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Crítica a L’Insurrection qui vient, a Tiqqun, ao Bloom e ao Partido Imaginário

Foto de biphop em Lyon

É uma longa crítica que Alex Gorrion faz no The Anvil Review ao ensaio L’Insurrection qui vient, ao jornal Tiqqun e ao Partido Imaginário. Longa mas com muitos pontos certeiros e muitas vezes demolidores, apesar do autor afirmar logo no início que

I want to critique The Coming Insurrection and some of the writings of Tiqqun not because I dislike these texts but on the contrary because I like them, because I find them interesting, and because they have become so popular.

Aliás, apesar de dizer que não se deterá nos pontos fortes das obras em questão por os achar evidentes e auto-explicativos, faz questão de os meter pelo meio do texto, entre críticas e argumentos. Os pontos fortes são principalmente dois: a análise da situação actual, a forma como se demonstra nos primeiros capítulos d’A Insurreição que vem que a guerra civil está por toda a parte à nossa volta; e o facto da comunicação ser feita por ressonância e não através de argumentação, que é essencial para criar motivação e empolgamento, e por consequência adesão.

Há 4 grandes pontos fracos que esta recensão encontra nesses textos e que são bem identificados com muitas citações das obras:

1. O primeiro é outra vez a comunicação por ressonância, em oposição à comunicação por apresentação de argumentos. Ou seja, por apresentarem uma descrição da realidade como evidente, confiantes que alguns leitores irão imediatamente se identificar com as suas palavras e que vão associar à sua própria experiência. O problema é que esta forma de comunicar sem argumentos só convence quem já está bastante predisposto para essas ideias. Os outros ficam de fora, o que para Alex Gorrion cria um dentro e um fora do Partido Imaginário.

Those with whom these texts resonate, which is to say, those who are predisposed to agree with them, will be inspired by the poetic language, the beautiful descriptions of their own isolated experiences, and empowered by the projection of strength, certainty, and confidence. For everyone else, the text will have no effect. Thus, the Invisible Committee’s chosen form of communication creates a strong divide between believer and gentile.

2. A juntar à ressonância eles somam um segundo problema grave de comunicação: o uso frequente de falsos truísmos. Apresentam algo como verdadeiro e de tal forma evidente que não precisa ser demonstrado mas que na realidade é falso.

For example: “this same lack of discipline figures so prominently among the recognized military virtues of resistance fighters.” [TCI, p.111]. Actually, one finds in the biographies of many if not most resistance fighters a strict personal and group discipline, which only some do not share. But the Invisible Committee simply does not engage with facts on this factual level. And the resonance-blinded reader will be predisposed to breeze through these errors.

3. Em terceiro está o elemento da totalização. Alex Gorrion argumenta que o Comité Invisível, tal como o seu predecessor Situacionista, propõe uma teoria da totalidade, uma teoria pela qual compreender a totalidade da dominação, da luta, da identidade, da existência. A sua teoria é sonante, interessante e inspiradora, mas seria reducionista aceitá-la como a única com validade. E no entanto é o que eles fazem, confundindo o dedo com a lua como o tolo na parábola zen.

4. Um quarto ponto fraco nos textos do Partido Imaginário é a não falsificabilidade. Este é um termo usado em ciência para garantir que determinada teoria é científica. Uma teoria falsificável é aquela que faz previsões sobre um fenómeno, esse fenómeno pode ser testado e no caso dos resultados serem negativos a teoria poder ser abandonada. Ora, eles vão além da linguagem poética, inspiradora, ou de descrições úteis da realidade e entram no campo da causalidade científica e propõem acções (semi)concretas. O problema é que essas incursões teóricas não são falsificáveis, isto é, testáveis contra a experiência, pelo que terão que ser aceites como tais, sem análise crítica.

Como disse, a recensão é muito longa e ataca muitos elementos da teoria exposta nestes textos, do método da sabotagem até à opção pela invisibilidade. Não vou fazer a exposição completa da crítica mas deixo aqui alguns momentos muito bem conseguidos para quem não quiser ler o texto todo:

We simply have to ask ourselves: what if the insurrection doesn’t come? What if we’re just getting jerked around, and capitalism finds a way out, secures itself a future existence, as it has every time so far? Will our participation in this civil war, the morale we need to be insurgents, be staked on the “fact” that the catastrophe is here? The communists drowned themselves in a hundred year defeat by gambling that capitalism contained a contradiction it could not overcome. Is the grand carousel of history, well past the point of tragedy, looking to serve up a little farce?

They’ve beefed up the importance of sabotage and the economic blockade, and they’ve thrown in a partially original call for invisibility.
They fail to answer or even ask what in my mind is the most important question regarding the defeat of this strategy: how to build the communes and the material basis for self-sufficiency—thus creating something to lose—while continuing to act like you have nothing to lose, which is to say, without falling into a defensive posture that facilitates recuperation or at the very least stagnation, seeking some uneasy truce with the dominant order.

For the Invisible Committee, in the insurrection they prophesy, the real one, their insurrection, we are all “whatever singularities,” without predicates, an emptiness brimming with possibilities. It’s a beautiful dream, and I, for one, believe in fighting for dreams. But there is a certain ownership they exercise over their insurrection, a certain power of exclusion the Invisible Committee have vis a vis the Imaginary Party, that could make this dream nothing more than a maneuver identical to the one by which the communists suppressed difference by demanding adherence to the unified identity of the Working Class. There are no women, there are no blacks, there are only members of the Imaginary Party.

Through their Bloom theory, the Invisible Committee make another of the same mistakes as Marx. Dialectical reasoning and their implicit assumption of a unilineal history make them look to the populations most advanced in capitalist development as the site of future revolutions. Scientific Marx predicted Britain and Germany, unscientific Bakunin predicted Russia, Italy, and Spain. Enough said.