Dos tiros nos pés

A organização de umas Jornadas Anarquistas e Anarco-sindicalistas no Porto conta com grupos que não existem e “outros colectivos” demasiado envergonhados para colocar o seu nome.

AIT – Secção Portuguesa | SOV.AIT-SP – Porto | CESL (Círculo de Estudos Sociais Libertários) – Porto + outros colectivos e indivíduos libertários

Da minha parte não aceito esta política de expedientes para “parecermos muitos”. Julgo que o caminho a seguir deve ser o da transparência e da credibilidade, porque outras formas de actuar são portas abertas ao autoritarismo, que é o que à partida queremos combater.

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Banksy ataca os Simpsons

O grafiter britânico Banksy criou um genérico para os Simpsons e deixou bem claro o que pensa da exploração de mão-de-obra barata no oriente.

GNR tem blindados idênticos aos que a PSP quer

Já durante a tarde, acabaria por ser a APG [Associação dos Profissionais da Guarda], ainda em comunicado, quem se insurgia contra o negócio, afirmando que o mesmo corresponde a uma duplicação de meios, uma vez que a GNR já possui viaturas idênticas. “Decisões deste tipo, bastante onerosas para os contribuintes, demonstram que a tutela tem as suas prioridades algo desfasadas daquilo que são as carências das forças de segurança”

Economista también rima con anarquista

Lluís Rodríguez Algans es economista, militante de la CNT de Barcelona y miembro del Instituto de Ciencias Económicas y de la Autogestión (ICEA). Gracias al trabajo intenso y riguroso de sus miembros, esta entidad -creada sólo hace un par de años- ya se ha convertido en uno de los puntos de referencia de la economía crítica del Estado español.

Jordi Garcia

Tradicionalmente, el pensamiento anarquista se ha centrado poco en la economía. ¿Cuáles son las principales contribuciones del anarquismo al pensamiento económico?

Como dices, el anarquismo se ha centrado poco en economía y ha desarrollado mucho mejor los aspectos filosóficos y sociológicos de crítica al poder y a la autoridad, de cuestionamiento de la función del Estado, etc. Otras corrientes de pensamiento como el marxismo, tradicionalmente, se han enfocado a analizar el funcionamiento de la economía capitalista de forma muy solvente. Todo esto, sin embargo, conviene matizarlo, ya que, dentro de la historia del pensamiento, existe la tendencia de etiquetar las posiciones para reforzar las corrientes de pensamiento, aunque este proceso no sea lineal ni tenga una coherencia interna absoluta. Por poner un ejemplo, las aportaciones teóricas de Paul Baran y las empíricas de autores radicales americanos más contemporáneos en relación al trabajo productivo e improductivo -por lo tanto, útil socialmente- rompen con la posición marxista clásica del tema. Estos razonamientos se adscriben a la corriente (neo)marxista, pero teóricamente conectan más con autores anarquistas, anarcosindicalistas o institucionalistas anteriores como Cornélissen o Veblen. Dicho esto, sí que creo que el anarquismo y el anarcosindicalismo han hecho aportaciones importantes al debate de cómo organizar la economía y la sociedad de forma autogestionaria y de la forma de llegar ella, con autores como Kropotkin, Pierre Besnard, Christian Cornélissen, Rudolf Rocker, Isaac Puente, Abad de Santillan, Gaston Leval, Abraham Guillén, y más recientemente, Michael Albert i Robin Hahnel.

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Perspectiva sobre a Huelga General

Comentário de José Antonio Gutiérrez no Anarkismo.net sobre a greve geral de amanhã no estado espanhol na qual estão empenhados os sindicatos libertários:

«la acción sirve de plataforma para acercar posiciones en el campo popular y dar unidad de propósito en la misma lucha. Ojalá que esta huelga sirva como un primer paso para construir los niveles de unidad necesarios, no solamente entre los sindicatos libertarios, sino también con los sindicatos autónomos, clasistas y de lucha. Sin esa unidad, no hay manera de tumbar esta agresión abierta contra los trabajadores que avanza en toda Europa.»

«la crisis, al menos en Europa, en lugar de estar fortaleciendo a las propuestas revolucionarias o libertarias (como se vaticinaba en un primer momento, no sin razón, debido al grado de descontento y al profundo malestar en contra del sistema, como se vio en las primeras manifestaciones contra la crisis), está fortaleciendo a la derecha neoconservadora. Lo cual demuestra que las condiciones objetivas no bastan, y que tampoco basta que las condiciones subjetivas se reduzcan al maestar generalizado y a la desconfianza del sistema. Si el proyecto libertario no se constituye en alternativa (descartamos que la socialdemocracia lo sea, porque se ha mostrado ante la clase trabajadora como una vulgar administradora neoliberal), la única que podrá capitalizar políticamente la crisis será la derecha neoconservadora. Eso se aprecia también con el ascenso del “tea party movement” en los EEUU. Creo, por consiguiente, que un aspecto fundamental es que, mediante este acercamiento en la lucha, podamos comenzar a dar pasos concretos, en un sentido programático para levantar una respuesta alternativa a la crisis y no nos quedemos solamente en la oposición a las medidas reaccionarias de los socialdemócratas o de los neoconservadores.»

Huelga General

Disputa entre PSP e Al-Qaeda pelas ruas do Parque das Nações

O Ministério da Administração Interna (MAI) autorizou um reforço extraordinário do orçamento da PSP, no valor de cerca de cinco milhões de euros, para a aquisição de vário equipamento e material de ordem pública que vai ser usado na segurança da Cimeira da NATO, a 19 e 20 de Novembro. Pela pena delicodoce da reputada jornalista Valentina Marcelino.

5 milhões de euros gastos sem concurso público por ser “material crítico, de segurança”. Não foi dada a justificação da urgência porque afinal de contas a cimeira da NATO já está marcada há bastante tempo e esse argumento não seria aceite. Qual é então esse material crítico para garantir a segurança no Parque das Nações?

  • seis veículos antimotim, blindados, norte-americanos, iguais aos usados no Iraque, que servem para transportar e distribuir as equipas de intervenção para as chamadas “zonas quentes” de alteração de ordem pública.
  • material de segurança mais sensível (de informação e contra-informação, bloqueio de telemóveis, etc.)
  • escudos, viseiras, capacetes, gás-pimenta, gás lacrimogéneo, barreiras de protecção, estruturas móveis para montar check points de controlo de acessos.

E são estes equipamentos usados para garantir a segurança contra uma grande ameaça, a saber:

  • Al-Qaeda, que costuma andar em grandes grupos pela cidade de Lisboa ameaçando a ordem pública e que para isso usam telemóveis para marcar estes ajuntamentos de terroristas. Verificar a veracidade disto no DN, Ameaça da Al-Qaeda aproxima-se de Portugal.

Ah! Já me esquecia. Também dizem qualquer coisinha de uns grupos radicais cujos membros se vestem de negro, incluindo o rosto. Mas, sem confusões. Os 5 milhões são por causa da Al-Qaeda.

A Quebec Provincial Police, Canadá, a deter uns perigosíssimos manifestantes nos protestos durante a Cimeira dos Líderes Americanos em Montebello, 2007. Afinal os detidos eram agentes provocadores da polícia como se pode ver pelas botas iguais às da polícia. A evidência foi tão forte que a polícia se viu obrigada a admitir a acção.

Canteiros galegos e portugueses: face a face

Pelo companheiro galego Eliseo Fernández no Diário Liberdade.

Na década de 90 do século XIX houve uma vaga de conflitos entre operários galegos e portugueses. Naquela altura, existia uma forte mobilização operária em toda a Galiza, estimulada pelas reivindicações da jornada de oito horas na data do 1º de Maio, solenizada no país desde o ano 1890.

As divergências entre operários galegos o portugueses tiveram início no Outono de 1894 na Corunha, atingindo os canteiros que trabalhavam na praça de Maria Pita. Naquela obra, os operários galegos pediram a demissão dalguns portugueses que lá estavam lavrando pedra. O motivo da briga era que os operários portugueses chegados de Viana do Castelo não aderiram as sociedades operárias da cidade e não apoiavam a greve dos operários galegos pedindo aos patrões a subida dos salários. Os canteiros corunheses entrevistaram-se oficialmente com os colegas portugueses para lhes pedir que deixassem de trabalhar, mas não o conseguiram e começaram então os ataques contra os canteiros lusos. Depois de vários incidentes violentos entre os canteiros galegos e portugueses, os operários da Corunha tiveram de abandonar a greve sem conseguir as suas reivindicações.

Em Maio de 1897 houve uma nova greve na Corunha, e desta vez os operários da cidade tiveram a iniciativa de enviar notícia da greve aos jornais operários de Espanha e Portugal para evitar a chegada de fura-greves do país vizinho. Mais o maior conflito daquele período foi em Compostela, onde também os canteiros que trabalhavam nas obras da universidade se declararam em greve a finais de Abril de 1898. Decididos a não permitirem que os fura-greves prejudicassem o movimento, uma multidão congregou-se na estação dos caminhos-de-ferro de Cornes, pois lá estava previsto que chegasse um grupo de 15 operários contratados no próprio Portugal pelo patrão Juan Bouzán, por encomenda da sociedade patronal recentemente criada. À chegada do comboio, os operários grevistas e um numeroso grupo de mulheres começaram a apedrejar os fura-greves, ferindo alguns deles e também um dos patrões que lá fora recolhê-los.

As consequências do incidente da estação de Cornes foram muito graves, pois a polícia deteve vários operários e operárias como supostos autores do ataque aos canteiros portugueses.

Também não foi ganha a greve, e quase um ano depois, houve um juízo contra as pessoas envolvidas na agressão aos portugueses. Vinte e quatro homens e vinte e duas mulheres foram julgadas em Março de 1899, mais o fiscal retirou a acusação contra a maior parte dos réus e só a manteve contra dois homens e duas mulheres; para eles tão só pediu penas de dois meses de cárcere e uma coima de 125 pesetas, respectivamente.

A lição que o operariado galego tirou destas greves foi a de que necessitava estreitar os contactos com as associações operárias portuguesas para interromper a chegada de canteiros do país luso quando na Galiza houvesse greves. Foi no início do século XX quando aqueles contactos chegaram a produzir fruto.

O racismo é um monstro de inúmeras faces

«O racismo é um monstro de inúmeras faces. A própria afirmação “Eu não sou racista” contém muitas vezes em si a estirpe paternalista do imundo vírus. Jorge de Sena contava, a propósito, o que, chegado ao Brasil, ouviu de uma senhora da alta sociedade brasileira: “Aqui no Brasil não há racismo. E sabe porquê? Porque, aqui, o preto sabe pôr-se no seu lugar”. Mas o racismo não raro contamina as próprias vítimas, tornando-as também em algozes. O mais inquietante exemplo é talvez aquilo que Steiner chama o “ódio de si”, ou “autoproscrição”, do judeu, que explicaria o desconcertante anti-semitismo ou rejeição do próprio judaísmo que, desde Paulo de Tarso, é notório em numerosos intelectuais judeus (mais perto de nós, alguns houve que chegaram a aprovar Hitler). Que sentir senão repugnância com uma resposta que o presidente da Câmara de Torres Vedras, cigano, deu ao “Expresso” a propósito da expulsão de França de ciganos romenos e búlgaros: “Os ciganos portugueses vêem com apreensão a chegada dos ‘novos ciganos’. Sentem que os seus comportamentos desviantes ou bizarros podem pôr em causa a integração”?»

Manuel António Pina no JN

A informação corporativa por Júlio Magalhães, Director de informação da TVI

«O que acontece hoje é vermos jornalistas que vão para assessores e depois voltam para as redacções, fazem comissões na política e regressam ao jornalismo, são todos muito amigos uns dos outros… portanto o que há é conversas. Os políticos hoje têm uma porta de acesso tão fácil aos jornalistas que é quase como se fossem de casa, de amigos.»

«Nós sabemos que no jornalismo de hoje muitos jornalistas têm acesso a fontes e a histórias que não podem contar por serem amigos… Infelizmente é assim.»

«quando comecei no jornalismo, nos anos 80, as relações dos jornalistas com o poder político e económico não eram assim. Até porque as coisas mudaram, com os grandes grupos económicos envolvidos nos media. E os políticos perceberam que tudo se joga na comunicação social, portanto chamaram para o seu lado muitos jornalistas. Isso gera uma intimidade entre classes que joga a favor de todos nos interesses, mas que também prejudica todos na essência do que é o jornalismo e do que é a política ou a economia.»

«O jornalismo faz-se à conta de fontes, de amigos. Os jornalistas hoje quase não têm de investigar porque as coisas vêm ter com eles. O que é preciso é mantermos um determinado equilíbrio entre regras éticas e alguma noção do que é o jornalismo. Isso vai-se conseguindo. A nós compete-nos depois contar bem as histórias.»

ionline

Um estalinista, um anarquista e um trotskista…

Um estalinista, um anarquista e um trotskista chegam cada um a sua casa e encontram os seus companheiros na cama com um camarada. Qual é a sua reacção? O estalinista mata-os aos dois, o anarquista pergunta se se pode juntar a eles e o trotskista escreve uma declaração de 20 páginas a justificar uma cissão organizacional.

Sociedades Pacíficas

Cerca de 18,500 Semai vivem na floresta densa das montanhas centrais da península da Malásia. Os Semai subsistem do cultivo da mandioca e do arroz, da pesca, da caça, e do comércio de alguns produtos florestais. São um povo considerado atrasado e primitivo pelos padrões do mundo moderno industrializado, e no entanto num aspecto fundamental da sua sociedade estão muito à nossa frente: têm uma forte imagem não-violenta de si próprios, proclamam-se como sendo um povo não-violento, que não entra em guerras, que repudia a raiva e a agressividade entre os seus membros, que quase nunca bate nas suas crianças. São uma sociedade pacífica.

Existem actualmente 25 povos que são considerados mais ou menos consensualmente pelos cientistas sociais como sendo sociedades pacíficas, uma lista em que entram apenas as sociedades que a maior parte do tempo têm muito pouca violência interna e se envolvem muito pouco em guerras externas. Com o aviso de que não são utopias e que partilham muitos problemas com o resto dos povos humanos. No entanto, a forma como estas sociedades desenvolveram estruturas sociais, psicológicas, éticas e religiosas que fomentam a paz, deveria inspirar e desafiar qualquer um empenhado no processo de construção da paz. Incluindo sociedades que são agora pacíficas mas foram no passado conhecidas pela sua violência (por ex. os Waorani do Equador), o que significa que a determinada altura mudaram o seu percurso e conseguiram instituir com sucesso outros valores e outras formas de os alcançar.

As diversas tribos índias que vivem ao largo do rio Xingu, no Brasil, apesar de não falarem a mesma língua, construíram uma série de mecanismos que os impedem de entrar em guerra umas com as outras. Um deles consiste na especialização de cada tribo na produção de bens que depois são trocados com as outras tribos. Os Waurá, por exemplo, são os únicos oleiros, uma competência que as outras tribos valorizam e respeitam.

Segundo o antropólogo Douglas P. Fry, temos três elementos principais que fazem parte do que ele chama de Sistemas de Paz como o dos xinguanos:

  1. a interdependência económica que ajuda a criar relações não guerreiras entre os povos;
  2. laços pessoais apertados que ajudam as pessoas a criar um sentimento de interconexão (por exemplo, casamentos entre comunidades);
  3. mecanismos para resolver conflitos de forma pacífica.

Os dois primeiros pontos são estratégias de relacionamento com o exterior, de forma a evitar a violência externa que é a guerra. Uma outra estratégia – que não deixa de ser um mecanismo social para resolver conflitos de forma pacífica – é o óbvio mas bastante depreciado nas nossas sociedades… fugir. Muitos destes povos simplesmente fogem quando são atacados, evitando assim o conflito. Chegam a ter horror ao acto de violência. O antropólogo Kirk Endicott (1988) questionou a certa altura um homem Batek (uma outra tribo pacífica de outra região da Malásia) porque é que, aquando dos raides dos esclavagistas malaios que duraram até ao início do século XX, eles não ripostavam contra os atacantes. A resposta dada em choque foi “porque isso os mataria”.

Um outro factor importante no dificultar do aparecimento de conflitos externos é o isolamento, que protege os povos não-violentos dos menos preocupados com essas questões. Por exemplo, os !Kung-San dos desertos do sul do continente africano tendem a ficar mais violentos quando se vêm obrigados a interagir com os seus vizinhos agricultores. São influenciados e absorvem as características das sociedades dominantes, como não poderia deixar de ser.

Do ponto de vista interno ao grupo, temos logo à partida como fomentadores da paz, os próprios sistemas sócio-culturais, ou seja, conjunto de crenças, convicções, mundividências que beneficiam a paz, que são seleccionados e construídos tendo em vista a prossecução desse fim. Muitas sociedades pacíficas têm modelos sociais para lidar com a violência, que podem envolver reprovação pública ou sanções como o ostracismo do elemento que foi agressivo, que pode ser temporário ou ir até à expulsão definitiva da comunidade.

As discussões públicas para as partes defenderem os seus argumentos são outra das formas habituais de resolução de conflitos. E quando não é possível encontrar uma solução, uma das partes pode abandonar a disputa para deixar os sentimentos de raiva desaparecerem. Ou se o caso for mais grave o grupo pode cindir-se em dois. Esta prática da separação quando não se encontram soluções para as disputas é dos recursos mais utilizados pelas sociedades pacíficas.

Existem também conselhos dos elementos mais velhos e mais sábios que procuram chegar a uma solução com as partes. Estes homens não são considerados líderes, pois a figura do líder não é muito comum. Existem por vezes, mas são habitualmente pessoas consideradas pelos outros como pessoas sábias e de bem e não deixam de estar subordinados à comunidade. Têm de ser persuasivos e geralmente não detêm autoridade efectiva.

A educação das crianças é considerada muito importante. A inexistência de jogos competitivos e violentos, é uma das características que mais entra em choque com a cultura ocidental. Quando a competitividade é incentivada, é feito dentro de grupos e não individualmente; são comunidades pró-sociais, é um dos seus traços mais distintivos. Outra característica destas sociedades é o papel não disciplinador dos adultos para com as crianças. Estes adultos seriam vistos por nós como indulgentes e permissivos. Supõe-se que as crianças imitem o comportamento dos adultos, o que acontece, e que a partir de certa idade estarão receptivas a contribuir para o modo de vida do grupo. A excepção parecem ser as comunidades cristãs dos Amish e dos Hutterites que procuram disciplinar desde muito cedo as suas crianças e educá-las para a autoridade paterna.

Sobre as sociedades pacíficas, o antropólogo Leslie Sponsel tem vindo a defender que

«a “era da letalidade”, o período recente de poucos milhares de anos na história humana em que as pessoas têm travado guerras, corresponde ao desenvolvimento na humanidade da desigualdade social e das civilizações complexas. Há muito pouco ou nenhuma evidência de guerras anteriores ao período Neolítico – que parece ter-se originado com a organização social baseada em Estados. Sponsel admite que, evidentemente, a humanidade não pode retornar a um passado caçador-recolector, mas que muitas das mais pacíficas sociedades descritas na literatura científica pode indicar-nos, ele defende, modelos heurísticos de uma sociedade sem assassinatos.»

A existência destas culturas pró-sociais é um facto. Concorde-se ou não com as estratégias usadas, e apesar dos muitos problemas que elas apresentam, a constatação da sua existência não permite que reste muito do edifício hobbesiano que apresenta a humanidade como eminentemente violenta e guerreira. Sabemos que o planeta está demasiado ocupado pelos Estados e pelos seus exércitos para que seja possível fugir ou nos separarmos deles e assim escapar à “era da letalidade”. Não é possível distanciar-nos e também não é possível o diálogo. Entre dominador e dominado o diálogo é sempre desigual e frequentemente uma farsa. Por isso, como é possível no século XXI, conjugar uma cultura de paz que abomine a guerra e a violência, com o slogan “Guerra Não, excepto a Guerra de Classes”?

É um dos think thank mais reconhecidos e o director da CIA que o diz

Afeganistão: The Al Qaeda threat is “exaggerated”: 120,000 US Troops fighting “No More that 50 Members of Al Qaeda”

Repete comigo: sou livre

«Vai para o trabalho, manda as tuas crianças para a escola

Segue a moda, age normalmente

Anda pelo pavimento, vê TV

Guarda-te para a velhice, obedece à lei

Repete comigo: sou livre»

Os preconceitos sobre a anarquia e a religião são desmentidos pela História!

[recebido pelo correio]

Anarquia e a religião – as ideias preconcebidas sobre ambas são desmentidas pela verdade histórica

Anarquia = em 150 anos de existência do anarquismo, a violência praticada pelos anarquistas existiu mais ou menos durante 10 anos ( por volta de 1890) e terá provocado algumas dezenas de mortos e feridos. No entanto, o preconceito sobre os anarquistas, associados à violência, e como alguém que coloca bombas é persistente ainda hoje!

Religião = ao longo de m ais de 20 séculos de existência, as religiões provocaram centenas de milhares de mortos, guerras sem fim, massacres, genocídios que terão causado milhões e milhões de mortos e feridos. No entanto, a imagem feita e persistente de uma pessoa religiosa é a de um ser pacífico !!!

Relatório anual sobre terrorismo e dito popular apropriado à ocasião

Segundo a Europol no seu relatório anual sobre terrorismo, os ataques de extrema-esquerda e de anarquistas aumentaram 43% em 2009 quando comparado com 2008, e mais do que duplicaram quando comparados com 2007. Os países com mais actividade são a Grécia, a Espanha e a Itália onde foram registados 40 desses ataques. Fonte

Os relatórios anuais sobre terrorismo são como os buracos do cú dos agentes da Europol. Cada um tem o seu!

Revelados estudos de como a União Europeia planeia vigiar os seus cidadãos

“The German Pirate Party has disclosed some secret documents on how the EU is planning to monitor citizens. The so called INDECT Documents describe how a seamless surveillance could (or should) be implemented across Europe. The use of CCTV cameras, the internet (social networks) and even the use of UAVs are mentioned as data sources. Two of the nine documents can be downloaded from the German Pirate Party’s website (PDFs in English).”

Revolução igualitária

É um assunto em aberto entre a comunidade científica, mas há quem encontre razões para defender a ideia de que houve algures há dezenas de milhares de anos uma revolução igualitária que transformou radicalmente o percurso do ser humano no planeta Terra. Uma revolução que consistiu numa mudança na organização das comunidades, uma mudança fruto de conflitos, rupturas e lutas pelo poder, mas que com o tempo fez prevalecer os grupos em que os indivíduos se aliaram para se defender ou obter e partilhar recursos de forma igualitária. Estas alianças mostraram-se mais poderosas do que a estrutura social em pirâmide com o macho-alfa no topo.

Ainda hoje se pode observar o funcionamento dessas sociedades igualitárias na maioria das sociedades de caçadores-recolectores conhecidas actualmente. Os seus líderes não têm verdadeiro poder e procuram apenas dar assistência a um processo de procura do consenso quando o grupo precisa tomar decisões. É uma pirâmide virada ao contrário com os potenciais subordinados a serem capazes de expressar dominância sobre potenciais indivíduos alpha, através da criação de alianças igualitárias com outros indivíduos.

Essas sociedades de caçadores-recolectores que existem actualmente não são apenas igualitárias, mas também são sociedades pacíficas que construíram estratégias sociais para combater o recurso à violência, de o tornar mal visto, de resolver conflitos de forma pacífica, muitas vezes utilizando mediadores, e educando as crianças desde cedo para a paz e para a cooperação. O resultado do igualitarismo nestas sociedades também se reflecte nos papéis de género, com as mulheres a serem consideradas com o mesmo estatuto que os homens, e com níveis de violência doméstica muito reduzidos. Muita e boa informação sobre estas sociedades, mas também de outras que não são de caçadores-recolectores mas são igualitárias e pacíficas, pode ser encontrada no site Peaceful Societies. A sua consulta poderá ser um desmoronar de preconceitos para os que se convenceram que o ser humano é naturalmente agressivo, violento, competidor e egoísta.

A teoria da revolução igualitária viu agora ser construído um modelo matemático sobre o processo de formação de alianças.

“Os investigadores criaram um complexo modelo matemático para descrever o processo de formação de alianças que depois estudaram usando métodos analíticos e simulações numéricas a grande escala. O modelo foca-se num grupo de indivíduos em que a habilidade de luta varia significativamente. Se todos os conflitos se dessem exclusivamente entre pares de indivíduos, uma hierarquia emergiria, com alguns indivíduos mais fortes açambarcando todos os recursos. No entanto, há uma tendência (muito pequena no início) para outros indivíduos interferirem num conflito em curso alterando assim o seu desfecho. Resultados positivos dessas interferências aumenta a afinidade entre indivíduos enquanto os negativos diminui. Naturalmente, alianças maiores têm mais hipóteses de ganhar um conflito.”

Quem procura estabelecer alianças são, portanto, os menos preparados para a luta mas mais capazes e preparados intelectualmente. Sendo estes que com a formação de alianças cada vez mais abrangentes e poderosas passam a determinar os destinos do grupo, incluindo os que dizem respeito à procriação. São os seus genes que passam para a geração seguinte. É a selecção natural a funcionar.

Não é adequado aplicar o modelo matemático aos seres humanos contemporâneos, nem são as nossas sociedades igualitárias. Algo se perdeu pelo caminho. Talvez porque as mudanças culturais e os avanços tecnológicos tenham feito com que a vantagem numérica se tenha tornado muito menos importante na resolução de conflitos. Chegamos ao ponto em que uma única pessoa pode ordenar o extermínio de milhares. Uma única bomba pode arrasar por completo uma cidade inteira.

Criou-se e desenvolveu-se a democracia porque temos o entendimento de que todos somos iguais e todos devemos ter igual voz perante o grupo, e no entanto, paradoxalmente,  nunca tão poucos tiveram tanto poder concentrado exclusivamente nas suas mãos, nestas mesmas democracias modernas.

Como discutir política com políticos

Debate aceso entre Gérard Collomb, presidente da câmara de Lyon, e dois transeuntes anónimos.

Prémio de desempenho para os porcos capitalistas

A new study shows the CEOs who fired the most workers during the economic recession have also taken home the highest pay. According to the Institute for Policy Studies, the CEOs of the fifty corporations responsible for the worst layoffs were paid an average $12 million—42 percent more than the average for the Standard & Poor’s 500.

Quem somos, de onde vimos e outras dúvidas existenciais

Saíram os resultados do inquérito aos anarquistas. Destaco alguns resultados que me parecem mais importantes, embora não necessariamente surpreendentes. As respostas provêem sobretudo da América do Norte e da Europa, como não seria de deixar de esperar.

> A esmagadora maioria dos que responderam são homens (82%) apesar de o número de mulheres e de homens no global da sociedade ser sensivelmente o mesmo. Muito mau.

> 43,8% são da classe média baixa, 28% da classe trabalhadora e 21% da classe média alta. Como a maioria das respostas vieram da América do Norte (56,6%), nota-se a influência dos que se auto-dominam anarco-capitalistas ao fazerem subir a percentagem da classe média alta (182 descreveram-se como anarco-capitalistas).

> A etiquetagem por correntes deu:

  • Comunista anarquista: 744 (13.2%)
  • Socialista libertário: 591 (10.5%)
  • Anarco-sindicalista: 560 (10%)
  • Não gosto de etiquetas: 510 (9%)
  • Anarquista social: 498 (8.8%)
  • Anarquista sem adjectivos: 495 (8.8%)

A maioria identifica-se com o anarquismo social/socialista/comunista/de esquerda ou com um anarquismo sem etiquetas/adjectivos que foi a minha escolha embora também me identifique com o anarquismo social/socialista/comunista/de esquerda. Não se excluem um ao outro.

> Mais de metade dos participantes acham que o anarco-capitalismo é um problema. Um número significativo acha o mesmo do primitivismo e do sectarismo. Estou de acordo quanto ao anarco-capitalismo e ao sectarismo, embora ache que de uma forma geral os anarquistas são menos sectários do que a esquerda.

> 49,5% acham muito importante que anarquistas de diferentes correntes trabalhem em conjunto. 34,7% acham importante e uma minoria acha pouco ou nada importante. 53% disseram que por vezes poderiam trabalhar com marxistas, 30,6%  disseram que o fariam e 18,5% disseram que não. Acho que são resultados animadores.

> 70% já pertenceram a um partido contra 30% que, como eu, não. Dos que já pertenceram o partido era

  • Marxista: 716
  • Social-democrata: 641
  • Liberal: 594
  • Verdes: 545
  • Libertarianismo de mercado livre: 439 (peculiaridade norte-americana)
  • Trotskista: 236
  • Marxista-leninista: 218

> Quanto à luta que pensam ser a mais importante 57% acham que todas as lutas estão interligadas e 25% referiram a luta de classes. Aparece ainda a destruição ambiental com 8,9% e a libertação nacional/anti-imperialismo com 6%.

> Outra pergunta interessante era sobre a táctica/prática considerada mais útil:

  • Organização comunitária: 1 693
  • Organização laboral: 1 313
  • Desobediência civil: 1 268
  • Escolas livres: 1 071
  • Jardins comunitários: 866
  • Infoshops: 818
  • Protestos: 747
  • Sabotagem: 663
  • Food not bombs: 593
  • Disengagement: 509 (não sei o que isto é)
  • Culture jamming: 488
  • Reclaim the Streets: 426
  • Black blocs: 361
  • Libertação Animal/da terra: 302

O que indica, tal como concluíram os companheiros que realizaram o inquérito, que parece haver a necessidade de uma Diversidade de Tácticas. E aqui entramos na questão da violência.

> 44% disseram que a violência apenas deve ser usada como forma de defesa. 34,5% que a violência, infelizmente, fará parte da revolução. Apenas 16% dizem que a violência é uma parte importante da luta. Uns poucos 5,4% dizem que a violência nunca deve ser usada. A interpretação destes resultados não é muito clara mas se considerarmos aquele “infelizmente” com algum optimismo então podemos dizer que a grande maioria dos anarquistas são avessos à violência.

O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. II

O problema do poder não está no poder enquanto capacidade de fazer algo, o poder-fazer. É na relação hierárquica que se estabelece com os outros que começam a aparecer os sintomas semelhantes a ter o cérebro danificado.

Kevin Carson, numa crítica às hierarquias, comentou que é frequente o argumento de que “foi-lhes dada autoridade por alguma razão”, numa espécie de admissão de que se aceita as coisas desta forma porque “é assim que as coisas são”. Um argumento inabalável. Também repara no recurso algo habitual ao “foi decidido que ….”, preferindo a voz passiva à activa (“fulaninho decidiu que…”), para se evitar o perigo de ver a autoridade como um mero mortal, com objectivos e desejos individuais, e um julgamento subjectivo como toda a gente. Ver os que estão acima na hierarquia como iguais é um passo necessário para se poder dizer “se não é uma boa ideia, não me interessa que seja a lei” e daí concluir que “se tivéssemos tomado a decisão de forma igualitária, o erro teria sido evitado”.

A famosa experiência de Milgram sobre a obediência à autoridade (já reencenada várias vezes), mostra de forma clara que as pessoas tendem a considerar a figura de autoridade como detentora da capacidade e da responsabilidade de tomar decisões por elas, e decisões que normalmente não tomariam e até as repugnaria tomar. No caso desta experiência, a figura de autoridade é uma pessoa mais velha, ou que está sugestivamente vestida de bata branca (E), que em nome do sucesso da experiência insiste para que o sujeito (S) (quem na verdade está a ser estudado) continue a infligir choques eléctricos a outra (A) sempre que esta não responda correctamente a perguntas que lhe vai fazendo. Algumas das pessoas colocadas no papel de S, levam a tortura até níveis inaceitáveis, incluindo a morte (simuladas, claro) de A. Apenas porque a figura de autoridade que está ao lado insiste na importância de levar a experiência até ao fim. (descrição da experiência) (reencenação).

A experiência da prisão de Stanford é outro exemplo de como as hierarquias influenciam negativamente o comportamento de pessoas vulgares.

Em 1971 um grupo de psicólogos sociais, liderados por Philip Zimbardo levou a cabo uma experiência que ficou conhecida como a Experiência da Prisão de Stanford.

A experiência consistiu na simulação de uma prisão em que os papéis de guardas prisionais e de prisioneiros foram atribuídos a estudantes voluntários, com características psicológicas semelhantes e que visava estudar os efeitos psicológicos da vida numa prisão.

Previa-se uma duração de quinze dias e, segundo as regras, quem quisesse poderia abandonar a experiência a todo o momento.

Apesar das regras bem definidas e de todos os participantes saberem que se tratava de uma simulação da realidade e de um estudo científico, a verdade é que a experiência foi interrompida ao fim do sexto dia, porque os participantes começaram a viver com total entrega e intensidade os seus papéis, confundindo a representação com a realidade vivida e identificando-se com os personagens que encarnavam.

Alguns “guardas” tornaram-se especialmente violentos, abusaram da autoridade que lhes havia sido concedida e humilharam os seus “prisioneiros”, deixando mesmo de cumprir as regras da “prisão”.

Por seu lado, os “prisioneiros” foram-se tornando submissos, obedecendo gradualmente às ordens mais absurdas.

Retirado do blog Psicologia Experimental

O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. I

Um artigo no Wall Street Journal que descobri através do Vento Sueste, aborda um tema predilecto dos anarquistas: a corrupção pelo poder. A origem social do artigo levou-o a cair não inocentemente na secção Life and Culture do jornal, junto de curiosidades para entretenimento das massas como Medical Bracelets Go High-Tech. Anda tudo a correr a gastar quase 40 euros nessa porcaria dessa pulseira do equilíbrio e já não resta disposição para raciocinar sobre o facto da corrupção pelo poder estar a ser comparado a lesões cerebrais.

Chamam-lhe o “paradoxo do poder”, porque se percebeu que se por um lado as pessoas boas têm mais possibilidades de chegar a posições de poder, por outro lado acontece uma transformação com a ascensão e essas pessoas deixam de racionalizar da mesma forma, de ser tão honestas, passam a ser mais impsulsivas, descuidadas e rudes, deixam de considerar tantas nuances nas questões como costumavam fazer, e deixam de se colocar no papel dos outros, características que à partida as beneficiaram na sua escalada hierárquica.

Há dois pontos importantes aqui. O primeiro é que ao contrário do que muita gente pensa, o tipo maquiavélico não é uma receita para o “sucesso”. A maioria das pessoas não gosta dos que só se servem a si próprios, não gosta da manipulação, da traição, do desprezo pelo próximo, e tendem a rejeitar os useiros e vezeiros nessas práticas. As pessoas dão poder a quem genuinamente gostam, e esses são aqueles que procuram seguir a regra de ouro da moral “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” (que, não haja confusões, é um preceito anterior ao cristianismo).

O outro ponto é que o que muita gente pensa acerca do poder corromper, ser de facto verdade. Não sabem como nem porque é que acontece, mas sabem que é assim, e com razão. Neste artigo são referidos vários estudos que ajudam a perceber o que muda no comportamento do que antes era uma pessoa compassiva e solidária.

Dacher Keltner, um psicólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley, que realizou alguns desses estudos, chega a notar que pessoas com cargos de autoridade tendem a comportar-se como pacientes neurológicos com um lobo órbito-frontal danificado, uma área do cérebro crucial para a empatia e a tomada de decisões.

Não é uma curiosidade ou um entretenimento para a secção Life and Culture de um jornal. É um assunto que diz respeito à forma mais básica como nos organizamos e nos relacionamos uns com os outros. É uma questão de racionalidade ao escolher as estruturas sociais que sejam as mais proveitosas para todos. Fala-se demasiado em Democracia, República, Partidos e Política. Fale-se antes de hierarquias.

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A chefia como forma que a natureza encontrou para retirar os idiotas do fluxo produtivo

Paridade de género na escolarização

“The world has reached gender parity in schooling and in a few years we will see a schooling ratio in favor of women.  Using UNESCO statistics (more detail here) on school life expectancy, the average country has a parity level of 1.01 in favor of women or, weighting by population, .991.  In other words, at current rates women can be expected to get the same number of years of education as men, as a world average.”

continuar a ler no Marginal Revolution

Previna-se e Viva. Revolte-se e …

As instruções que ninguém esperava receber começaram finalmente a chegar. O governo adverte: “Previna-se e viva”, pela voz do Ministro da Agricultura, António Serrano, frisando que se trata de uma «resposta obrigatória» dos Estados-membros da Nato. As indicações começaram a ser dadas aos cidadãos de forma a que possam aumentar as suas possibilidades de sobrevivência. A par da “despensa de emergência” que deverá conter mantimentos para duas semanas sem acesso a supermercado, com biscoitos, bolachas, conservas, águas, sumos, etc. deverá ser preparada uma “mochila de emergência” contendo alimentos base e utensílios como guardanapos, fósforos, panelas pequenas, canivete multiusos e lanterna. “A ideia é criar uma cultura de segurança junto da população”.

O diligente governo empresta-nos o seu juízo avisado, expõe com zelo a nossa vulnerabilidade, explica-nos que a muralha de segurança acabará eventualmente por ceder. Prepara-nos para o pior lembrando-nos que estar mal não é razão para se deitar a perder o pouco que se tem. O  medo do inimigo às portas da cidade fará, como sempre, o serviço esperado:  favorecer o egoísmo em detrimento da solidariedade; o toque a reunir em torno desse bem abstracto que é a nação; o mitigar das posses e do poder da população em benefício das elites; a renúncia total à contestação interna.

Previna-se e Viva

Foto Lusa: António Serrano armazenando mantimentos num supermercado de Lisboa.
via Ferroadas

Os inimigos entre nós

«Os inimigos entre nós

Neste último Fevereiro, um pequeno black bloc juntou-se a uma acção chamada “The Heart Attack” e destruiu as janelas de diversas lojas e bancos em Vancouver durante os jogos olímpicos. Na sequência do sucesso que foi esse dia que incluiu acções não violentas, a polícia procurava desesperadamente os perpetradores e prendia activistas com os mais ridículos pretextos, como andar de bicicleta pelo passeio.

Durante a convergência anti-olímpica, o director executivo da BC Civil Liberties (BCCLA), David Eby, fazia parte da equipa legal para a Rede de Resistência Olímpica (RRO). No dia seguinte ao “Heart Attack” David Eby denunciou a acção nos média corporativos. Na sequência dessa denúncia, Larry Hildes, um advogado e membro da equipa legal da RRO desassociou-se e fez declarações à Vancouver Media Coop (um serviço de notícias locais independentes).

«Há pessoas na cadeia agora que a BCCLA que é suposto lhes dar apoio jurídico está, em vez de fazer isso, a denúncia-las.” E acrescentou: “Como advogado acho que é antiético e deviam ser disciplinados pela “law society” por fazerem isso.»

Durante este período de intensa repressão policial, o blogger do Rabble.ca, e agora co-presidente do StopWar.ca, Derrick O’Keefe, sentiu que era apropriado acusar numa rede social um activista seu conhecido e camarada de assalto. Pesquisei e pedi às pessoas que haviam repostado a acusação de O’Keefe para a retirarem do ar, e mandei um email a O’Keefe a pedir-lhe para se explicar. Até hoje estou para receber uma resposta, e O’Keefe voltou a repetir a acusação no seu blog. Em 30 de Junho deste ano, poucos dias depois de um black bloc danificar lojas das empresas e incendiar carros da polícia em Toronto durante o G20, O’Keefe promoveu um website na sua conta do Twitter que exortava as pessoas a contactar a Toronto Crime Stoppers e fornecer informações sobre um homem que foi fotografado a destruir um carro da polícia.

Da mesma forma, a 27 de Junho, o conhecido activista e escritor de Toronto, Judy Rebick, disse a um serviço noticioso local que o black bloc deveria ter sido preso… “no início, antes que eles tivessem oportunidade de fazer parte de uma grande multidão.” Mais tarde, na entrevista, Rebick completou a ideia de “bom manifestante vs mau manifestante”: agora passou a haver bons militantes e maus militantes. Os bons militantes só queriam ir até o muro que foi construído para proteger os líderes do G20 e os maus militantes foram os que quebraram janelas de lojas e montras de bancos. É importante notar que Rebick prestou homenagem no seu livro Ten Thousand Roses às sufragistas pela sua luta pelo direito ao voto. As sufragistas foram uma primeira vaga de militantes feministas que se envolveram em acções diretas, como a destruição de vitrinas e a colocação de bombas.

Seguindo a deixa de Rebick, o comentarista político “progressista” Murray Dobbin sugeriu que da próxima vez que um black bloc aparecer, os activistas sociais façam cumprir a lei pelas suas próprias mãos e os “detenham, se a polícia se recusar.”
Perigoso precedente.

Agora que denunciar e desmascarar militantes foi aprovado pelas grande entidades “esquerdistas”, a caça às bruxas para identificar e entregar os “vândalos” à polícia está viva e recomenda-se nos websites “progressistas” e no Facebook. Há pessoas a vasculhar a internet à procura de provas em vídeos e fotografias, e a Polícia de Toronto criou uma página web onde as pessoas podem carregar “anonimamente” as suas próprias pistas digitais. Em Vancouver, uma manifestação pelos direitos civis organizada “de acordo com a polícia” não vai acolher o black bloc e uma organizadora diz que “não culpa a polícia necessariamente” pelos abusos contra os direitos civis que aconteceram em Toronto durante o G20. A manifestação contará com palestrantes da Stopwar.ca e da associação Civil Liberties BC.»

Rebick a falar numa manifestação de apoio a prisioneiros apenas alguns dias depois de ter apelado à prisão de militantes.

Derrick O’Keefe durante o infame debate com Harsha Walia.

David Eby, da BCCLA, a defender a sua denúncia da acção “Heart Attack”.

Murray Dobbin quer que te juntes a um grupo de vigilantes sociais.

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