Sobre revolução e contra-revolução

“Muitas pessoas não se apercebem que no passado atravessamos, e continuamos agora a atravessar, um ciclo de revolução e contra-revolução. Este ciclo pode ser dividido em 3 vagas.

Primeira vaga 1910-1936

México, Rússia, Alemanha, Hungria, Espanha, revolução potencial na Itália, revolta na Argentina, Brasil. Greves gerais por todo o mundo.

Segunda vaga 1958-1980

Cuba, França, Portugal, Nicarágua. Revolta na Itália, Argentina, Chile. Greves gerais na Bélgica, Canadá.

Terceira vaga 2000 –

Venezuela, Bolívia, revolta no México, Equador, Argentina, Islândia. Revolta na Grécia, França.

Cada vaga, até à actual, terminou num período de reacção.

1. 1922 – 1957 Fascismo e Estalinismo, seguído de dominação pelo imperialismo norte-americano e contra-revolução.
2. 1973 – 1999 Golpes de estado promovidos pelos EUA no Chile, Argentina, Uruguai, terrorismo na América Central, ataques neoliberais aos padrões de vida e direitos dos trabalhadores por todo o mundo.

As datas são aproximadas e podem ocorrer sobreposições. Além disso, um período revolucionário pode conter triunfos reaccionários e um período de reacção pode assistir à ocorrência de mudanças progressivas ou revolução. Apesar destas limitações, há um ciclo definido de revolução e de reacção contra-revolucionária. A dificuldade em perceber a existência destas longas vagas leva quer ao pessimismo por parte das forças progressistas (discurso sobre a cooptação da classe trabalhadora) quer ao triunfalismo por parte dos reaccionários (o “fim da história”, obsolescência do socialismo).

Há também diferenças entre as vagas revolucionárias. No passado, regimes revolucionários foram instalados ou a contra-revolução triunfou num espaço de meses. Hoje, o processo revolucionário está muito mais prolongado, como vemos na Venezuela e na Bolívia onde uma situação revolucionária tem existido durante anos. Na Argentina, apesar de muita da luta da classe trabalhadora militante desde 2001 ter sido recuperada pelo populismo, a classe como um todo não foi derrotada como foi em 1976. Em certos aspectos houve uma fusão de reforma e revolução.

A segunda diferença é a fraqueza do imperialismo norte-americano. Manietado no Iraque e no Afeganistão, o império estendeu-se excessivamente e depara-se com a hostilidade das populações dos seus supostos aliados. Vê-se incapaz de aterrorizar a América latina e colocá-la “no seu lugar”, como fez a apenas 20 anos atrás. Isto dá ao processo revolucionário tempo e espaço para se desenvolver autonomamente.

A terceira diferença é a severidade da crise económica e o facto de que ela é de facto uma crise tripla – económica/energética e ambiental. O capitalismo nunca antes enfrentou uma crise desta magnitude. Isto limita a sua capacidade de intervenção e traz desassossego aos centros do império.

As hipóteses de sucesso nunca foram maiores. Nunca tanto esteve em jogo. O que acontecerá?”

Larry Gambone no Porcupine blog

mescalero

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Comentários

  • Autonomista  On Sábado, 11 Abril 2009 at 11:38 am

    As hipóteses de sucesso duma revolução têm mais a ver com a parte que a faz do que com a crise do capitalismo. E nesse aspecto acho que estamos muito mal. Estamos em crise também.

  • mescalero  On Domingo, 12 Abril 2009 at 11:39 am

    Se falas de Portugal concordo totalmente e acrescentaria que é uma crise bastante profunda, quase um coma. Numa perspectiva mundial, julgo que o autor do texto tem razão. Estamos a viver um período que nos favorece e só nos compete a nós dar a volta à situação.

  • Mário Moniz  On Domingo, 12 Abril 2009 at 6:48 pm

    Não estávamos preparados no 25 de Abril de 1974. E agora, penso que estamos pior.
    Os portugueses foram paulatinamente formatados para o individualismo e a falsa competitividade individual.
    Perdeu-se todo o sentido de solidariedade. Contudo, tenho esperança que esta geração que está no escalão dos 20/30 possa ter uma atitude diferente, motivada pela situação actual e alertada pelo que se passou nos últimos 30/35 anos.

  • Marreta  On Segunda-feira, 13 Abril 2009 at 4:53 pm

    Esperemos por uma 4ª vaga que corte o ciclo de revolução/contra-revolução.

    Saudações do Marreta.

  • Eugénio Calado  On Terça-feira, 14 Abril 2009 at 12:52 pm

    O sentido de solidariedade ganha-se na luta, quando esse sentido se impõe como necessidade prática.

    Em 74-75, esse espírito surgiu assim. A fraqueza que lhe vejo foi não se ter desligado completamente das ilusões estatistas e dos falsos amigos da esquerda que as propagavam.

    Acho estranho que um autor anarquista chame revolução ao que acontece na Venezuela.

  • mescalero  On Terça-feira, 14 Abril 2009 at 5:43 pm

    Mário Moniz, não quero parecer pessimista mas acho que essa geração não tem mostrado nada de diferente.

    Marreta, se o que o autor do texto diz é verdade, esta terceira vaga está a decorrer e ainda muita coisa pode acontecer.

    Eugénio Calado, talvez o autor tivesse incluído a Venezuela num contexto de força de oposição ao imperialismo, ou simplesmente de força progressista. Num texto tão conciso não se pode ser muito rigoroso.

    cumprimentos a todos

  • Mário Moniz  On Quarta-feira, 15 Abril 2009 at 1:30 am

    Penso que esta não é só mais uma crise cíclica. Esta marca também toda uma filosofia que se prova não dar certo, mesmo para quem professe um capitalismo moderado, se é que isso pode existir. Digo isto porque o capitalismo está necessariamente ligado ao lucro e à ganância, logo moderação não é com ele…
    Suponho que toda uma ordem mundial está posta em causa e muito terá que ser diferente. Daí acreditar que a juventude actual, vivendo estes problemas, pode contribuir para alterar o futuro.

    http://livrecomoovento.blogs.sapo.pt/

  • jaime crespo  On Quarta-feira, 15 Abril 2009 at 1:39 am

    o inimigo nº1 em relação a portugal é neste momento a UE e as suas directrizes cumpridas cegamente pelo governo “dos Bons Alunos”. ruptura com a UE já!
    não acreditando muito em eleições desta vez vou apoiar a lista da RUE (ruptura com a UE) porque neste modelo apenas uma classe tem sido sujeita a pagar a tão propaladaq crise: os trbalhadores. inverter o ruma das políticas em favor de quem trabalha passa por recusar uma organização elitista, burocrática e autista. uma organização mafiosa que foi estendo os seus tentáculos a quase toda a europa. libertemo-nos do polvo que nos asfixia.

  • mescalero  On Quarta-feira, 15 Abril 2009 at 12:24 pm

    Caro Mário Moniz,

    Mas é precisamente essa a solução milagrosa com que nos querem presentear como solução para os excessos do capitalismo selvagem, isto é, uma forma moderada – porque regulada – de capitalismo. Naquelas primeiras semanas de mediatismo da crise, descobrimos imensos apoiantes do keynesianismo, não é verdade?

    Concordo que esta ordem mundial (ou falta dela) está posta em causa, não só por causa do capitalismo mas do sistema legal e político que o sustenta, que não é mais que a democracia representativa. Não está a funcionar. É demasiado permeável a desigualdades, exploração, corrupção e dominação. É preciso aprofundar a democracia, levá-la ao próximo patamar, difundir realmente o poder pelas pessoas e não apenas criar intermediários que distorcem mensagens e ainda levam o seu quinhão.

    Jaime Crespo,

    Sou totalmente a favor de todo o tipo de rupturas com as instituições políticas, e precisamente por causa disso tenho uma pergunta a fazer acerca da RUE. Porquê apenas a UE e não a OCDE ou a NATO? Ou até mesmo o governo nacional?

    cumprimentos

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