Category Archives: imperialismo

As tragédias no Haiti estão para continuar

And you know Christy, something happened a long time ago in Haiti and people might not want to talk about it. They were under the heel of the French, uh, you know Napoleon the third and whatever. And they got together and swore a pact to the devil. They said we will serve you if you’ll get us free from the French. True story, and so the Devil said OK it’s a deal. And they kicked the French out. You know, the Haitians revolted and got themselves free. But ever since they’ve been cursed by one thing after the other desperately poor. That island is Hispanola is one island. It’s cut down the middle. On one side is Haiti on the other side is the Dominican Republic. Dominican Republic is prosperous, healthy, full of resorts, etc. Haiti is in desperate poverty. Same island. Uh, they need to have, and we need to pray for them a great turning to God and out of this tragedy. I’m optimistic something good may come but right now we’re helping the suffering people and the suffering is unimaginable.

Pat Robertson

Para Pat Robertson a devastação do terramoto no Haiti e o caos que se está a seguir é culpa dos próprios haitianos. Este famoso e influente tele-evangelista norte-americano tem um percurso contorverso, já acusou, por exemplo, pagãos, abortistas, feministas, gays e lésbicas de serem os responsáveis do 11 de Setembro/WTC, em concordância com o seu amigo já desaparecido Jerry Falwell. É um homem de teorias muito à frente que quase fazem o nosso João César das Neves parecer um sujeito respeitável. No entanto, entre a teoria dos amaldiçoados de Pat Robertson e a dos coitadinhos infelizes a quem lhes acontece de tudo que a imprensa corporativa tem passado, a diferença não é assim tanta. Ambas investem na alienação do espectador ao não reconheceram o contexto que levou à situação de pobreza extrema e à vulnerabilidade perante uma catástrofe desta dimensão. Ambas partem do ponto de vista do observador estranho ao acontecimento, como se o mundo não estivesse já globalizado e quem ali padece não fossem os mais excluídos e marginalizados de entre todos os que, mesmo nos nossos países industrializados, são vítimas das políticas guerreiras e de esmagamento económico que se têm vindo a generalizar durante décadas e décadas e que vão abarcando a totalidade das sociedades por todo o mundo. A cereja em cima do bolo é a ajuda humanitária a servir de prova que mesmo estando nas mãos de um destino cruel e castigador,  o sofrimento pode ser mitigado com remessas pontuais de boa vontade. Não há contexto, apenas gente pobre que por obra e graça do acaso, ou do karma, não tem sorte nenhuma. E bom samaritanismo internacional.

O Haiti tem um passado sangrento de colonialismo. Em 1804, os escravos lutaram pela liberdade contra a França, antiga potência colonial. Depois da libertação a França coagiu o Haiti a assumir uma dívida por perdas que equivalia a 44 vezes o actual orçamento do país. Depois, em 1915, chegaram os norte-americanos trazendo na bagagem o modo-de-vida-americano: os marines invadiram a capital, Port-au-Prince, para proteger os interesses na região. Em 1934 foram embora deixando uma guarda nacional e um ditador no poder, François Duvalier, seguido em 71 pelo seu filho Jean-Claude Duvalier. Em 1986, Jean-Claude é deposto depois de uma insurreição popular. Sucede-lhe Jean-Bretand Aristid em 1991, inimigo do Banco Mundial e do FMI, mas foi retirado do poder por um golpe de estado orquestrado pelos EUA.

Mas além das ingerências políticas e militares o Haiti teve que se ver com o “apoio” do Banco Mundial e do FMI. Acabou com taxas e subsídios seguindo as suas políticas e no entanto o seu crédito continuou congelado devido à enorme dívida externa (embora 40% dela tivesse sido contraída durante a ditadura de Duvalier). O povo do Haiti contraiu uma dívida gigantesca como paga pela sua própria opressão. A maioria da população produzia arroz e agora os produtores são pedintes e o país importa arroz dos Estados Unidos. A dívida do Haiti, tal como a de outros países pobres, coloca o país numa espécie de pobreza eterna.

[Informação sobre a história do Haiti retirada de US debt policies left Haiti vulnerable to catastrophe, True/Slant.com]

Naomi Klein, autora do livro The Shock Doctrine publicou anteontem um alerta para as movimentações imperialistas de aproveitamento da desgraça no Haiti que são no fundo o objecto de análise do seu livro. A Heritage Foundation tem sido um dos principais defensores da exploração de desastres para levar a cabo as suas políticas. No seguinte texto, publicado nem um dia após o desastre, e depois substituído por outro mais diplomático, fica bem patente esta estratégia:

«Além de prestar ajuda humanitária imediata, a resposta dos EUA ao trágico terramoto no Haiti oferece oportunidades de remodelar a disfuncionalidade de longa data do governo e da economia do Haiti, assim como de melhorar a imagem pública dos EUA na região.»

A tradução da versão suavizada foi publicada no Indymedia brasileiro:

Coisas para Lembrar ao Ajudar o Haiti

Hoje, os Estados Unidos começaram a examinar os danos causados por um terremoto devastador no Haiti esta semana. Além de fornecer assistência humanitária imediata, a resposta dos E.U.A ao trágico terremoto devem também abordar as preocupações de longa data sobre o frágil ambiente político existente na região.

A resposta do governo dos EUA deve ser ousada e decisiva. É preciso mobilizar recursos civis e militares para resgate e socorro a curto prazo e recuperação e reforma a longo prazo. O presidente Obama deve mostrar uma liderança bipartidária de alto nível. É evidente que o ex-presidente Clinton, que já tinha sido nomeado como o representante da ONU no Haiti, é uma escolha lógica. O presidente Obama também deve procurar uma figura sênior republicana, talvez o ex-presidente George W. Bush, para liderar o esforço bipartidário para os republicanos.

Uma vez no solo do Haiti, os militares dos E.U.A poderiam também interromper os vôos noturnos de cocaína para o Haiti e para a República Dominicana a partir da costa da Venezuela e lutar em contra aos esforços do presidente venezuelano Hugo Chávez para desestabilizar a ilha de Hispaniola. Esta presença militar, que deve incluir também um grande contingente da Guarda Costeira, podem também impedir qualquer movimento em grande escala por haitianos de sa?em pelo mar em embarcações frágeis e perigosas para tentar entrar ilegalmente nos E.U.A.

Os E.U.A também devem implementar um esforço forte e vigoroso de diplomacia pública para combater as propagandas negativa vindas do campo Castro-Chávez. Tal esforço também demonstrará que o envolvimento dos EUA no Caribe continua sendo uma força poderosa para o bem das Américas e ao redor do globo.

durante décadas e décadas

O presidente falinhas mansas

obama_sam

“In the streets, on the2009campuses and on Capitol Hill, the anti-war movement is no longer moving anywhere. It has been crippled by the Obama Effect, the deep and wide delusion that imperialism with a Black face is somehow – something else. When a movement disbands itself without coming even close to achieving its objective, that is a defeat.”

Excerto de um artigo no Black Agenda Report sobre o efeito desmoralizador que a eleição de Obama está a ter no movimento anti-guerra norte-americano, que viu a sua capacidade de angariação de fundos bastante diminuida, os militantes a desmobilizar e os apoios no congresso retirados. Não que Obama esteja a levar a cabo políticas pacificadoras, porque até tem aumentado os gastos militares, está determinado a deixar 50.000 soldados no Iraque (fora os mercenários) com a desculpa de ficarem a treinar os iraquianos, e até aumentou a zona de conflito ao Paquistão, que junto com o Afeganistão (para onde já mandou mais 4.000 tropas com outras a caminho) forma o que agora designam de teatro de guerra Af-Pak. O que se passa é que o efeito alentador das suas falinhas mansas e promessas de mudança, batem fundo nos sentimentos das pessoas e criam esperança, apesar da inevitabilidade da sua frustração.

mescalero

Sobre revolução e contra-revolução

“Muitas pessoas não se apercebem que no passado atravessamos, e continuamos agora a atravessar, um ciclo de revolução e contra-revolução. Este ciclo pode ser dividido em 3 vagas.

Primeira vaga 1910-1936

México, Rússia, Alemanha, Hungria, Espanha, revolução potencial na Itália, revolta na Argentina, Brasil. Greves gerais por todo o mundo.

Segunda vaga 1958-1980

Cuba, França, Portugal, Nicarágua. Revolta na Itália, Argentina, Chile. Greves gerais na Bélgica, Canadá.

Terceira vaga 2000 –

Venezuela, Bolívia, revolta no México, Equador, Argentina, Islândia. Revolta na Grécia, França.

Cada vaga, até à actual, terminou num período de reacção.

1. 1922 – 1957 Fascismo e Estalinismo, seguído de dominação pelo imperialismo norte-americano e contra-revolução.
2. 1973 – 1999 Golpes de estado promovidos pelos EUA no Chile, Argentina, Uruguai, terrorismo na América Central, ataques neoliberais aos padrões de vida e direitos dos trabalhadores por todo o mundo.

As datas são aproximadas e podem ocorrer sobreposições. Além disso, um período revolucionário pode conter triunfos reaccionários e um período de reacção pode assistir à ocorrência de mudanças progressivas ou revolução. Apesar destas limitações, há um ciclo definido de revolução e de reacção contra-revolucionária. A dificuldade em perceber a existência destas longas vagas leva quer ao pessimismo por parte das forças progressistas (discurso sobre a cooptação da classe trabalhadora) quer ao triunfalismo por parte dos reaccionários (o “fim da história”, obsolescência do socialismo).

Há também diferenças entre as vagas revolucionárias. No passado, regimes revolucionários foram instalados ou a contra-revolução triunfou num espaço de meses. Hoje, o processo revolucionário está muito mais prolongado, como vemos na Venezuela e na Bolívia onde uma situação revolucionária tem existido durante anos. Na Argentina, apesar de muita da luta da classe trabalhadora militante desde 2001 ter sido recuperada pelo populismo, a classe como um todo não foi derrotada como foi em 1976. Em certos aspectos houve uma fusão de reforma e revolução.

A segunda diferença é a fraqueza do imperialismo norte-americano. Manietado no Iraque e no Afeganistão, o império estendeu-se excessivamente e depara-se com a hostilidade das populações dos seus supostos aliados. Vê-se incapaz de aterrorizar a América latina e colocá-la “no seu lugar”, como fez a apenas 20 anos atrás. Isto dá ao processo revolucionário tempo e espaço para se desenvolver autonomamente.

A terceira diferença é a severidade da crise económica e o facto de que ela é de facto uma crise tripla – económica/energética e ambiental. O capitalismo nunca antes enfrentou uma crise desta magnitude. Isto limita a sua capacidade de intervenção e traz desassossego aos centros do império.

As hipóteses de sucesso nunca foram maiores. Nunca tanto esteve em jogo. O que acontecerá?”

Larry Gambone no Porcupine blog

mescalero

Uma perspectiva anarquista sobre as eleições nos EUA

Representative democracy is just like the free market: everyone supposedly gets a chance, but only a few come out on top. If you don’t win, you must not have tried hard enough! This is the same rationalization that our rulers use to justify the injustices of capitalism, sexism, and racism: look, you lazy bums, you could have been Bill Cosby or Hillary Clinton if you’d just worked harder.
The rest of us know the system is rigged to make us all losers. We deserve another world, another way of distributing power and resources that values everyone’s needs equally. If someone has to be a failure, let it be the ones who aspire to world domination, whose triumphs make us feel small; if anyone must languish in prison, let it be the politicians who seek power at everyone else’s expense. That would be some real Hope and Change.

CrimethInc

A World Enslaved

Um dos factos mais demolidores para a ideia de que a humanidade tem vindo a progredir social, política e culturalmente ao longo dos séculos, é a constatação de que, no dealbar do séc. XXI, a escravatura não só não desapareceu mas há hoje mais escravos do que no auge do tráfico negreiro, quando a escravatura estava legalmente instituída.

E. Benjamin Skinner fez uma pesquisa, durante quatro anos, pelos cinco continentes, da escravatura no mundo moderno, que descreve no artigo A World Enslaved para o Foreign Policy.

In Africa, tens of thousands are chattel slaves, seized in war or tucked away for generations. Across Europe, Asia, and the Americas, traffickers have forced as many as 2 million into prostitution or labor. In South Asia, which has the highest concentration of slaves on the planet, nearly 10 million languish in bondage, unable to leave their captors until they pay off “debts,” legal fictions that in many cases are generations old.

No início do seu artigo ele descreve a conversa que teve com o facilitador do negócio de venda de seres humanos – ou agente de emprego, como ele se autodenomina – dos quais dois terços são crianças. Demorou-lhe apenas cinco horas desde Nova Iorque até conseguir realizar este negócio no Haiti.

Um aspecto para o qual ele nos chama a atenção é o erro de se pensar que grande parte desta escravatura é sexual. Na verdade, para cada mulher ou criança escravizada no comércio do sexo, há pelo menos 15 homens, mulheres e crianças escravizados de outras formas, como o trabalho doméstico ou agrícola.

O que fazemos nós, no ocidente da abundância, para combatermos este flagelo?

Benjamin Skinner apela a novos paradigmas legislativos de luta contra a escravatura. Aqui, não posso deixar de estranhar que se pretenda encontrar uma solução no mesmo código de leis que é irredutível na protecção da globalização capitalista, do novo colonialismo das multinacionais, da cooperação com os regimes corruptos e ditatoriais do terceiro mundo e que permite e fomenta guerras dementes.Romper com esta lógica terá de ser de baixo para cima, dos escravizados para os escravizadores e não o contrário. E nós, no nosso conforto e abundância primeiromundista, teremos que começar por não compactuar com o mercantilismo escravizante, deixando de fornecer hordas de consumidores inconscientes e manipuláveis à lei da oferta e da procura.

mescalero

A guerra não é um jogo

No início deste mês cerca de 50 activistas reunidos pela organização Direct Action to Stop the War, juntaram-se num protesto em São Francisco contra a campanha do exército de recrutamento de crianças, alegando que o recrutamento de menores de 17 anos é ilegal. Em causa o jogo para a Xbox, America’s Army, produzido pela famosa Ubisoft e propriedade do Departamento de Defesa.

“America’s Army”, available since 2002 as a free download, is a game developed by the U.S. military to instruct players in “Army values,” portray the army in a positive light, and increase potential recruits. The “game” is the property and brainchild of the US Army, which admit freely, and with pride, that it is one of their principal recruitment tools.

Já em Maio o American Civil Liberties Union havia publicado um relatório bastante detalhado em que denunciava o recrutamento feito regularmente a menores de 17 anos. Na terra da liberdade, jovens de apenas 14 anos podem entrar para o programa Junior Reserve Officer Training Corps (JROTC). Este programa opera em 3000 escolas por todo o país. Os cadetes JROTC recebem uniformes militares e participam em exercícios militares e paradas, manejam espingardas reais e de madeira e aprendem história e comportamento militar. O objectivo declarado é melhorar as perspectivas perante a possibilidade de uma carreira no exército.

Em Setembro de 2006 havia 7,5 milhões de utilizadores registados no site do America’s Army. Segundo o próprio exército norte-americano, em declarações perante a Senate Armed Services Committee, os seus esforços de recrutamento, que incluem o America’s Army, têm como objectivo penetrar a cultura juvenil e tornar o exército uma opção no conjunto de interesses dos jovens. Consequentemente, o website do America’s Army tem uma ligação directa para a página web de recrutamento do exército.

Numa sondagem num quartel da Geórgia – a americana, claro – ficou-se a saber que 60% dos recrutas haviam jogado o America’s Army mais de 5 vezes por semana, e que 4% afirmavam que se tinham alistado por causa do jogo.

Na secção FAQ (Frequently Asked Questions) do website do jogo, como resposta à pergunta se crianças de 13 ou mais anos devem ser expostas ao que o exército faz, aparece a resposta

In elementary school kids learn about the actions of the Continental Army that won our freedoms under George Washington and the Army’s role in ending Hitler’s oppression. Today they need to know that the Army is engaged around the world to defeat terrorist forces bent on the destruction of America and our freedoms. The game provides a virtual means to explore a variety of Soldier experiences in basic training, advanced training, and training missions in real world Army units, so that young adults can see how our training builds and prepares Soldiers to serve in units in defense of freedom.

Quanto ao jogo em si, ele pretende ser o mais fiel possível à vida militar. O jogador cria o seu soldado virtual, escolhe a sua especialidade e gere a sua carreira e a sua progressão ao longo da hierarquia desde a carreira de obstáculos até à chefia de um esquadrão. O resto é shot’em up tradicional. Não é considerado dos melhores do género, perdendo claramente para rivais como o Call of Duty 4: Modern Warfare, mas o facto de ser gratuito sempre contribui para a sua divulgação.

Têm sido vários os protestos contra este tipo de recrutamento, envolvendo activistas, escritores, ex-soldados, membros da Iraq Veterans Against the War e educadores preocupados.

Ironicamente, em resposta, a Ubisoft invoca o direito constitucional à liberdade de expressão. A fronteira entre a liberdade de expressão e de manipulação é realmente muito ténue.

“Ubisoft is a leading publisher that strives to create the best entertainment experiences possible. Ubisoft worked with the U.S. Army to create America’s Army games for the Xbox and Xbox 360 in order to deliver a compelling experience for our customers. As we discussed with the Direct Action to Stop the War (DASW) organization, our games are created to meet a diverse range of interests and not to express or endorse any political view. We respect DASW’s First Amendment rights, and would hope they also respect and recognize ours.”

Como li escrito algures “O entretenimento não é a razão pela qual o mundo não presta. É a razão pela qual sabemos que o mundo não presta.”

Mentiras de Hiroshima

Foto de mitsugi kishida

A ler o Artigo de john pilger no guardian sobre os paralelos entre as mentiras de hiroshima e as mentiras de hoje no médio oriente.

“Nas palavras das vítimas, não devemos permitir uma repetição nuclear no médio oriente”