Sociedades Pacíficas

Cerca de 18,500 Semai vivem na floresta densa das montanhas centrais da península da Malásia. Os Semai subsistem do cultivo da mandioca e do arroz, da pesca, da caça, e do comércio de alguns produtos florestais. São um povo considerado atrasado e primitivo pelos padrões do mundo moderno industrializado, e no entanto num aspecto fundamental da sua sociedade estão muito à nossa frente: têm uma forte imagem não-violenta de si próprios, proclamam-se como sendo um povo não-violento, que não entra em guerras, que repudia a raiva e a agressividade entre os seus membros, que quase nunca bate nas suas crianças. São uma sociedade pacífica.

Existem actualmente 25 povos que são considerados mais ou menos consensualmente pelos cientistas sociais como sendo sociedades pacíficas, uma lista em que entram apenas as sociedades que a maior parte do tempo têm muito pouca violência interna e se envolvem muito pouco em guerras externas. Com o aviso de que não são utopias e que partilham muitos problemas com o resto dos povos humanos. No entanto, a forma como estas sociedades desenvolveram estruturas sociais, psicológicas, éticas e religiosas que fomentam a paz, deveria inspirar e desafiar qualquer um empenhado no processo de construção da paz. Incluindo sociedades que são agora pacíficas mas foram no passado conhecidas pela sua violência (por ex. os Waorani do Equador), o que significa que a determinada altura mudaram o seu percurso e conseguiram instituir com sucesso outros valores e outras formas de os alcançar.

As diversas tribos índias que vivem ao largo do rio Xingu, no Brasil, apesar de não falarem a mesma língua, construíram uma série de mecanismos que os impedem de entrar em guerra umas com as outras. Um deles consiste na especialização de cada tribo na produção de bens que depois são trocados com as outras tribos. Os Waurá, por exemplo, são os únicos oleiros, uma competência que as outras tribos valorizam e respeitam.

Segundo o antropólogo Douglas P. Fry, temos três elementos principais que fazem parte do que ele chama de Sistemas de Paz como o dos xinguanos:

  1. a interdependência económica que ajuda a criar relações não guerreiras entre os povos;
  2. laços pessoais apertados que ajudam as pessoas a criar um sentimento de interconexão (por exemplo, casamentos entre comunidades);
  3. mecanismos para resolver conflitos de forma pacífica.

Os dois primeiros pontos são estratégias de relacionamento com o exterior, de forma a evitar a violência externa que é a guerra. Uma outra estratégia – que não deixa de ser um mecanismo social para resolver conflitos de forma pacífica – é o óbvio mas bastante depreciado nas nossas sociedades… fugir. Muitos destes povos simplesmente fogem quando são atacados, evitando assim o conflito. Chegam a ter horror ao acto de violência. O antropólogo Kirk Endicott (1988) questionou a certa altura um homem Batek (uma outra tribo pacífica de outra região da Malásia) porque é que, aquando dos raides dos esclavagistas malaios que duraram até ao início do século XX, eles não ripostavam contra os atacantes. A resposta dada em choque foi “porque isso os mataria”.

Um outro factor importante no dificultar do aparecimento de conflitos externos é o isolamento, que protege os povos não-violentos dos menos preocupados com essas questões. Por exemplo, os !Kung-San dos desertos do sul do continente africano tendem a ficar mais violentos quando se vêm obrigados a interagir com os seus vizinhos agricultores. São influenciados e absorvem as características das sociedades dominantes, como não poderia deixar de ser.

Do ponto de vista interno ao grupo, temos logo à partida como fomentadores da paz, os próprios sistemas sócio-culturais, ou seja, conjunto de crenças, convicções, mundividências que beneficiam a paz, que são seleccionados e construídos tendo em vista a prossecução desse fim. Muitas sociedades pacíficas têm modelos sociais para lidar com a violência, que podem envolver reprovação pública ou sanções como o ostracismo do elemento que foi agressivo, que pode ser temporário ou ir até à expulsão definitiva da comunidade.

As discussões públicas para as partes defenderem os seus argumentos são outra das formas habituais de resolução de conflitos. E quando não é possível encontrar uma solução, uma das partes pode abandonar a disputa para deixar os sentimentos de raiva desaparecerem. Ou se o caso for mais grave o grupo pode cindir-se em dois. Esta prática da separação quando não se encontram soluções para as disputas é dos recursos mais utilizados pelas sociedades pacíficas.

Existem também conselhos dos elementos mais velhos e mais sábios que procuram chegar a uma solução com as partes. Estes homens não são considerados líderes, pois a figura do líder não é muito comum. Existem por vezes, mas são habitualmente pessoas consideradas pelos outros como pessoas sábias e de bem e não deixam de estar subordinados à comunidade. Têm de ser persuasivos e geralmente não detêm autoridade efectiva.

A educação das crianças é considerada muito importante. A inexistência de jogos competitivos e violentos, é uma das características que mais entra em choque com a cultura ocidental. Quando a competitividade é incentivada, é feito dentro de grupos e não individualmente; são comunidades pró-sociais, é um dos seus traços mais distintivos. Outra característica destas sociedades é o papel não disciplinador dos adultos para com as crianças. Estes adultos seriam vistos por nós como indulgentes e permissivos. Supõe-se que as crianças imitem o comportamento dos adultos, o que acontece, e que a partir de certa idade estarão receptivas a contribuir para o modo de vida do grupo. A excepção parecem ser as comunidades cristãs dos Amish e dos Hutterites que procuram disciplinar desde muito cedo as suas crianças e educá-las para a autoridade paterna.

Sobre as sociedades pacíficas, o antropólogo Leslie Sponsel tem vindo a defender que

«a “era da letalidade”, o período recente de poucos milhares de anos na história humana em que as pessoas têm travado guerras, corresponde ao desenvolvimento na humanidade da desigualdade social e das civilizações complexas. Há muito pouco ou nenhuma evidência de guerras anteriores ao período Neolítico – que parece ter-se originado com a organização social baseada em Estados. Sponsel admite que, evidentemente, a humanidade não pode retornar a um passado caçador-recolector, mas que muitas das mais pacíficas sociedades descritas na literatura científica pode indicar-nos, ele defende, modelos heurísticos de uma sociedade sem assassinatos.»

A existência destas culturas pró-sociais é um facto. Concorde-se ou não com as estratégias usadas, e apesar dos muitos problemas que elas apresentam, a constatação da sua existência não permite que reste muito do edifício hobbesiano que apresenta a humanidade como eminentemente violenta e guerreira. Sabemos que o planeta está demasiado ocupado pelos Estados e pelos seus exércitos para que seja possível fugir ou nos separarmos deles e assim escapar à “era da letalidade”. Não é possível distanciar-nos e também não é possível o diálogo. Entre dominador e dominado o diálogo é sempre desigual e frequentemente uma farsa. Por isso, como é possível no século XXI, conjugar uma cultura de paz que abomine a guerra e a violência, com o slogan “Guerra Não, excepto a Guerra de Classes”?

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Comentários

  • miguelmadeira  On Sexta-feira, 17 Setembro 2010 at 2:26 pm

    “Quando a competitividade é incentivada, é feito dentro de grupos e não individualmente”

    Nesse apsecto não vejo grande diferença com a cultura ocidental ( e secalhar a competitividade grupal até é mais perigosa do que a individual)

  • m  On Sexta-feira, 17 Setembro 2010 at 4:29 pm

    Olá Miguel,

    Essa parte refere-se à educação e apenas a isso. Não falamos, por exemplo de desportos de equipa ou de equipas de trabalho numa empresa. Nas nossas escolas, apesar de alguns trabalhos de grupo que se vão fazendo, parece-me que a competitividade é incentivada individualmente. Em casa também. Mas concordo que a competitividade grupal não será melhor que a individual.

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