Arroz e massa para Ricardo Gonçalves

O deputado Ricardo Gonçalves não está satisfeito com a generosa solidariedade mostrada na campanha Banco Alimentar Parlamento e por isso volta à carga com novo comunicado. Bem, não é propriamente um comunicado novo. É o mesmo comunicado com upgrade.

Ponto de destaque: no upgrade deixou de constar a ameaça de processo judicial. Realmente não fazia sentido desperdiçar o parco rendimento de deputado da nação em processos desta natureza.

Acrescentou também os seguintes esclarecimentos:

Em vários parlamentos da Europa a cantina está aberta ao jantar, sem que os opinadores lá da terra se escandalizem. Já foram tomadas medidas como cortarem os cafés e os chás que sempre eram servidos durante as reuniões das comissões.
Mas tudo bem! Cabe aos políticos darem o exemplo.
Há muitos anos que eu alerto para a situação difícil a que o país podia chegar. Hoje é necessário coragem e coesão para enfrentarmos a realidade.

A denúncia de graves carências na classe dirigente alarga-se a vários países da Europa. Estamos pior do que pensávamos. Já não há sequer café nem chá no parlamento. A austeridade chegou em força e os deputados preparam-se para a aceitar com abnegação.

Mas o ponto mais dramático deste upgrade, capaz de fazer chorar as pedras da calçada e enternecer o coração mais empedernido, é a identificação que o deputado Gonçalves estabelece entre ele e o resto de nós. As mesmas agruras, as mesmas privações. É necessário “enfrentarmos” a realidade, porque afinal de contas estamos todos no mesmo barco.

Mas deixemos de lado os sentimentalismos e passemos aos factos. Este novo comunicado tem também um post scriptum.

PS: É muito interessante constatar que a alguns órgãos de comunicação social não interessa informar que os cidadãos, que estão a desempenhar temporariamente o lugar de políticos a tempo inteiro, deixaram – e bem – de receber a subvenção vitalícia, deixaram de receber o subsídio de reintegração, sofreram um corte, o tal simbólico, de 5% no mês de Maio, agora sofrem, tal como os restantes trabalhadores públicos, o corte de 9 ou 10%, para além do incremento da taxa de descontos para a CGA, ADSE e IRS. Há órgãos de comunicação social que falam nos salários sem esclarecer que se tratam de valores brutos aos quais incidem os cortes previstos, os impostos directos e as taxas a que obrigatoriamente estão sujeitos.
Não é o meu caso pessoal – que interessa, – mas eu não me queixo. Nunca foi o dinheiro que me moveu na política e percebo perfeitamente a indignação de muitos portugueses que hoje atravessam dificuldades. Mas ninguém me pode impedir de dizer a verdade sem sofrer deturpações. Na actual democracia toda a gente pode falar, reclamar e protestar, à excepção dos que exercem missões políticas. No tempo do Estado Novo era ao contrário: só podiam falar os políticos da situação e o povo era obrigado a calar.
Viva a democracia!

Ele não se queixa e a ele ninguém o cala. À carência económica a que está sujeito pelo facto de ser político e deputado, junta-se a mordaça que a democracia lhe impõe. Voltaire escreveu premonitoriamente sobre o deputado Gonçalves quando criou a sua personagem Cândido, a quem a infelicidade e as desventuras sucediam incessantemente. Julgo que estamos bem entregues a deputados com esta categoria e com esta intensidade. Até me admira que ainda haja quem defenda a auto-organização como alternativa à representação. Fique-se a saber que como o deputado Gonçalves, há muitos mais no parlamento e na política. Bem hajam!

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