Baixas expectativas

Diz um estudo de uma multinacional de recursos-humanos que 72 e dois por cento das empresas portuguesas pondera baixar os prémios ou o salário base aos executivos de topo.

Será que estes ajustes, a acontecerem, são uma questão de justiça e de moralização, como é dito neste post do Delito de Opinião? É concerteza uma forma de pensar partilhada por muita gente, quer à esquerda (pela diminuição da desigualdade), quer à direita (por ser o mercado a funcionar), mas haverá realmente alguma ponta de moralidade ou de justiça na colossal desigualdade de rendimentos que existe entre trabalhadores e executivos, com ou sem ajustes, com ou sem milhares de despedimentos e ponderações sobre se se baixa ou não prémios chorudos, ou sou eu que estou a ver mal a coisa?

Não me parece. Acho é que as expectativas sobre a possibilidade de justiça e de moralidade são tão baixas, que se chama de moralização e de justiça à manutenção da situação, desde que por um momento e ainda que numa medida despicienda o topo da hierarquia partilhe as perdas do povo.

A opinião e as formas mais radicais que ela poderia assumir são logo à partida tão restritas, tão auto-limitadas, tão pouco ambiciosas, que tende para o zero a possibilidade de mudança efectiva no que diz respeito à salubrização da sociedade. Não se deseja nada de profundo ou transformador, apenas limitar os danos, arrecadar vitórias simbólicas ou morais, com que se engana a consciência.

O mérito dos que têm estado nos degraus cimeiros da hierarquia social é conseguir limitar a opinião ao inócuo, manter aceso o debate sobre tudo o que não arrisque revolucionar a ordem instituída, mantendo a ilusão da participação. As eleições são um bom exemplo e talvez dos maiores do que é o engodo lançado aos que desejam manifestar-se. Não conheço nenhuma eleição que tivesse provocado uma mudança profunda para melhor numa sociedade. No entanto, a promessa do pequeno avanço e da pequena reforma apela directamente a essa mentalidade de baixa expectativa e com isso mantém os interessados iludidos numa batalha perdida a priori. O raciocínio é que não se podendo ter o que se quer, pelo menos se tenha o que se pode. Sendo o problema deste raciocínio que o que se pode, é basicamente a manutenção da situação.

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