Category Archives: depredação global

Pequenas vitórias que contam

A Greenpeace afirma ter conseguido fazer a gigante multinacional Nestlé recuar nas suas actividades destrutivas na Indonésia através da força das redes sociais. O que se passou foi que o departamento de marketing da Nestlé cometeu o velho erro de tentar censurar um vídeo no Youtube e com isso atiçou a curiosidade dos internautas gerando muita má publicidade.

A Greenpeace acusa a Nestlé de estar ligada através de subsidiárias à desflorestação na Indonésia.

A força da Internet e particularmente das redes sociais, sobretudo nesta era de um excesso absurdo no fluxo de informação, está mais na capacidade de estabelecer ligações do que na mera difusão de conteúdos. Como disse o activista da Greenpeace: “It’s no longer about broadcasting, it’s about interaction”.

A liberdade do comércio livre

Foto: Jesse Freeston

Deixo aqui uma pequena história contada no Guardian para se perceber como as multinacionais se movem para atingir os seus objectivos passando por cima dos interesses dos países pobres. Quem diz multinacionais diz todo o complexo político e económico internacional que envolve estados, organizações internacionais, legislação, acordos, tratados, guerras, invasões e ingerências, montado para garantir a exploração da maioria em favor da elite.

Uma empresa canadiana chamada Pacific Rim encontrou depósitos de ouro em El Salvador e obviamente quer explorar ao máximo a oportunidade. O governo de El Salvador, no entanto, acha que a extracção de ouro consome demasiada água e obriga à utilização de grande quantidade de químicos tóxicos e por isso opôs-se à Pacific Rim alegando razões ambientais. Em Março do ano passado um governo mais à esquerda com Mauricio Funes à cabeça ganha as eleições e mantêm a proibição da exploração, com o apoio de um alargado movimento social e pelo estudo de impacto ambiental de uma empresa independente norte-americana especializada em hidrogeologia e geoquímica.

O próximo passo da Pacific Rim é apresentar queixa ao TLC (Tratado de Libre Comercio entre Estados Unidos, Centroamérica y República Dominicana) ou CAFTA (Central American Free Trade Agreement). Este tratado tem mecanismos de ultrapassar as barreiras legais dos países aderentes. A chamada disputa “investidor-Estado” garante aos investidores estrangeiros o direito de levar El Salvador a um painel do Banco Mundial e processar o governo pelos prejuízos sofridos por não ter sido possível explorar o país e danificar o seu meio-ambiente.

O cinismo desta empresa e destas áreas de comércio “livre” não se fica por aqui. Como o Canadá não pertence à CAFTA a empresa canadiana Pacific Rim apresentou esta queixa através da sua subsidiária nos Estados Unidos.

O valor da compensação pretendida é da ordem dos 100 milhões de dólares, valor que é quase o dobro da ajuda dos EUA ao país. Em El Salvador, 34.6% da população vive com menos de 2 dólares por dia.

Como noutras situações semelhantes um pouco por todo o mundo, o conflito entre as corporações e as comunidades locais acaba em violência e geralmente com grande prejuízo para o lado mais fraco. Três activistas anti-minas foram já mortos desde o início do processo na CAFTA.

O governo de El Salvador tenta defender-se legalmente mas caso perca corre um risco enorme de ver outros processos idênticos surgirem. É isto o comércio “livre”. Livre para uns poucos e uma desgraça para os outros todos.

A delinquência internacional como forma de gerar riqueza

A OXFAM observava que os países ricos se dizem comprometidos em erradicar a pobreza. Mas, também continuam a ser o maior obstáculo para as exportações, em concreto de produtos agrícolas, que para muitos países pobres é a única actividade económica ao alcance. Na prática, o conjunto de países ricos subsidia a sua agricultura em média com $1.000 milhões diários. Qualquer subsídio dado à produção leva a maiores níveis de produção, com a consequência de haver mais oferta nos mercados mundiais, sendo parte subsidiada e, portanto, vendível a preços mais baixos. Preços mais baixos significam que os pobres, não subsidiados, não vendem o seu produto, deixando-os na miséria, com abandono de terras que não compensa cultivar.

Para cúmulo, os mesmos países ricos da OCDE estendem anualmente um cheque de ajuda aos países mais pobres, certamente comovidos com o seu estado. Cheque esse que é cerca de 1/7 do valor com que subsidiam os seus agricultores.

Além disso, os ricos para se protegerem de modo mais eficaz levantam barreiras alfandegárias que são em média 4 vezes mais elevadas que as dos países pobres para onde exportam. Tais barreiras custam o dobro da ajuda que os países pobres recebem, segundo a mesma OXFAM.

Claro que tanto a Europa, como os USA e o Japão, que estão numa posição confortável de riqueza e além disso vão desfrutando de uma auréola de beneméritos são os mais activos na subsidiação dos seus agricultores e com as barreiras mais altas para os produtos dos países pobres.

No entanto, a imagem que passa da União Europeia nos nossos media é a da comunidade mais responsável e ética, na vanguarda das preocupações sociais e ambientais.