Da anarquia ao anarquismo

«Durante dezenas de milhares de anos, os seres humanos viveram em sociedades sem qualquer instituição política formal ou autoridade constituída. Acerca de 6000 anos atrás, pela altura da chamada aurora da civilização, começaram a surgir as primeiras sociedades com estruturas formais de hierarquia, comando, controle e obediência. No início, estas sociedades hierárquicas eram relativamente raras e isoladas principalmente no que é agora a Ásia e o Médio Oriente. Lentamente elas aumentaram de tamanho e influência, usurpando, por vezes conquistando e escravizando as sociedades tribais anárquicas circundantes em que a maioria dos humanos continuava a viver. Por vezes independentemente, por vezes em resposta a pressões de fora, outras sociedades tribais também desenvolviam formas hierárquicas de organização social e política. Ainda assim, antes da era da colonização europeia, grande parte do mundo permanecia essencialmente anárquico, com pessoas em várias partes do mundo a continuar a viver sem instituições formais de governo até o século XIX. Foi apenas no século XX que o globo foi definitivamente dividido em estados nacionais em competição que passaram a reclamar soberania de praticamente todo o planeta.

A ascensão e triunfo da sociedade hierárquica está longe de ter sido pacífica. A guerra e a civilização marcharam sempre de mãos dadas, deixando para trás um rasto de destruição dificilmente concebível para as suas numerosas vítimas, muitas das quais tinham pouca ou nenhuma compreensão das forças alinhadas contra elas e o seu chamado modo de vida primitivo. Foi uma disputa tão desigual como implacável.

Inocentes do que é o governo, tendo vivido sem ele toda a sua vida durante milhares de anos, as pessoas das sociedades anárquicas não tinham a concepção de anarquia como uma forma distinta de viver a vida. Viver sem governantes era algo que eles simplesmente faziam. Consequentemente, o anarquismo, a ideia que viver sem governo é um modo de vida superior, nunca lhes teria ocorrido, faltando-lhes algo com que comparar a anarquia até ao momento em que era tarde demais.

Foi apenas quando surgiram as sociedades hierárquicas que as pessoas dentro delas começaram a conceber a anarquia como uma alternativa séria. Algumas, como os antigos filósofos taoístas na China, olharam para trás para uma idade sem governação, quando as pessoas viviam em paz consigo próprias e com o mundo. Várias seitas cristãs aguardaram com expectativa a segunda vinda, quando o amor igualitário e fraternal de Cristo e dos seus discípulos triunfariam sobre o mal. Racionalistas, como Zeno, fundador do estoicismo na Grécia antiga, e mais tarde os pensadores do Renascença e do Iluminismo, previram uma nova era de luzes, em que a razão poderia substituir a coerção como a principal forma de resolver os assuntos humanos.

Apesar de nenhum destes primeiros defensores da anarquia se tenha descrito a si mesmo como anarquista, o que eles partilhavam era a oposição à autoridade coerciva e relações hierárquicas baseadas no poder, riqueza e privilégio. Em contraste com outros radicais, eles também rejeitavam qualquer papel autoritário ou de privilégio para eles próprios na luta contra a autoridade e na criação de uma sociedade livre.

Encontramos atitudes idênticas entre alguns revolucionários da era moderna. Durante a Revolução Francesa, os enragés e os radicais igualitários opuseram-se às ditaduras e governos revolucionários como sendo uma contradição nos termos, e tentaram abolir todas as distinções hierárquicas, incluindo entre governantes e governados.

Mas foi apenas por volta das revoluções de 1848 na Europa que o anarquismo começou a emergir como uma doutrina distinta.»

Do prefácio de Anarchism: A Documentary History of Libertarian Ideas, Volume One: From Anarchy to Anarchism, de Robert Graham

 

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Comentários

  • neofranciscanos  On Terça-feira, 3 Novembro 2009 at 8:50 pm

    http://www.neofranciscanos.wordpress.com
    Conheçam o trabalho de estudantes de Jornalismo de Belo Horizonte – MG – Brasil
    São quase 2000 acessos em cinco semanas
    Leiam, opinem…suas conclusões são muito importantes para nós!
    Gratos,
    Estudantes de Jornalismo!

  • Anarca em Londres  On Quinta-feira, 5 Novembro 2009 at 3:49 pm

    “Ainda assim, antes da era da colonização europeia, grande parte do mundo permanecia essencialmente anárquico, com pessoas em várias partes do mundo a continuar a viver sem instituições formais de governo até o século XIX.”

    Isto ou é pura mentira maliciosa ou ignorancia da parte do autor. Qual era a parte do mundo em que nao havia instituicoes formais de governo até ao século XIX? Para mim um chefe, tribal ou eleito, é uma instituicao formal de governo, caso contrário o que é um rei por exemplo? Nao é tudo o mesmo?

    O anarquismo é uma (r)evolucao na história, nao um revisitar de qualquer momento aureo do passado que foi perdido para sempre. Deixemo-nos de pensar no jardim do Éden em que viviam os nossos antepassados cacadores/recoletores (porque nao era nenhum paraíso antes pelo contrário) e concentremo-nos no presente e futuro.

  • mescalero  On Quinta-feira, 5 Novembro 2009 at 5:43 pm

    O que me parece sustentar essa tese é o facto dessas comunidades não terem ou não estarem sob o domínio de um Estado ou de um poder central. Ou estarem em território considerado pertença de algum Estado mas elas próprias não o reconhecerem e viverem afastadas da sua influência. A África, a América do Sul e muito da Ásia poderiam entrar no grupo a que se refere o autor. Mesmo aqui na Europa, a quantidade de povos que nessa altura viviam com pouco contacto com os poderes centrais era significativo. É a isso que me parece que o autor se refere, ou seja, à diferença que há entre comunidades auto-reguladas e comunidades absorvidas pela centralização.

    A existência do chefe tribal acaba por ser menos importante se virmos a questão por este prisma. Ainda assim, é sabido que mesmo o chefe tribal tinha muitas vezes um papel diferente na sociedade do que hoje consideramos ser as funções de um chefe (poder de decisão, liderança, …).

    Em conclusão, não discordo do fundamental do teu argumento. O autor teria sido mais correcto se separasse as águas e colocasse de um lado as sociedades sem hierarquia e do outro as hierarquizadas. E podia chamar a essas sociedades auto-reguladas mas que de facto tinham um chefe decisor (que não deixa de ser uma “instituição formal de governo”) de anarquizantes ou semi-anarquistas ou coisa que o valha.

    Sobre o facto do anarquismo não ser uma volta ao passado primitivo, completamente de acordo. Nem é isso afirmado no texto. A frase final da minha tradução faz precisamente a ponte para os movimentos operários do séc. XIX que no texto original são depois descritos.

    Agora, é um facto que as ideias principais do anarquismo estão presentes ao longo da história humana, incluindo nos povos caçadores-recolectores (ainda hoje estão). Não como movimento social revolucionário, como uma doutrina ou corpo teórico, mas estão lá, na vivência e no pensamento de muita gente. Não podemos simplesmente ignorar isso ou fazer de conta que não tem nada a ver connosco.

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