Pôr o dedo na ferida

«Todas estas possibilidades, em aberto, para nossa intervenção, estão condicionadas pela capacidade de nos articularmos e associarmos, já que só movimentos sociais organizados têm condições para transformar qualquer situação social. Nossa fragilidade organizativa: incapacidade de associação e coordenação em cada região e mais ainda internacionalmente, são por demais evidentes para não serem vistas como um dos problemas chaves do que genericamente chamamos de movimento libertário. Não se solucionando isto, será impossível qualquer ativismo profícuo, qualquer resultado duradouro para a nossa militância ou a transmissão de uma cultura libertária entre gerações. Por essa razão podemos afirmar que, de forma imediata, teremos de encarar a questão da associação, articulação e coordenação de nossas práticas. O que passa também pela clarificação do papel da organização libertária, que é, antes do mais, o de criação de um espaço coletivo, livre e fraterno, onde se forjem novas relações sociais e se viva de acordo com os valores da cultura libertária, como aconteceu no passado quando “os trabalhadores e os pobres não estavam nem de longe tão isolados e nem submetidos ao monopólio ideológico da mídia dos negócios.” Foi por isso que a esperança e a utopia se reproduziam nesses espaços libertados onde viviam os excluídos. É esta uma das funções que temos de recuperar para as associações libertárias, ao mesmo tempo que se assumam como um núcleo de difusão das idéias anarquistas e de articulação da luta de resistência anti-capitalista.
As formas concretas de associação podem ser diversas, das organizações anarco-sindicalistas, às federações de grupos de afinidade, das redes de informação, às associações de ateneus e centros de cultura. O fundamental é federalizar e coletivizar práticas e experiências isoladas, ampliando assim as possibilidades de intervenção social. A ruptura com o isolamento e o individualismo do cidadão-consumidor-espectador – papel que o Sistema nos quer impor – é o passo mais decisivo no caminho da reconstrução do espaço coletivo da alternativa social.
Só através de um associativismo libertário que respeite a autonomia, singularidade e diferença entre cada indivíduo ou grupo, mas que seja capaz de potencializar, acima de tudo, o que temos em comum, fundamento de qualquer relação de afinidade, solidariedade e apoio mútuo, poderemos criar uma dinâmica nova no movimento e concretizarmos de imediato as formas organizacionais que propomos para a sociedade.
Este é o modelo reconhecido por qualquer anarquista, mas que tantas vezes negamos ao adotar posturas dogmáticas e arrogantes, confrontos personalizados, criticismos inconseqüentes, resultantes do descomprometimento com a ética anarquista. Essa ética que nos leva a exigir uma adequação dos meios aos fins um ponto importante da nossa crítica ao socialismo autoritário deve assumir um papel central na militância libertária, condicionando imperativamente nossa prática social. Uma realidade em que estão presentes tensões permanentes, resultantes das pressões do meio social, da introjeção dos valores dominantes e das limitações pessoais, mas que será sempre o critério determinante para a avaliação da coerência de cada um de nós. A ética anarquista e os valores libertários tornam-se, assim, pontos da ruptura radical com as ideologias autoritárias, constituindo a mais profunda clivagem com o socialismo autoritário. A rebeldia, a transformação social só podem ser um produto da vontade livre de sujeitos autodeterminados e solidários vivendo dentro de uma dada realidade histórica e social. Jamais produto das condições materiais de produção. Essas sempre potenciarão a maximização da alienação e da sujeição.»

Excerto de O Anarquismo Hoje, de António Sousa

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