Uma escola libertária e elitista para todos

Texto da e-revista Brasileira Escola Pública via Bioterra

web-3fev04-005

Foto Université populaire de Caen

Tradução para português de Portugal, publicada no nº 338, Julho-Agosto de 2005 do Le Monde de L’Education

Entrevista com o filósofo Michel Onfray

Demissionário do sistema de educação do Ministério da Educação Nacional Francês e colocando-se explicitamente dentro da tradição do século 19, o filósofo Michel Onfray fundou, em 2002, uma universidade popular em Caen, com o objetivo de democratizar a cultura, proporcionando gratuitamente o saber para o maior número possível de pessoas – um novo Jardim de Epicuro, mas fora das paredes, lançando as bases para uma autêntica “comunidade filosófica” contra o mercantilismo dos saberes. Outros antes dele haviam pensado em fazer isso, mas sem tomar uma atitude efetiva-principalmente os militantes da ONG Droits Devant! (Direitos em Frente!) quando estes ocupavam o prédio da rua du Dragon, em Paris, em 1994. Dentro da lógica de Michel Onfray, a universidade popular se inspira na universidade tradicional (qualidade das informações, progressão pessoal, transmissão de um conteúdo antes de todo debate).

Contudo, ela conserva do café filosófico a abertura para todos os públicos, a utilização crítica dos saberes e a prática do diálogo. A fórmula precisa respeitar determinados critérios: os docentes são benévolos; as aulas são gratuitas; os participantes totalmente livres. Participa quem quer, sem precisar se inscrever previamente, sem condições de idade ou de diploma, e sem precisar submeter-se a um controle dos conhecimentos. Os curso articulam-se entre uma exposição e uma discussão entre o professor e a plateia. Desde 2003, Michel Onfray oferece, a partir do mesmo modelo, uma universidade popular de verão no Lazaret de Ajaccio (na Córsega). Iguais a estas, outras surgiram, contando, em muitos casos, com o apoio das coletividades locais: perto de Arras (Pas-de-Calais, norte) e em Narbonne (Aude, sudoeste), sendo agora a vez de Lyon.

Nesta entrevista Michel Onfray defende o poder emancipador da pedagogia libertária. A miséria social e moral das nossas sociedades impõe a necessidade de ensinar a todos um saber alternativo e crítico, até porque muitos intelectuais deixaram de se preocupar em tornar popular o saber filosófico.

Le Monde de L’Éducation – Na sua obra La Communauté philosophique (Galilée, 2004) você escreve que “o pedagogo libertário trabalha para o seu apagamento pessoal, e cultiva o poder interrogativo de toda a subjectividade”. Por que é que este poder se encontra esgotado no aparelho escolar, quando ainda existem certos professores que conseguem despertar e responder ao desejo de saber dos alunos?

Michel Onfray – A instituição escolar é esquizofrénica: ela tem um discurso, mas leva a cabo uma prática nos antípodas daquele discurso. O discurso é este: a escola forma a inteligência, constrói indivíduos cultivados cujo saber lhes permitiria desenvolver juízos esclarecidos, ensina a ler, a escrever, a fazer contas, a pensar, ela formaria o cidadão ao educá-lo para a liberdade. Mas, a verdade, é que na prática ela negligencia a inteligência para privilegiar o exercício da memória e da repetição calibrado em função de um programa feito para isso. A educação nacional ensina, sobretudo a submissão, a docilidade, a hipocrisia, o artificial. Só assim se pode explicar que num curso de 7 anos de inglês se consiga fazer tão poucos jovens bilíngues. O que é que se aprende durante aquelas intermináveis horas de aprendizagem de línguas senão a arte de bem funcionar dentro da máquina que permita a passagem para o ensino superior, e a produção de diplomas úteis para o mundo da integração social.

Le Monde de L’Éducation – Qual é a genealogia dessa pedagogia libertária que você defende? Estaria no prosseguimento de uma linha que vai de Epicuro a Freinet?

Michel Onfray – Se o termo libertário significar “o que educa a liberdade”, ou “o que faz da liberdade o bem supremo”, sem dúvida, que poderíamos começar com Sócrates e a sua maiêutica, a sua arte de desenvolver as potencialidades de cada qual e torná-las em realidades tangíveis, podemos depois continuar com Diógenes e os filósofos cínicos que usam um bastão para mandar embora os que procuram um mestre e a submissão. Prosseguimos com Erasmo, o grande e imenso Erasmo, e, certamente, Montaigne, que tanto lhe deve, para falar de várias matérias, como a Educação e tantas outras. Passamos depois para Nietzsche que ensina que um bom mestre é aquele que aprende aquilo que se desprende de si. Seria preciso ainda falar, com certeza, dos autores libertários, que a história conheceu, como Max Stirner e o seu “Falso Princípio da Nossa Educação”, Sébastien Faure, que aplicou o seu método em La Ruche, mas ainda A.S. Neill e os seus “Jovens livres de Summerhill” que me fizeram desejar tornar-me professor antes de me desiludir na Escola Superior de Educação. Seria ainda preciso acrescentar o excelente livro “Advertência aos estudantes e liceais” de Raoul Vaneigem.

Le Monde de L’Éducation – Uma certa concepção da pedagogia libertária – nomeadamente a que defende a espontaneidade do aluno – não fará o jogo do “novo espírito do capitalismo” que pretende apoiar a participação dos “actores”? Não contribuirá ela para o idiota útil do “neoliberalismo”?

Michel Onfray– Tem razão.Eu sou um ardente defensor de Maio de 68 e do espírito de Maio, que se definia por uma revolução metafísica antiautoritária. Os dominados punham em causa os dominantes. Os pares tradicionais – mulheres/homens, jovens/velhos, empregados/patrões, esposas/maridos – deixaram de ter um estatuto divino. E tudo isso foi uma coisa boa. Mas à negação dos velhos valores não se seguiu uma positividade. Destruir é bom se, e somente se, propusermos a seguir uma reconstrução. Os valores libertários, por exemplo, mereceriam mais que os simples elogios da indolência, da espontaneidade, do natural, do porreirismo generalizado por via da desvalorização do rigor que se mostrou tão pouco democrático quanto demagógico. Porque esta renúncia à memória, ao esforço, ao trabalho, à cronologia, e todas essas categorias consideradas reaccionárias fizeram efectivamente o jogo do poder, que prefere ter um rebanho de incultos embrutecidos que indivíduos apetrechados com o saber e a cultura. A pedagogia libertária não é a pedagogia liberal pós-anos 1960 que deixa o jovem livre na turma, e que dá plenos poderes à competição entre classes sociais, e que é, ela própria, geradora de reprodução social.

Le Monde de L’Éducation – “Passamos de um ensino autoritário a um ensino clientelar”, escreve Raoul Vaneigem num texto recente sob o título Modeste Propositions aux Grévistes (Verticales,2004). “O endoutrinamento suscitava, ao menos, a revolta, a propaganda estimulava o seu oposto, o desejo de pensar de outra forma. O fetichismo do dinheiro enfraqueceu o pensamento que ruge e incomoda.” Concorda com esta análise?

Michel Onfray– Vaneigem é um amigo que me estimula – ele acaba por me ultrapassar pela esquerda! – mas não partilho o seu optimismo que está, de resto, na génese do seu radicalismo político: no meu entender, a autoridade produz uma submissão massiva, pois o medo, o temor e o desejo de servidão voluntária são grandes. A revolta não é gerada pela ditadura – se assim fosse, seria preciso desejarmos a ditadura enquanto momento dialéctico das revoltas lógicas – mas por temperamentos rebeldes, revoltados, insubmissos gerados por razões existenciais que só uma psicanálise à maneira sartriana – descobrir o projecto original – permitiria compreender. Conheci períodos da minha vida – nomeadamente os sete anos de pensionato, quatro dos quais no orfanato dos salesianos – que fizeram de mim aquilo que sou hoje, mas que também fizeram uma multidão de indivíduos castrados da vida e orgulhosos de o ser. Uma mesma causa não produz felizmente os mesmos efeitos em todos nós. É preciso levar em consideração o prazer de estar submetido, tal como existe com tantas pessoas.

Le Monde de L’Éducation – É procurando retomar o que há de melhor nos cafés-filosóficos e nas Universidades (a liberdade dos primeiros e a seriedade da segunda), ao mesmo tempo em que rejeita o que há de pior em cada qual (o extravasamento de um lado e a secura do outro), que você decidiu fundar a Universidade Popular de Caen. Mas também com o objectivo de retomar e prosseguir o ideal nascido no tempo da questão Dreyfus. Em que medida é ela um meio de lutar contra a situação de crise por que a França atravessa: miséria social, racismo, bloqueios nacionais-populistas etc?

Michel Onfray– O saber é um poder. Posto isto, é preciso um saber específico susceptível de permitir a libertação e não a alienação. A filosofia não é de fato um instrumento de libertação: ensinar as ideias platónicas, falar da Cidade de Deus de S. Agostinho, das teses tomistas, da aposta de Pascal, do ocasionalismo de Malebranche, da angústia de Kierkegaard e de tantas outras matérias da história da filosofia ajudam mais a manter o poder instalado e permitir o domínio do cristianismo do que a emancipar o aprendiz em filosofia. Daí o interesse em ensinar quer um saber alternativo, quer um saber clássico, mas de maneira alternativa, isto é, crítica. A subversão cínica, o hedonismo cirenaico, a libertação epicurista, a alegria gnóstica, só para ficar na Antiguidade, são ilustrações de saberes alternativos; ou então, falar dos saberes clássicos, mas de maneira alternativa: mostrar que o conceito erróneo de pré-socrático, desvalorizando os predecessores socráticos, pressupõe uma escrita platónica da história da filosofia, explicar as razões da evicção do materialismo de Demócrito (cuja obra completa Platão queria queimar em auto-de-fé). Estes saberes permitem construir uma inteligência crítica, mas também realizar um trabalho sobre outras matérias, nomeadamente as que estão associadas a essa crise que referiu.

Le Monde de L’Éducation – Você costuma recordar que intelectuais como Alain, Péguy, Bergson e tantos outros, frequentaram e animaram cursos de educação popular, lançados pelo tipógrafo anarquista Georges Deherme. Os intelectuais dos anos 2000 esqueceram o seu papel de educadores e a ideia de tornar popular, a filosofia?

Michel Onfray– A nossa época mediática produziu dois tipos de intelectuais: o primeiro, especializou-se na miséria limpa, uma miséria longínqua que permita uma postura declamatória à maneira teatral, reproduzida logo de imediato pelos média. Tendente a ser mediatizada, e não precisando de nenhum outro compromisso que não seja o verbo, a carta postal ou a consulta de um livro, ela permite tocar o trompete dos grandes princípios maiúsculos: Humanidade, Liberdade, Direitos do Homem etc. O segundo, ocupa-se antes da miséria suja, a que envolve os explorados, os operários, os miseráveis e os excluídos do sistema, as vítimas e outros dejectos do liberalismo, a ideologia defendida pela maior parte dos primeiros. Os intelectuais dos anos 2000 não cuidam da educação popular nem de tornar popular a filosofia: o seu saber é utilizado para fins financeiros, traduzíveis em moedas reais ou simbólicas, mas nunca com o objectivo de uma crítica social.

Le Monde de L’Éducation – Um curso magistral pode ser libertário?

Michel Onfray– Sim, se o magistério do curso magistral for aquele que indiquei ainda há pouco: um mestre libertário que cuida antes de tudo em cartografar e de identificar o conjunto das situações que estão em jogo, fornecendo depois uma bússola e o seu modo de emprego, isto é, convidar cada qual a fazer a sua própria viagem.

Le Monde de L’Éducation – A Universidade popular histórica acabou por desaparecer antes da Primeira Guerra Mundial em razão de causas e desinteligências internas. A Universidade popular tem tido um grande sucesso. Como evitar os perigos?

Michel Onfray– A Universidade popular é um organismo vivo e, como tal, mortal. Os três anos da sua existência já permitem identificar alguns vírus, erros e ataques. Tudo normal. A Universidade popular tem tido efectivamente um grande sucesso público e popular, gerou uma verdadeira energia alternativa, propõe um intelectual colectivo – para usar a fórmula de Bourdieu – eficaz, que logo perturba e incomoda. É normal que a nossa aventura atraia invejas e revele os medíocres, os invejosos, e outras figuras de ressentimento que não existem e não vivem senão por e para a destruição. Mas nós somos uma comunidade de amigos, no sentido epicurista, que vamos experimentando o verdadeiro poder da amizade epicurista. E, depois, sejamos nietzscheanos, o que não mata fortalece-nos. Para o resto, só o Deus das universidades populares poderá dizer se a experiência desaparecerá – sim, porque ela sempre desaparecerá -, seja como vítima da síndrome do recém-nascido ou do catarro dos velhos, seja por suicídio próprio na flor da idade ou por um esgotamento centenário.

Le Monde de L’Éducation – Uma educação “elitista para todos”. Esta fórmula do dramaturgo Antoine Vitez adaptada à educação mantém-se actual?

Michel Onfray– Mais actual do que nunca. Gosto mesmo do oxímoro, uma figura de estilo que, associando dois termos aparentemente contraditórios, gera um sentido novo: universidade popular é realmente um oxímoro espantoso! O elitismo para todos, também. Percebe-se que, para além da pura e simples justaposição verbal, para além do simples jogo de palavras, uma nova significação emerge à luz do dia. A expressão elitismo para todos supõe uma outra definição de cada um dos termos; trata-se de dar o melhor ao maior número, porque o melhor existe, sem dúvida, mas normalmente só é dado aos melhores, pelos menos, aqueles que assim são qualificados pela máquina social. Quando é destinado a todos, ao maior número – é essa a minha definição de popular, e também a de Michelet – o elitismo brilha com outra clareza, que muitos se têm esquecido, e que é a da luz do iluminismo.

mescalero

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentários

  • Paulo Jorge Gomes  On Terça-feira, 3 Fevereiro 2009 at 12:03 am

    Parabéns pela descoberta.

    De certa forma, parece-me que Onfray segue a linha de George Steiner no seu magistral «Lições dos Mestres», pelo menos no que concerne à pedagogia, com a diferença de a passar para a prática. Aplaudo e revejo-me na iniciativa (e também na frustração, na medida em que lecciono no ensino superior – mas a prazo, por minha opção, precisamente por sentir a ausência de «libido sciendi» mencionada na entrevista).

    Deixo apenas uma outra provocação: a filosofia, a necessidade de contemplação perante o espanto, não implica ou não reconduz o seu genoma à escravatura? Dito de outro modo, o pensamento filosófico, pouco importa o rótulo, não implicou historicamente um substracto dominado perante dominadores?

    (sendo a democracia grega o berço da democracia ocidental, esse vício genético, a escravatura, não se terá propagado inevitavelmente sobre outras formas, com seja o consumismo, por exemplo? – estou a pensar em Baudrillard no seu «Sociedade de Consumo», Edições 70, 2008. E se o sistema grego fosse outro que não essa democracia sustentada na diferenciação entre homens livres e não livres? Se for por aí que o anarquismo tenta entrar, concedo nessa hipótese)

    Ainda respeitante ao post do Libertário, admito que a democracia não seja perfeita. E admito que possam existir outras formas, por certo mais válidas.
    Simplesmente desconfio das massas, pelas razões que já lhe indiquei. E ainda mais quando o único referencial é o de não ter referencial.

    Mas não retira o mérito da iniciativa, pois como dizia Voltaire (salvo erro) «abomino o que dizeis, mas lutarei até à morte para que o possas dizer».

    Cumprimentos cépticos.

  • mescalero  On Terça-feira, 3 Fevereiro 2009 at 1:31 pm

    Caro Paulo,

    Por acaso já conhecia o Onfray há uns anos através de duas das suas obras. Conheci-o mais ou menos na altura da criação da Universidade Popular de Caen. Foi um acaso ter encontrado esta entrevista num blog conhecido para que o relembrasse.

    A minha resposta à provocação é que tenho muita desconfiança dos essencialismos e até agora nada me levou a crer que possa haver um no que diga respeito à submissão. De resto, não sendo um estudioso, é-me complicado perceber as implicações na filosofia e na antiguidade. Mesmo o Braudillard é um autor que não tive a oportunidade de ler (recentemente, aquando do seu falecimento, deu para perceber pelas publicações libertárias que é alguém onde o anarquismo, ou pelo menos algum anarquismo, vai buscar influências).

    Cumprimentos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: