 in order to deliver a compelling experience for our customers. As we discussed with the Direct Action to Stop the War (DASW) organization, our games are created to meet a diverse range of interests and not to express or endorse any political view. We respect DASW’s First Amendment rights, and would hope they also respect and recognize ours.”

Como li escrito algures “O entretenimento não é a razão pela qual o mundo não presta. É a razão pela qual sabemos que o mundo não presta.”