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Seguindo a sugestão de leitura no Tempo das Cerejas sobre um tema da actualidade, Obama e as comparações com Franklin Roosevelt, damos com um artigo com uma tese bastante interessante, que embora seja uma posição tradicionalmente defendida pelo pensamento libertário, não é comum em publicações liberais.
Muito sucintamentente, o que é defendido é a noção de que têm sido os movimentos sociais, forçando políticas de esquerda e obrigando os governantes a ajustar a sua agenda, que têm impulsionado reformas e progressos económicos e sociais nos EUA. Para isso centra-se no exemplo do New Deal de Franklin Roosevelt.
Roosevelt implementou um importante pacote de medidas económicas a que chamou de New Deal com o fim de combater a Grande Depressão do final dos anos 20 e anos 30 – a mesma que os economistas comparam aos tempos que vivemos, afirmando inclusive que a crise actual já ultrapassou em gravidade esse período. A este respeito tem-se feito comparações entre Roosevelt e Obama, pegando na crise com que ambos se deparam, no facto de serem ambos democratas, de Obama ter criado um fundo de esperança e de se esperar dele um conjunto de medidas equiparadas ao New Deal que venham a salvar a economia.
Como é referido no artigo, há opiniões divergentes sobre o que verdadeiramente alavancou a economia norte-americana nesse período e acabou com a crise. Os republicanos afirmam a pés juntos que foi a guerra mundial a responsável e aproveitaram a subida posterior ao poder para exercer o seu direito hitórico a escrever a história dos vencedores. Os democratas, naturalmente, acham que foi o New Deal.
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Mas na realidade, a verdadeira história dificilmente é igual à que é observada do ponto de vista das torres de escritórios e dos gabinetes executivos. Neste período, os movimentos sociais acabaram por se tornar decisivos ao ganharem força com o mau estar provocado pela crise. Exemplos disso são o movimento pela atribuição de bónus aos veteranos de guerra, o movimento Townsend que reclamava cheques mensais de 200 dólares para as pessoas com mais de 65 anos, o American Federation of Labor e o Committee for Industrial Organization que conseguiram uma legislação nacional que permitisse a sindicalização, etc. Medidas originadas nos movimentos sociais, impulsionadas por eles, que acabaram por influenciar o congresso e, aí sim, chegar à administração e ao presidente.
Outros exemplos significativos do que são governantes a andar a reboque da vontade popular, sabe deus o quanto a contra-gosto (e ficando-nos apenas pelos lembrados no artigo que são todos da terra do tio Sam) são o movimento abolicioniosta que pressionou Lincoln a libertar os escravos e o congresso a assegurar a sua cidadania, a influência dos anti-federalistas na elaboração da constituição de Filadélfia em 1787 e a poder decisivo do movimento sufragista que conseguiu ultrapassar as resistências e más-vontades do presidente Woodrow Wilson.
A ideia de que os movimentos sociais de base podem e devem ter um papel central na gestão da sociedade é amplamente defendida e divulgada nos meios libertários. Estes movimentos não devem ser apenas de base mas quanto mais horizontais melhor, isto é, se pretendem realmente ser a voz e o instrumento de acção das populações, tem de partir delas a iniciativa e não de técnicos ou dirigências que com o tempo e com o acesso aos tais gabinetes executivos acabam por se corromper e se metamorfosear em algo parecido com os bonecos pomposos que nos observam das tais torres fortificadas de escritórios. Os movimentos sociais são uma forma de reivindicar e pressionar os poderes concentracionários por medidas revolucionárias como justiça, liberdade e paz e, ao mesmo tempo, oferecem a possibilidade de construir no aqui e agora o mundo que desejamos e pelo qual lutamos.
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