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Revolução igualitária

É um assunto em aberto entre a comunidade científica, mas há quem encontre razões para defender a ideia de que houve algures há dezenas de milhares de anos uma revolução igualitária que transformou radicalmente o percurso do ser humano no planeta Terra. Uma revolução que consistiu numa mudança na organização das comunidades, uma mudança fruto de conflitos, rupturas e lutas pelo poder, mas que com o tempo fez prevalecer os grupos em que os indivíduos se aliaram para se defender ou obter e partilhar recursos de forma igualitária. Estas alianças mostraram-se mais poderosas do que a estrutura social em pirâmide com o macho-alfa no topo.

Ainda hoje se pode observar o funcionamento dessas sociedades igualitárias na maioria das sociedades de caçadores-recolectores conhecidas actualmente. Os seus líderes não têm verdadeiro poder e procuram apenas dar assistência a um processo de procura do consenso quando o grupo precisa tomar decisões. É uma pirâmide virada ao contrário com os potenciais subordinados a serem capazes de expressar dominância sobre potenciais indivíduos alpha, através da criação de alianças igualitárias com outros indivíduos.

Essas sociedades de caçadores-recolectores que existem actualmente não são apenas igualitárias, mas também são sociedades pacíficas que construíram estratégias sociais para combater o recurso à violência, de o tornar mal visto, de resolver conflitos de forma pacífica, muitas vezes utilizando mediadores, e educando as crianças desde cedo para a paz e para a cooperação. O resultado do igualitarismo nestas sociedades também se reflecte nos papéis de género, com as mulheres a serem consideradas com o mesmo estatuto que os homens, e com níveis de violência doméstica muito reduzidos. Muita e boa informação sobre estas sociedades, mas também de outras que não são de caçadores-recolectores mas são igualitárias e pacíficas, pode ser encontrada no site Peaceful Societies. A sua consulta poderá ser um desmoronar de preconceitos para os que se convenceram que o ser humano é naturalmente agressivo, violento, competidor e egoísta.

A teoria da revolução igualitária viu agora ser construído um modelo matemático sobre o processo de formação de alianças.

“Os investigadores criaram um complexo modelo matemático para descrever o processo de formação de alianças que depois estudaram usando métodos analíticos e simulações numéricas a grande escala. O modelo foca-se num grupo de indivíduos em que a habilidade de luta varia significativamente. Se todos os conflitos se dessem exclusivamente entre pares de indivíduos, uma hierarquia emergiria, com alguns indivíduos mais fortes açambarcando todos os recursos. No entanto, há uma tendência (muito pequena no início) para outros indivíduos interferirem num conflito em curso alterando assim o seu desfecho. Resultados positivos dessas interferências aumenta a afinidade entre indivíduos enquanto os negativos diminui. Naturalmente, alianças maiores têm mais hipóteses de ganhar um conflito.”

Quem procura estabelecer alianças são, portanto, os menos preparados para a luta mas mais capazes e preparados intelectualmente. Sendo estes que com a formação de alianças cada vez mais abrangentes e poderosas passam a determinar os destinos do grupo, incluindo os que dizem respeito à procriação. São os seus genes que passam para a geração seguinte. É a selecção natural a funcionar.

Não é adequado aplicar o modelo matemático aos seres humanos contemporâneos, nem são as nossas sociedades igualitárias. Algo se perdeu pelo caminho. Talvez porque as mudanças culturais e os avanços tecnológicos tenham feito com que a vantagem numérica se tenha tornado muito menos importante na resolução de conflitos. Chegamos ao ponto em que uma única pessoa pode ordenar o extermínio de milhares. Uma única bomba pode arrasar por completo uma cidade inteira.

Criou-se e desenvolveu-se a democracia porque temos o entendimento de que todos somos iguais e todos devemos ter igual voz perante o grupo, e no entanto, paradoxalmente,  nunca tão poucos tiveram tanto poder concentrado exclusivamente nas suas mãos, nestas mesmas democracias modernas.

O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. II

O problema do poder não está no poder enquanto capacidade de fazer algo, o poder-fazer. É na relação hierárquica que se estabelece com os outros que começam a aparecer os sintomas semelhantes a ter o cérebro danificado.

Kevin Carson, numa crítica às hierarquias, comentou que é frequente o argumento de que “foi-lhes dada autoridade por alguma razão”, numa espécie de admissão de que se aceita as coisas desta forma porque “é assim que as coisas são”. Um argumento inabalável. Também repara no recurso algo habitual ao “foi decidido que ….”, preferindo a voz passiva à activa (“fulaninho decidiu que…”), para se evitar o perigo de ver a autoridade como um mero mortal, com objectivos e desejos individuais, e um julgamento subjectivo como toda a gente. Ver os que estão acima na hierarquia como iguais é um passo necessário para se poder dizer “se não é uma boa ideia, não me interessa que seja a lei” e daí concluir que “se tivéssemos tomado a decisão de forma igualitária, o erro teria sido evitado”.

A famosa experiência de Milgram sobre a obediência à autoridade (já reencenada várias vezes), mostra de forma clara que as pessoas tendem a considerar a figura de autoridade como detentora da capacidade e da responsabilidade de tomar decisões por elas, e decisões que normalmente não tomariam e até as repugnaria tomar. No caso desta experiência, a figura de autoridade é uma pessoa mais velha, ou que está sugestivamente vestida de bata branca (E), que em nome do sucesso da experiência insiste para que o sujeito (S) (quem na verdade está a ser estudado) continue a infligir choques eléctricos a outra (A) sempre que esta não responda correctamente a perguntas que lhe vai fazendo. Algumas das pessoas colocadas no papel de S, levam a tortura até níveis inaceitáveis, incluindo a morte (simuladas, claro) de A. Apenas porque a figura de autoridade que está ao lado insiste na importância de levar a experiência até ao fim. (descrição da experiência) (reencenação).

A experiência da prisão de Stanford é outro exemplo de como as hierarquias influenciam negativamente o comportamento de pessoas vulgares.

Em 1971 um grupo de psicólogos sociais, liderados por Philip Zimbardo levou a cabo uma experiência que ficou conhecida como a Experiência da Prisão de Stanford.

A experiência consistiu na simulação de uma prisão em que os papéis de guardas prisionais e de prisioneiros foram atribuídos a estudantes voluntários, com características psicológicas semelhantes e que visava estudar os efeitos psicológicos da vida numa prisão.

Previa-se uma duração de quinze dias e, segundo as regras, quem quisesse poderia abandonar a experiência a todo o momento.

Apesar das regras bem definidas e de todos os participantes saberem que se tratava de uma simulação da realidade e de um estudo científico, a verdade é que a experiência foi interrompida ao fim do sexto dia, porque os participantes começaram a viver com total entrega e intensidade os seus papéis, confundindo a representação com a realidade vivida e identificando-se com os personagens que encarnavam.

Alguns “guardas” tornaram-se especialmente violentos, abusaram da autoridade que lhes havia sido concedida e humilharam os seus “prisioneiros”, deixando mesmo de cumprir as regras da “prisão”.

Por seu lado, os “prisioneiros” foram-se tornando submissos, obedecendo gradualmente às ordens mais absurdas.

Retirado do blog Psicologia Experimental

O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. I

Um artigo no Wall Street Journal que descobri através do Vento Sueste, aborda um tema predilecto dos anarquistas: a corrupção pelo poder. A origem social do artigo levou-o a cair não inocentemente na secção Life and Culture do jornal, junto de curiosidades para entretenimento das massas como Medical Bracelets Go High-Tech. Anda tudo a correr a gastar quase 40 euros nessa porcaria dessa pulseira do equilíbrio e já não resta disposição para raciocinar sobre o facto da corrupção pelo poder estar a ser comparado a lesões cerebrais.

Chamam-lhe o “paradoxo do poder”, porque se percebeu que se por um lado as pessoas boas têm mais possibilidades de chegar a posições de poder, por outro lado acontece uma transformação com a ascensão e essas pessoas deixam de racionalizar da mesma forma, de ser tão honestas, passam a ser mais impsulsivas, descuidadas e rudes, deixam de considerar tantas nuances nas questões como costumavam fazer, e deixam de se colocar no papel dos outros, características que à partida as beneficiaram na sua escalada hierárquica.

Há dois pontos importantes aqui. O primeiro é que ao contrário do que muita gente pensa, o tipo maquiavélico não é uma receita para o “sucesso”. A maioria das pessoas não gosta dos que só se servem a si próprios, não gosta da manipulação, da traição, do desprezo pelo próximo, e tendem a rejeitar os useiros e vezeiros nessas práticas. As pessoas dão poder a quem genuinamente gostam, e esses são aqueles que procuram seguir a regra de ouro da moral “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” (que, não haja confusões, é um preceito anterior ao cristianismo).

O outro ponto é que o que muita gente pensa acerca do poder corromper, ser de facto verdade. Não sabem como nem porque é que acontece, mas sabem que é assim, e com razão. Neste artigo são referidos vários estudos que ajudam a perceber o que muda no comportamento do que antes era uma pessoa compassiva e solidária.

Dacher Keltner, um psicólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley, que realizou alguns desses estudos, chega a notar que pessoas com cargos de autoridade tendem a comportar-se como pacientes neurológicos com um lobo órbito-frontal danificado, uma área do cérebro crucial para a empatia e a tomada de decisões.

Não é uma curiosidade ou um entretenimento para a secção Life and Culture de um jornal. É um assunto que diz respeito à forma mais básica como nos organizamos e nos relacionamos uns com os outros. É uma questão de racionalidade ao escolher as estruturas sociais que sejam as mais proveitosas para todos. Fala-se demasiado em Democracia, República, Partidos e Política. Fale-se antes de hierarquias.

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Sábado, 20.05.2010

abnóxio

O poder aumenta a hipocrisia

Um novo estudo da Kellogg School of Management (“Power Increases Hypocrisy: Moralizing in Reasoning, Immunity and Behavior,” dirigido por Adam Galinsky) explora a questão das pessoas que detêm altos cargos de poder serem simultaneamente muito exigentes moralmente com os que estão abaixo na hierarquia mas muito pouco consigo mesmos.

«For instance, we saw some politicians use public funds for private benefits while calling for smaller government, or have extramarital affairs while advocating family values. Similarly, we witnessed CEOs of major financial institutions accepting executive bonuses while simultaneously asking for government bailout money on behalf of their companies.»

Os investigadores também concluíram que esta hipocrisia moral é bastante mais significativa entre os que se consideram legitimamente poderosos, do que os que pessoalmente não sentem essa legitimidade. Estes são de facto mais exigentes consigo mesmos do que o são com outros – fenómeno designado pelos investigadores de “hipercrisia”. Múltiplos estudos realizados por esta equipa apontam esta tendência – a hipercrisia – como também sendo uma característica dos desprovidos de poder.

Finalmente, Galinsky aponta a importância que estes padrões morais e de comportamento têm no alimentar das desigualdades sociais:

«Em última instância, os padrões de hipocrisia e de hipercrisia perpetuam a desigualdade social. Os poderosos impõem regras e restrições aos outros enquanto ignoram essas restrições para si mesmos, ao mesmo tempo os que não têm poder colaboram na reprodução da desigualdade social porque não sentem o mesmo direito.»

Penso que não estarei a ir longe demais ao concluir que é a própria existência de hierarquias a fomentar a desigualdade social. Afinal, quer a maior incidência de hipocrisia, quer a de hipercrisia, tem origem nos diferentes papéis que a hierarquia leva as pessoas a representar.

Os poderosos, pela própria definição do atributo que os caracteriza, são os grandes responsáveis pela desigualdade. Sejam eles mais ou menos hipócritas, são eles os directos responsáveis pelas regras e pelas restrições que impõem à sociedade. Quanto aos outros, terão obviamente que aumentar as suas expectativas, o seu criticismo, a sua exigência e levar essa atitude até às últimas consequências.

A chefia como forma que a natureza encontrou para retirar os idiotas do fluxo produtivo

Penso ser uma percepção generalizada na sociedade que os cargos de topo numa hierarquia, empresarial ou administrativa por exemplo, não são ocupados necessariamente pelas pessoas mais capazes. Que muitas vezes são-no pelos mais incompetentes e que isso até acontece com uma regularidade assustadora. No fundo, que vivemos numa mediocracia, “uma sociedade em que as pessoas com pouco (se é que algum) talento são dominantes e altamente influentes”.

O Miguel Madeira descobriu um paper do Departamento de Economia da Universidade de Bona que afirma isso mesmo.

Competitive Careers as a Way to Mediocracy

We show that in competitive careers based on individual performance the least productive individuals may have the highest probabilities to be promoted to top positions. These individuals have the lowest fall-back positions and, hence, the highest incentives to succeed in career contests. This detrimental incentive effect exists irrespective of whether effort and talent are substitutes or complements in the underlying contest-success function. However, in case of complements the incentive effect may be be outweighed by a productivity effect that favors high effort choices by the more talented individuals.

Se bem entendi, os medíocres têm mais incentivo para competir pela promoção porque não têm a mesma segurança na manutenção da posição que têm os competentes.

Repare-se que isto trata apenas do factor competência e não mete ao barulho o que eu acho ser o factor mais importante na escalada hierárquica: o arrivismo. Estar disposto a tudo, não ter escrúpulos, ser corruptível.

O Miguel Madeira faz ainda uma consideração que este estudo tem mais a ver com o Princípio de Dilbert do que com o Princípio de Peter. Uma observação feita em boa hora porque me permitiu ficar a conhece-los:

O Princípio de Peter diz que um trabalhador competente tende a ser promovido até que as suas capacidades sejam insuficientes ou inadaptadas para a nova função, deixando então de ser competente e permanecendo por isso nesse cargo.

O Princípio de Dilbert (sim, o dos cartoons) diz que as empresas tendem a promover sistematicamente os seus empregados menos competentes para a gestão (normalmente gestão intermédia), de forma a limitar a quantidade de dano de que são capazes. (isto é música celestial aos ouvidos de um anarquista)