Fontes Sofisticadas de Informação

É lançado hoje o livro Fontes Sofisticadas de Informação (pdf), de Vasco Ribeiro, que resulta de uma investigação sobre a influência das fontes na construção do noticiário político em Portugal, em quatro dos principais títulos da imprensa diária portuguesa: Correio da Manhã, Público, Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Alguns excertos das conclusões do estudo:

“Também se finda esta dissertação com a certeza da hegemonia das fontes oficiais, que constituem mais de 90% dos «fornecedores» de informação identificados.”

“Outro dado relevante é o exíguo protagonismo, enquanto fonte, do cidadão anónimo no noticiário político dos quatro diários. A população praticamente só é alvo de exposição mediática durante as campanhas eleitorais e por motivos pouco lisonjeiros. Num claro mimetismo das exuberantes coberturas televisivas, a intervenção dos cidadãos anónimos é requerida pela imprensa escrita tão-só para ornamentar e ritmar as notícias. Logo, com uma preocupação mais estética do que propriamente informativa.”

“Mais de 60 por cento das notícias analisadas resultaram da acção de indução por parte de assessores de imprensa, relações públicas, consultores de comunicação, porta-vozes e outros peritos em ‘spin doctoring’, ou seja, são determinadas pelas chamadas fontes sofisticadas de informação”

“Outro dado que avulta desta investigação é a incapacidade do consumidor das notícias de detectar a intervenção dos técnicos de comunicação e relações públicas na construção das mesmas. Isto porque só em 1,3 por cento do total das notícias analisadas foram identificadas fontes profissionais de informação, facto que faz jus ao rótulo «sombra» frequentemente colado a estes profissionais”

“Que não haja equívocos: a assessoria de imprensa tem vindo, progressivamente, a apurar as suas técnicas e ferramentas de trabalho. De resto, verifica-se hoje uma miscigenação das relações públicas com áreas como o marketing, a gestão, o multimédia, a audiometria, a linguística e até o jornalismo tout court, com o intuito de tornar mais eficazes as estratégias de persuasão dos spin doctors. O cruzamento da assessoria de imprensa com o marketing relacional, por exemplo, tem permitido aperfeiçoar a elaboração de notas de imprensa personalizadas e de acordo com os estilos e normas de escrita de cada jornal.”

Ou seja, quem faz as notícias sobre política são os assessores de imprensa dos grandes partidos, e as pessoas que consomem esses produtos ignoram esse facto. Digo eu que o ignoram apesar das evidências em contrário: a promiscuidade entre o poder político e o económico que detém os órgãos informativos, as notícias descaradamente tendenciosas e comprometidas, os casos que episodicamente nos mostram parcelas do que se passa nos bastidores da indústria (in)formativa. Outro dado a reter é que somos todos “ornamentos” no gigantesco jogo de xadrez noticioso que paira sobre nós. Faça-se portanto contra-informação, tornemo-nos nós os jornalistas e façamos circular a informação de forma a que os órgãos da imprensa corporativa passem a ter o papel de “ornamentos” para o qual nos querem relegar.

Indymedia_1

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