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“Sabes como se faz descarrilar um comboio?”

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Crónica de Georges, militante da Confederação Nacional do Trabalho francesa (anarco-sindicalista), publicada no Tertúlia Liberdade

“Bem, vou começar esta crónica com uma anedota. Não sei se ouviram falar disto em Portugal, mas aqui em França falou-se um pouco. Mas um pouco, pouco. Não minto. Então é assim. Um carpinteiro teve problemas com o seu telemóvel. Enquanto o aparelho esteve em reparação a companhia Bouygues emprestou-lhe outro. Um amigo enviou-lhe um SMS aonde escreveu:” Sabes como se faz descarrilar um comboio?”.Não se sabe a razão do SMS. Se calhar o amigo tinha chegado atrasado à estação ou outra coisa qualquer. O telemóvel foi depois emprestado a um empregado da SNCF, os caminhos-de-ferro franceses. Esse leu o SMS que não tinha sido apagado e fez uma denúncia à polícia.

O pobre carpinteiro foi apanhado de manhã em casa, que foi devassada ficando muitos dos seus móveis partidos, e conduzido à esquadra de polícia onde permaneceu por 23 horas detido. A mesma coisa aconteceu ao amigo que tinha enviado o SMS. Mas este calhou com “comissário” de polícia mais inteligente e ficou menos tempo na cadeia. Depois de verem que isso tudo não passava de uma parvoíce libertaram-nos.

Pensam vocês que a policia pediu desculpa ou coisa parecida. Nem sonhar. Isso é só nas telenovelas. O “comissário” disse-lhe:”A próxima vez que um comboio descarrilar vamos ter contigo outra vez”. Podia ser uma anedota. Mas é a realidade da situação em França. Faz pensar ao romance de Kundera “A Brincadeira”. Não sei se os comboios vão descarrilar, mas muitas coisas estão a descarrilar aqui em França.

Mas a crise não tem só aspectos negativos. Uma nova forma de luta é o “sequestro de patrões”. Fala-se muito disso nos meios de comunicação social. Enfim: ” sequestro” é uma palavra um pouco desproporcionada. Os trabalhadores impedem aos patrões de sair da empresa enquanto estes não assinam uma convenção que dá mais dinheiro aos empregados despedidos. Um pouco de salário a mais nunca é mau. Mas isto não resolve os problemas de fundo. Mas mesmo isto já está a meter medo às centrais sindicais oficiais. A CGT já pediu aos operários para terem cuidado com “os provocadores”. Nunca se sabe se depois de deterem os patrões não lhes vem a ideia como em Guadalupe de começarem a “sequestrar ” as fábricas e porem-nas a trabalhar sem patrão.

No último 1º de Maio houve muito menos pessoas na rua do a 19 de Março que foi dia de greve. E mesmo assim já não se viam tantas pessoas a desfilarem desde há anos. Se agora o povo prefere fazer greve em vez de desfilar nos dias feriados as coisas estão a ir no bom sentido. O que explica a necessidade de meter medo aos carpinteiros.”

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Ainda o ataque cardíaco no G20

BBC: Uma segunda autópsia a Ian Tomlinson veio confirmar que ele morreu de uma hemorragia abdominal e não de ataque cardíaco.

A história segue o padrão. Violência policial que é noticiada como violência das vítimas ou como obra do acaso. Passados uns dias, depois de assentar a poeira e do potencial impacto público da verdade ser muito menor, lá se vai sabendo alguma coisa do que realmente aconteceu. Lembram-se do assassinato do Kuku no casal da Boba em que afinal o tiro mortal foi disparado a uma distância de 10 cm da cabeça? Ou do jovem grego, Alexis Grigoropoulos, que a crer nos relatos oficiais tinha atacado com mais 30 vândalos os nobres defensores da lei e da ordem, e que o tiro disparado tinha sido disparado para o ar?

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Homem que morreu no G20 foi assassinado pela polícia

Ian Tomlinson, o homem que morreu durante as manifestações do G20 em Londres foi agredido pela polícia antes de morrer. O Guardian publicou um vídeo em que se vê a covarde agressão com o cacetete pelas costas. Tomlinson nem sequer participava nos protestos e caminhava de costas para a polícia com as mãos nos bolsos.

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