Venham mais e mais radicais formas de luta

Estiveram 300.000 pessoas na manifestação convocada pela CGTP, que seguiram o roteiro previsto para o protesto e estiveram com o seu modelo de organização e de luta. Demasiada gente e tão pouca agitação. Com um número tão elevado de manifestantes, a confederação sindical tinha obrigação de, no mínimo, já ter marcado uma greve geral, que no país vizinho está já agendada para 2 de Junho. Como organização de massas que existe para combater a exploração e os abusos de governo e patronato (dizer isto e pensar no papel da UGT e dos seus sindicalizados deixa qualquer um perplexo), já devia ter feito mais e mais cedo, dado que as medidas de austeridade vão já em estado avançado de aceitação social. O Carvalho da Silva bem pode prometer “todas as formas de luta”, mas o roteiro está traçado e não contempla a confrontação necessária para os tempos que vivemos.

A presença na manifestação por parte de sectores mais radicais foi, infelizmente, mais uma vez sem relevância. Precisamos desesperadamente de mudar o rumo a esta situação. Aumentar os nossos números, confluir numa estratégia a utilizar, aparecer com vitalidade e uma mensagem clara de forma a conseguirmos influenciar numa direcção libertária as lutas sociais. Neste momento estamos relegados para uma marginalidade em que só existimos como “extremistas” e rapazolas violentos, o que na amálgama de aparências e ilusões em que foi transformado o real pela super-máquina de propaganda/publicidade/entretenimento dos meios de comunicação de massas, significa que de facto não temos outra existência para além dessa. Geralmente a verdade sobre os “extremistas” acaba por aparecer, aqui no Indymedia ou aqui no jornal Sol, e ficamos a saber quem provocou quem, quem atacou quem e com que proporcionalidade, mas não chega para alterar a impressão que fica.

Advertisements
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentários

  • Semeador de Favas  On Segunda-feira, 31 Maio 2010 at 10:13 am

    Caro Mescalero,
    A julgar pelo que vi com os meus dois olhos que a terra há-de comer e pelo que ouvi com os meus dois ouvidos que música demasiado alta há-de ensurdeçer, os sectores mais radicais precisam urgentemente – e é com grande tristeza que o digo – de uma terapia de choque que lhes pulveriza as tentações sectárias e redefina as prioridades. E esta crítica estendo-a a todas as tendências da “esquerda radical” e da “esquerda reformista”.
    Acho que o actual momento merece que ponhamos de lado as nossas divergências teóricas e nos concentremos naquilo em que podermos encontrar motivos para uma unidade na acção. No fundo é isto: estamos contra os exploradores e queremos apoiar e dar força aos explorados; ou queremos utilizar as manifestações de trabalhadores para acções de propaganda e demonstrações de força e orgulho?
    Neste momento há milhares e milhares de pessoas a passar pelas passas do algarve à conta dos crescentes desvarios terroristas do Capitalismo – que se estão pouco nas tintas para receitas. É preciso é que se vá fazendo o bolo.
    “Mais e mais radicais formas de luta”, pois sim, mas com cada um para o seu lado e para o seu umbigo, não lá vamos.

  • Marreta  On Segunda-feira, 31 Maio 2010 at 4:29 pm

    O diagnóstico está feito, mas é preciso redefinir formas de luta e organização, principalmente esta última parece-me estar completamente desajustada dos tempos, isto é, se existe mesmo.
    Estive na Avenida e vi in-loco ao que esteve confinada a “esquerda desalinhada” e os grupos alternativos, mal apelidados de extremistas, que foram até impedidos de “entrar” na Manif.
    Sem organização e “convergência” na divergência nada se irá alterar.

    Saudações do Marreta.

  • mescalero  On Segunda-feira, 31 Maio 2010 at 5:16 pm

    Caro Semeador,

    Não é questão de se tratar de uma demonstração de força ou de orgulho, embora perceba onde queiras chegar. E qual é a alternativa? Diluir por completo a já de si quase invisível existência libertária nas forças da esquerda partidária e sindical? E é só nas manifestações ou também noutras formas de luta que devemos abdicar das nossas opiniões críticas em favor da unidade?
    Por outro lado, a situação é sempre má, desse ponto de vista há sempre razões para invocar a necessidade de uma luta mais forte e mais unida. Neste momento, os capitalistas prometem-nos ainda pior para os anos que vêm com toda a lata do mundo. Falam em 2013 e mais à frente. Não podemos ficar indefinidamente à espera de melhores tempos. Esse não pode ser um argumento em favor dessa estratégia.
    Acho que nem se pode colocar a questão como um problema de unidade ou sectarismo, porque há uma desproporcionalidade de forças muito grande entre os sectores radicais e os partidos de esquerda e a CGTP. A unidade com essas forças seria sempre a unidade nos seus termos, o que não é uma unidade real.
    No fundo, estou a argumentar para te tentar mostrar que não sei como é possível essa unidade nem sequer se ela é desejável.

    Caro Marreta,

    Se falarmos em convergência da divergência já me faz mais sentido. Há muito a fazer nesta matéria mas ninguém parece saber por onde começar.

    abraço a ambos

  • Semeador de Favas  On Segunda-feira, 31 Maio 2010 at 6:55 pm

    Mescalero, compreendo as tuas reticências quanto ao que escrevi; acho que são tão legítimas que merecem que eu me explique melhor.
    Vê bem, não defendo de modo algum a diluição do frágil movimento libertário na esquerda partidária ou sindical, apenas que -quando os libertários se organizam para reforçar a frente de protesto -onde a esquerda naturalmente se encontra- devem levar essa acção às suas consequências, isto é, fazer todos os possíveis para efectivar a sua presença.
    Pensemos no caso da ultima manifestação convocada pela CGTP. Se a vontade de convergir com a luta dos trabalhadores era honesta -e acredito que o fosse -porque não fazer algo de tão simples quanto contactar a organização avisando-a da vontade de participar e partilhar (com as nossas faixas, bandeiras e palavras de (des)ordem) a rua? Seria isto uma cedência mortal e inaceitável? Se a proposta fosse recusada, aí sim, julgo que uma atitude fracturante fosse necessária, ou até inevitável.
    Quanto ao teu reparo- “Por outro lado, a situação é sempre má, desse ponto de vista há sempre razões para invocar a necessidade de uma luta mais forte e mais unida” – tem toda a pertinência. Quanto a isso apenas posso responder que está nas mãos dos libertários organizarem as suas próprias acções e levarem a sua luta avante, radicalizando-a segundo os seus próprios critérios.
    Agora, julgo ser completamente irrealista pensar que de um momento para o outro se pode conseguir -com um salto de tigre que todos desejamos- alterar hábitos e comportamentos enraizados -por razões históricas que não vale a pena agora enumerar- na esmagadora maioria dos trabalhadores organizados em, e por, sindicatos como a CGTP. Não nos serve de nada escamotear a realidade e as condições que temos.
    Como tão bem dizes, “convergência da divergência”. Ora aí está um bom ponto de partida.
    Um grande abraço.

  • mescalero  On Segunda-feira, 31 Maio 2010 at 11:30 pm

    Semeador,

    O que dizes sobre o aviso de participação na manif faz sentido.
    Sobre o ser irrealista hoje em dia ter uma oposição forte na região portuguesa, um movimento de base verdadeiramente antagonista e disposto a assustar o capital (esta manifestação não o fez mesmo com 300.000 pessoas), já não sei se terei a mesma opinião. O próprio agravamento das condições de vida pode obrigar a isso. Vamos ver.

    grande abraço

  • Marreta  On Quarta-feira, 2 Junho 2010 at 12:09 pm

    Que tal criar um Partido e concorrer às eleições?!
    Sei que é um contra-senso, mas analisando as vantagesn do mediatismo que se poderia usufruir talvez até nem fosse tão descabido. Evidentemente que os propósitos não seriam eleger deputados ou fazer parte do sistema político vigente, mas apenas passar a mensagem, os propósitos e as ideias anarquistas através dos media. Seria um pouco subverter o sistema eleitoral político/eleitoral.
    Parece-me inclusive, que até existe por aí um partido operário-anarquista, ou coisa que o valha.
    Continuo a pensar que o grande obstáculo que se coloca ao movimento anarquista é a passagem da mensagem e conseguir chegar a mais cidadãos e explicar no que consistem na realidade os seus ideais, desfazendo o “mito” de anarquistas são só arruaceiros, terroristas, marginais, drogados, selvagens e outros predicados tais. Sem acesso a informação/divulgação, o cidadão dificilmente reconhecerá qualidades e méritos.

    Saudações do Marreta.

  • mescalero  On Quarta-feira, 2 Junho 2010 at 3:00 pm

    Há vários problemas que fazem com que não valha a pena criar um partido e concorrer a eleições. O principal é o que já referiste de logo à partida ser um contra-senso, mas há outros. Perdemos um argumento dos mais fortes que temos actualmente, que é o de ser perfeitamente claro e definitivo que não queremos poleiro. Somos os únicos que podemos garantir às pessoas que não faríamos como os outros, nenhum deles.
    Depois há o facto de como partido candidato recebermos dinheiro do Estado para a campanha. Financiamentos desses geram uma série de problemas.
    O que poderíamos ganhar com uma campanha eleitoral também não é claro. Os pequenos partidos desunham-se por fazer ouvir a sua voz e o resultado é sempre mais ou menos o mesmo em termos de resultado eleitoral.
    Podiam também acontecer situações caricatas como ver um anarquista e um PNR sentados à mesma mesa num debate. Seríamos obrigados a usar canais e formatos de comunicação que não são os nossos, aos quais não estamos habituados, a responder a perguntas que não fazem sentido do ponto de vista libertário e a ter que lhes responder em 30 segundos. A ver as nossas ideias serem manipuladas e distorcidas pelos jornalistas.
    Na prática não se arranjaria sequer gente suficiente para participar numa coisa dessas.
    Já se fizeram campanhas eleitorais mas com o sentido de perverter o processo.
    http://anti-politics.ws/

    Por estas razões não sou favorável a uma campanha eleitoral. Acho que há outras formas melhores, como investir na organização específica anarquista, na divulgação e propaganda que está actualmente muito próxima do zero, em avançar com pequenos mas funcionais projectos à margem do capitalismo.

    abraço

  • Marreta  On Quarta-feira, 2 Junho 2010 at 4:23 pm

    Sendo assim, só vejo uma única hipótese: a auto-exclusão e a criação de comunidades o mais aproximadas possível a um modelo libertário. Neste pequeno rectângulo já existiram, existem, algumas que retiram do “modelo” libertário muitos dos “mandamentos” e que subsistem dentro desses pressupostos, por exempolo Aivados, no Alentejo.
    Julgo que não se pode nem deve tentar “angariar” uma maioria absoluta para enveredar/pôr em prática modelos alternativos de vida, senão padecería-se do mesmo mal. Há sim que “investir” em comunidades agrárias e avançar com formas diferentes de organização comunitária/social/económica, que passam obviamente pelo cooperativismo, mutualismo e autogestão, coisas que não são, obviamente, incompatíveis com o sistema político em vigor. Por algum lado se tem que começar e quem quiser alinha, quem não quiser não se obriga.
    Aliás, acho que até existe uma certa preversidade na imposição de um modelo anarquista e que não faz parte da sua filosofia inerente. As pessoas devem e podem aderir se assim o quiserem e nunca devem ser coagidas a tal. Há que construir algo com a “matéria” humana existente que não só manifestações e protestos.

    Saudações do Marreta.

  • ferroadas  On Quarta-feira, 2 Junho 2010 at 5:02 pm

    Bom post e óptimos comentários.

    Quanto à manifestação de sábado, foi uma passeata mais ou menos fervorosa mas sem conteúdo, ou seja, o mais do mesmo. Para cúmulo nem os desalinhados do sistema deixaram entrar, estes tiveram que a fazer fora da órbita partidária vs sindical vs PCP, tendo inclusive direito a “segurança” permanente quer da polícia à paisana quer da CGTP. Aliás dá a ideia que uma centena de cabeludos vestidos com t’shirt preta e bandeiras a condizer, são, quiçá, afilhados de um qualquer Bid-Laden, tal era a concentração de polícias em seu redor. Enfim….
    Que bom seria e aqui sim a manifestação teria efeitos práticos, se os 150, 200 mil marchassem até à P. Comércio e se mantivessem lá pelo menos até domingo à noite, havendo para o efeito colóquios, debates, etc..

    Quanto ao movimento libertário, o mesmo só terá viabilidade vs visibilidade se as várias correntes trabalharem em conjunto, nunca deixando de ter a sua própria autonomia. Para tal há que recuar aos anos 20/30/40 quando o mesmo tinha forte actividade na luta anti-fascista e retirar os ensinamentos que os nossos camaradas de então nos deixaram.

    Poder-se-há organizar uma federação (os espanhóis estão a construir uma) de todos os núcleos anarquistas/libertários que queiram aderir. Se tal acontecesse poder-se-ia promover uma grande concentração de camaradas num só local anualmente, onde se discutiria formas de luta.

    Estou juntamente com vários camaradas a preparar um encontro libertário, que a seu tempo será divulgado. É (poderá ser) o início de qualquer coisa. Vamos ver.

    Abraço

  • mescalero  On Quinta-feira, 3 Junho 2010 at 12:00 pm

    Caro Marreta,

    tens razão quando dizes que não se pode obrigar ninguém a ser anarquista, mas julgo não ter percebido se pensas se isso acontece e em que situação.
    Também concordo que contestar não é suficiente, embora admita que para muitos seja a única forma possível.

    Caro Ferroadas,

    Fico na expectativa que aconteça esse encontro libertário e espero sinceramente que possa ser um ponto de viragem. Se me é permitida uma sugestão, julgo que é necessário não virar as costas aos problemas e aos erros do passado recente de forma a procurar desenvencilhar esses nós. O sectarismo, o egotismo, o esquerdismo estalinista, e a falta de cultura libertária em geral.

    abraços a ambos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: