O capitalismo não cairá por estar podre

Os fazedores de opinião progressistas e de esquerda têm contribuído para criar uma ideia de crise que não existe, já que o grande capital está de boa saúde e a aumentar os lucros. A insistência de que o capitalismo encerra em si contradições que o fará entrar em crise e colapsar tem sido uma constante e é um grave erro estratégico da parte das forças opositoras ao capitalismo, que se repete na actual conjuntura. A crise é uma crise da classe trabalhadora e das pequenas e médias empresas e tem sido alimentada pela ganância das grandes empresas, com a ajuda dos Estados e a cumplicidade dos patrões dos sindicatos. Com a percepção pública da existência da crise, corroborada pelos fazedores de opinião progressistas crentes nas contradições internas do capitalismo que o derrotarão, cria-se a receptividade às medidas de austeridade e recuo dos direitos e desmobiliza-se a contestação social.

A ler no Voltaire Net o artigo de James Petras que sustenta estas teses: Que crise económica? Os lucros aumentam!

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Comentários

  • Niet  On Domingo, 24 Outubro 2010 at 8:17 pm

    Meu caro Mescalero: Cuidado com o Voltaire Net, que não tem nada de libertário e persegue mesmo os grandes arautos dessa iconoclasta tendência política. A propósito de Castoriais, da sua vida clara e transparente,o V. Net. levantou publicamente as maiores atoardas e falsificações fazendo, no mínimo, o jogo dos revisionistas marxistas-leninistas mais ortodoxos e psicopatas. Niet

  • m  On Domingo, 24 Outubro 2010 at 10:22 pm

    Caro Niet, numa pesquisa no google descobri algumas coisas menos agradáveis da Rede Voltaire. É pena.
    Obrigado pela chamada de atenção.

  • Velha Toupeira  On Segunda-feira, 25 Outubro 2010 at 11:51 pm

    O Niet tem muita razão. Não conheço esse caso sobre o Castoriadis, mas existem muitos outros exemplos. O dono daquilo é um conhecido conspiracionista que escreveu a Terrível Impostura sobre o 11 de Setembro. Já li o livro há muito tempo e nessa época era mais dado a aceitar teses incríveis desde que parecessem atacar a versão oficial. Não conhecia ainda o quanto esse tipo de teses são delirantes e geralmente emitidas pela extrema-direita, nomeadamente a anti-semita, caso paradigmático do conspiracionismo delirante com pretensões anti-elite ou mesmo por vezes anti-capitalistas. Recentemente vi um artigo lá publicado em que se aceitava a versão dos factos oficial do regime iraniano sobre o caso Sakineh. No artigo, o informador no terreno é um cómico francês anti-semita, dirigente do partido anti-sionista.
    A visão do capitalismo desse Petras encaixa-se nesse padrão conspiracionista: uma tramóia urdida pelas elites nas costas do povo. Não podia faltar o ataque aos banqueiros, como se a hegemonia crescente do capital financeiro não fosse uma consequência necessária do capitalismo e como se houvesse um capitalismo decente, menos usurário. Esse é um tema também presente num certo anti-capitalismo da extrema-direita e no duma esquerda reformista. Todo o conspiracionismo ignora características estruturais do capitalismo e contrapõe-lhe tramóias das elites. Esta visão que de si já é uma réplica do delírio anti-semita, ao convergir com o anti-imperialismo anti-sionista (já levam de comum o nacionalismo e o ódio ao elemento cosmopolita da banca) dificilmente conseguem não resvalar no anti-semitismo. Wall Street, Sionismo, na boca dessa gente quer dizer judeus. Há sem dúvida nenhuma um meio proveniente do estalinismo que exalta o nacionalismo anti-imperialista do inimigo da hora dos estados unidos, um anti-sionismo prevertido e um anti-capitalismo que nada tem a ver com a luta de classes.
    As políticas seguidas pelo estado resultam duma crise real. Basta ver que põem em causa um certo pacto social. Não se correria esse risco se não houvesse necessidade de espremer até ao tutano os trabalhadores mesmo nos centros avançados do capitalismo. Essa necessidade é a crise, a dificuldade cada vez maior de valorizar o capital. Depois da tentativa mal fadada à partida de a contornar pela via da especulação financeira, surge a necessidade imperativa dentro do capitalismo de espremer quem cria o valor e de cortar nas despesas que asseguram uma certa tranquilidade social na reprodução do processo de exploração. O capitalismo não vai colapsar, nenhum revolucionário pode esperar que um novo mundo venha ter connosco apenas porque o velho estertora, até porque esse estertor pode ser não só uma descida à barbárie como a própria aniquilação de todo o futuro. Não nos interessa se o capitalismo está em crise, no sentido de não poder responder às nossas exigências, porque a satisfação das nossas exigências pressupõem o fim dele e delas não temos que abdicar. Toda a problemática do Petras parece advir de ele achar que toda a nossa “política” ter que se dar dentro dos limites do capitalismo. Que teríamos que ficar paralisados se a crise fosse real ( e é) já que o capitalismo não poderia satisfazer as nossas exigências ( e não pode). Por isso mesmo não podemos seguir as tretas da esquerda que pensa poder ressuscitar o keynesianismo. Ele não pode ser ressuscitado. A nossa luta é que tem que ir além dele e de todas as soluções para dar saúde ao capitalismo. Mas o problema é que há também a crise do proletariado. A sua fragmentação, a sua desorientação ideológica. Nas é pela sua unificação como classe na luta e pela clarificação teórica que temos que começar. Em França já se ouve respirar…

  • Velha Toupeira  On Terça-feira, 26 Outubro 2010 at 12:31 am

    É interessante ler a entrevista ao Jorge Valadas no Alambique #3. Devo dizer que o resto da revista não me interessa e por isso decidi postar no meu blog apenas essa parte. Nela pode ler-se como o desenvolvimento da crise vai obrigar ao abandono de ilusões, mesmo por parte dos anti-capitalistas. Aliás, o Jorge Valadas escreveu uns artigos na Ideia, há muitos anos, em que repetia as teses do Paul Mattick que já previam a bancarrota do regime de acumulação fordista, o estado de bem estar, a sociedade de consumo, a suposta integração do proletariado no capitalismo. Publiquei recentemente no meu blog um texto dele em que precisamente critica essas teses do Marcuse e explica a sua teoria da crise no capitalismo. Se por um lado soa tão actual essa entrevista do ano passado, quando se refere à tradição francesa de protesto, por exemplo, soa completamente bizarro o elogio à pobreza que se faz noutro artigo da mesma revista. Faz-me lembrar as teses do João Bernardo no Inimigo Oculto (o ecologismo) de que também publiquei um excerto, quando associa a defesa duma austeridade por razões ecológicas com a necessidade do capitalismo de a promover.

  • m  On Terça-feira, 26 Outubro 2010 at 5:44 pm

    Velha Toupeira,

    Antes de mais tenho de dizer que é com gosto que vejo estes comentários. Foram muito produtivas para mim as nossas anteriores trocas de impressões. Desconhecia esse lado do Voltaire Net que via como uma rede internacional de opinião de esquerda, com a enorme vantagem de ter traduções em português.

    Estou de acordo quanto ao conspiracionismo, sobre o qual sempre tive bastantes desconfianças, tentando manter um distanciamento crítico. Mas não creio que seja o que se passa neste texto do Petras. A teoria dele não é a de um esquema obscuro tramado nas costas das pessoas porque as suas fontes são jornais mainstream, com várias referências ao Financial Times. Não se pode esconder uma realidade expondo-a às claras em jornais desse tipo. O ponto que ele quer levantar é que há um erro de análise e de estratégia da parte dos comentadores de esquerda quando abordam a questão da crise pelo lado teórico, na esperança de verem provadas as suas previsões de que as contradições inerentes ao capitalismo acabarão por derrotá-lo. E tenta argumentar com a distinção entre o grande capital que está de boa saúde e recomenda-se, e as pequenas e médias empresas e a classe trabalhadora, estes sim em crise e a verem as suas condições a piorarem por acção directa dos governos e das grandes empresas.

    Por outro lado não li nada no artigo que apontasse para que a solução para a crise estivesse num capitalismo keynesiano.

    Interessou-me este artigo porque coloca o problema da crise claramente no campo da exploração e recusa liminarmente a análise de que se tratam de problemas económicos conjunturais, ou de contradições internas do capitalismo.

    abç

  • Anónimo  On Terça-feira, 26 Outubro 2010 at 8:21 pm

    Os teóricos que referem a existência necessária de crises no capitalismo não necessariamente argumentam que elas levam ao colapso e menos ainda que esse colapso corresponderia a uma transformação revolucionária. A questão é que a crise é uma crise global de produção de lucros em quantidade suficiente, o que é precisamente situá-la no terreno da exploração. É essa crise o que motiva políticas que tentam superar essa dificuldade aumentando precisamente a exploração pela via mais bruta, a diminuição dos salários e do salário social (as chamadas regalias relacionadas com a saúde, educação, etc). Estou longe de dominar este assunto, mas numa situação de crise acontece que os capitais mais fracos se afundam e os que ficam se reforçam.O pequeno capital sai mal por uma questão de concorrência e não por razões políticas. Talvez mais importante que citar os lucros em termos absolutos de umas quantas companhias fosse referir-se ao estado da economia como um todo e saber se os lucros obtidos globalmente são suficientes para relançar o ciclo de acumulação de modo satisfatório. Ora ele fala em ganância, como se não fosse uma necessidade para capitais em concorrência terem que ter esse comportamento. E dá a entender que o estado de repente passa a ceder a esse comportamento anomalamente ganancioso e põe em risco uma certa estabilidade social provocando revoltas e protestos com consequências imprevisíveis, nomeadamente, para satisfazer a ganância de uns quantos coloca em risco a reprodução do sistema como um todo. E não só num país mas em todos. Substitui completamente uma análise dos mecanismos estruturais da economia e mesmo da política e opõe-lhe uma tramóia. Pode supostamente não estar tão oculta assim mas ele sempre pode invocar a manipulação e o monopólio da informação. Afinal quem mais está de acordo com ele que não existe uma crise? O que não quer dizer obviamente que tenhamos que ceder aos imperativos da economia. Por isso é que eu falei em ele querer ressuscitar algum tipo de capitalismo menos ganacioso e predador. Porque se não tivermos que nos limitar ao horizonte do capitalismo não há razão nenhuma para estabelecer a equivalência crise e aceitação da austeridade.
    Infelizmente não dominando este assunto não posso argumentar muito mais nesta direcção e também não posso sugerir nenhum texto onde esta perspectiva esteja argumentada particularmente contra a pretensão do Petras.
    Mas vejamos:
    “O diagnóstico falhado das crises capitalistas feito pela esquerda e pelos progressistas tem sido um problema omnipresente desde o fim da II Guerra Mundial, quando nos foi dito que o capitalismo estava ’em estagnação’ e se dirigia para um colapso final. ”
    Não sei exactamente o que ele entende por esquerda e por progressistas mas depois da 2º guerra mundial o capitalismo estava em expansão e apenas contra a corrente tipo como o Paul Mattick argumentavam que o keynesianismo iria soçobrar, tal como aconteceu. É a mesma análise que mostra o porquê do capital a partir de uma certa altura se desviar para a especulação, e é essa análise também que mostra porque o capital tem que se mostrar tão ganancioso ao ponto de se reestruturar de modo a ser mais competitivo. A explicação dele pelo contrário explica tudo pela ganância e pela ajuda dos políticos da casa branca. Explicação que não é explicação nenhuma. Donde vem a ganância e porque haveriam os políticos do momento de alinhar nisso? A explicação marxista explica isso. O Petras pelo contrário dá isso como uma ocorrência contingente (resultado de um arranjo?) e que explicaria pelo contrário tudo o resto.
    Para pessoas como o Mattick, a existência de crises não é nenhuma desculpa para justificar medidas de austeridade mas pelo contrário, mostram o carácter muito pouco eterno e estável do capitalismo, momentos críticos na sua reprodução e a possibilidade de eles nos arrastar para o abismo se não o paramos. Mas concebe a transformação revolucionária como a acção consciente de uma classe em luta.

  • Velha Toupeira  On Terça-feira, 26 Outubro 2010 at 9:14 pm

    O comentário anterior é meu. Devo dizer que li por alto o artigo do Petras. Relendo não vejo que ele negue a existência de crises, embora por vezes pareça confundir crise com colapso, ou atribui essa confusão aos tais progressistas. Por exemplo, “O que o atual impacto desigual e injusto do sistema capitalista nos diz é que o capitalismo consegue ultrapassar as crises aumentando apenas a exploração e anulando décadas de “ganhos sociais”.” Ora isto não é negar a existência de crises.

  • Semeador de Favas  On Quarta-feira, 27 Outubro 2010 at 1:43 am

    Para já, não queria acrescentar nada à discussão, muito interessante, que levantaste com este post, Mescalero.
    Vou apenas deixar uma sugestão, caso não a conheças já, que vai ao encontro de alguns dos pontos levantados nos comentários de Velha Toupeira, e que poderá ajudar-te a iluminar criticamente as análises do Petras. Um abraço.

    http://obeco.planetaclix.pt/mctp.htm

  • m  On Quinta-feira, 28 Outubro 2010 at 2:50 pm

    Semeador, terei que ler mais tarde o texto que recomendas. Para já fica um abraço.

  • m  On Quinta-feira, 28 Outubro 2010 at 3:03 pm

    Velha Toupeira, as questões em debate precisam de ser aprofundadas e amadurecidas pela parte que me toca. Voltaremos a elas concerteza. Abraço

  • Velha Toupeira  On Segunda-feira, 15 Novembro 2010 at 4:16 pm

    Acabei de ver que a Antígona publicou o livro do Mattick, Marx e Keynes, os limites da economia mista.

    http://www.antigona.pt/catalogo/marx-keynes-208/

    Existe online noutras línguas:
    original em inglês: http://www.kavoshgar.org/book/MK/Marx%20&%20Keynes.pdf
    em espanhol:
    http://bit.ly/9DTG1s

  • m  On Segunda-feira, 15 Novembro 2010 at 4:53 pm

    Obrigado pela informação.

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