Category Archives: protesto

Descomplicar

Não é nenhuma acção de encher o olho, nem teve grande repercussão mediática, mas veja-se como um pouco de solidariedade, uma pitada de organização e  um cheirinho de sentido de oposição às arbitrariedades dos engravatados podem dar a volta a uma má situação.

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Uns poucos sindicalistas do Sindicato de Oficios Varios de Madrid (CNT-FAI), como se pode ver nas fotos, juntaram-se há uns dias à porta da cadeia de supermercados Mercadona, a reivindicar os direitos de um trabalhador despedido. O protesto e talvez o facto de diversas pessoas terem sido convencidas pelo piquete a evitar aquele lugar de mau agoiro, levou a que uns dias depois a empresa recuasse e resolvesse repor a legalidade da situação.

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Tão simples. Vai-se para a porta, faz-se algum barulho e resolve-se o caso.

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Política como continuação da guerra

A reacção é recorrente e já nos habituamos a ela. Em qualquer acção directa que fuja ao controlo dos partidos e não leve bem visíveis as suas marcas identitárias, corre sempre o boato que “alguém” há de estar por detrás daquilo. É a forma imediata e simples de enquadrar o acontecimento no terreno circunscrito da politiquice, quer porque não se concebe a intervenção social de outra forma, quer porque se lhe pretende dar outro significado, levá-lo para o campo político-partidário, desvalorizá-lo ou instrumentalizá-lo.

Isto a respeito do que o blog A-sul tem dito acerca da manifestação na zona pedonal automobilizada de Almada (ALMADA PEDONAL E O RADICALISMO AMBIENTAL, ALMADA PEDONAL, ZONA PEDONAL, DECRETAR, PEDONALIZAR, PROTESTAR!, OS CARACÓIS DA VERDE EUFÉMIA), que não tem sido pouco, e quase sempre da pior maneira. Este auto-denominado “grupo de cidadãos com preocupações ambientais” mostra-se mais preocupado em partidarizar o protesto contra a Câmara da CDU do que em debater propriamente o assunto, e até, porque não, unir esforços por uma causa que supostamente deveria ter muito de comum.

Talvez seja porque a visão ambiental que defende é bastante estreita ao não considerar a responsabilidade individual de quem usa indevidamente a zona pedonal, preferindo circunscrever o problema à má política camarária – que, diga-se de passagem, também é uma realidade, coisa que um protesto daquela natureza traz obrigatoriamente implícito – mas o tom agastado, virulento e ofensivo dos posts levam a crer que não será essa a razão e terá mais a ver com a costumeria chicana política.

«não alinhamos em extremismos que roçam , como já referimos, uma Razão paternalista que identificamos como fascizóide»

«não alinhamos nos bodes espiatórios encontrados por alguns iluminados, nem nos métodos de verdadeira guerra cívil adoptados»

«é conhecida a nossa posição contra este tipo de acção de puro terrorismo dito “ambiental”»

E por aí adiante…

A cereja em cima do bolo é a associação que o A-sul quer fazer entre os manifestantes da zona pedonal com o Movimento Verde Eufémia, talvez apelando às associações que foram feitas na altura com o BE, que, tal como agora, não passavam de manipulações e diversões para elidir o protesto em si.

Uma última nota para fazer reparar que para o A-sul a polícia não atacou à bastonada manifestantes pacíficos, pessoas com crianças ao colo e idosas pelo meio, não mandou 3 para o hospital e deteve 2, não apagou ilegalmente fotografias das câmaras dos presentes e não abordou as pessoas como capangas irracionais

“dei-te uma e volto-te a dar, filho da puta”

“se eu não estivesse fardado já te tinha fodido todo”

Para o A-sul, a polícia “repôs a ordem”. E assim, seguindo o raciocínio de Foucault, se assiste à circunstância de ser a política a prolongação da guerra (bastonada) por outros meios, ao contrário do que propôs Clausewitz originalmente.

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