Moeda social substitui dinheiro e estimula desenvolvimento local

Não existe crise na economia solidária, na qual a riqueza fica na própria comunidade.

O mundo financeiro mudou. As bolsas encolheram, moedas esvaziaram-se e grandes bancos desapareceram do mapa. No Brasil, existem, porém, 33 comunidades que dão as costas para o que acontece no resto do planeta. Se consultadas, seriam capazes de dar lições de economia aos poderosos. Elas imprimem o seu próprio dinheiro, só compram com desconto e emprestam a menos de 1% ao mês. Não é pouca coisa. A chamada economia solidária já conta com 35 bancos e cinco moedas próprias em circulação. No lugar do real, entram papéis alternativos, como a palmas, o bem, a terra ou a oração, que chegam a valer mais do que a moeda oficial do país.
Dentro do sistema de economia solidária, não existe crise financeira. Nem internacional, nem local. O funcionamento é simples: em vez de pagar em reais, o consumidor usa a moeda social em circulação no seu bairro ou cidade. No comércio local, ele ganha desconto ao pagar com esse dinheiro. Já o comerciante pode desfazer a troca no banco social, se tiver necessidade de fazer compras fora da comunidade. “Com isso, a riqueza fica dentro do bairro, pois o pagamento em palmas ou orações não tem valor fora dali”, observa. É o oposto da economia globalizada, onde o investidor só aplica no Brasil se ele for o país mais rentável no momento. “Durante uma crise, os investimentos evaporam, porque não há nenhum vínculo com o país ou com a comunidade. A riqueza muda muito rapidamente de lugar”, compara Peterson Gandolfi, professor de administração da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

A primeira experiência com moeda social de Minas Gerais está instalada em Uberlândia, na rica região do Triângulo Mineiro. Quem colabora na organização não-governamental (ONG) Ação Moradia recebe o pagamento pelas horas trabalhadas em hora-ação, o nome oficial da moeda. Em mineirês, foi encurtado para oração. Na prática, cada hora de colaboração na cozinha, na limpeza ou na costura corresponde a uma oração. Com o tempo, Enilda passou a achar mais bonito receber o salário em moeda solidária. “Aqui dentro, a oração vale do mesmo jeito que o real”, completa.

Com as cédulas na mão, devidamente numeradas e plastificadas, é possível trocar por mercadorias usadas no bazar, que recebe doações de eletrodomésticos, móveis e computadores das empresas da região. Na tabela de preços, um par de meias vale duas orações, um fogão sobe para 50 orações e o computador atinge o teto de 70 orações. “Nenhuma comunidade é tão pobre que não consiga gerar sua própria riqueza. O problema é que o trabalhador gasta o seu salário mínimo no supermercado das grandes redes, em vez de dar preferência para o mercadinho do bairro. Com a moeda alternativa, o dinheiro forçosamente vai ficar dentro da comunidade e circular lá dentro. Quem quiser comprar fora terá de trocar por reais”, explica o empresário Oswaldo Cetti, que fundou a entidade com a mulher, Eliana Maria Carrijo Setti. No caso dele, a moeda social também minimizou o dilema na hora de distribuir as doações de bens de maior valor e ajudou a captar mais horas de trabalho “voluntário” entre as pessoas da comunidade.

Bom, seguro e sempre solidário
Cadastros de clientes são baseados na confiança e praticamente não há inadimplência no setor. Mas também existem regras legais para os bancos sociais

O 15 de setembro de 2008 já entrou para a história como o marco do maior crash internacional depois de 1929. Nesse dia, o mundo percebeu o alcance da quebradeira quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, pediu concordata. Não há risco de nada parecido ocorrer com nenhum dos 35 bancos comunitários brasileiros que, do dia para a noite, se tornaram as únicas instituições realmente sólidas no mercado. Só por um motivo: a garantia é de outra ordem, não-financeira. “Aqui não há como ocorrer o subprime americano (traduzido como distribuir empréstimos imobiliários a quem não tem condições de pagar). Antes de emprestar, o banco vai lá na casa dele e pergunta para o vizinho e para a sogra se o fulano é bom pagador, se ele costuma atrasar as contas. Com isso, consegue fazer uma avaliação de cadastro mais profunda do que o sistema internacional de crédito”, diz Peter Gandolf, da UFU.

Para Oswaldo Cetti, fundador da ONG Ação Moradia, nenhuma comunidade é tão pobre que não possa gerar sua própria riqueza.

Nos bancos sociais, a inadimplência acima de 60 dias é perto de zero. Em média, o atraso nas prestações não passa de 10 dias. “Quem ficou devendo dá um jeito de arranjar dinheiro, pega emprestado com parentes para não ficar inadimplente com o banco e nem sujar o nome. Ele sabe que atrasar no banco é coisa séria, pois o dinheiro é da comunidade, é dele”, explica o professor da UFU. Também o critério de cessão dos créditos é outro, proporcional à necessidade do tomador. “Os critérios são definidos por agentes de crédito escolhidos pela comunidade. Não é porque o mundo está caindo que o banco vai negar o financiamento de R$ 500 para o pipoqueiro que precisa comprar um novo carrinho para trabalhar. Se o dinheiro está mais curto e falta liquidez no mercado, ele terá preferência”, completa.

As comunidades também sofrem com as oscilações do real, porque as moedas sociais têm paridade com a moeda oficial. Para cada oração ou palma, o banco social tem um real guardado em caixa. Isso garante que as moedas sejam lastreadas em reais e mantém os bancos dentro da lei – que restringe a emissão de dinheiro ao Banco Central (BC).

Mas as regras comuns das notas de real caem por terra diante da realidade. “Se o tráfico matou três filhos de um correntista, caso verdadeiro que ocorreu em nosso banco, foi feita uma renegociação da dívida em mais prestações. No banco tradicional, ele passaria a ser um inadimplente. A decisão passou pelo crivo das pessoas da comunidade, que assumem o compromisso de manter o banco funcionando, de acordo com a disponibilidade de caixa”, informa Leonora Laiboissière Mol, presidente do Banco Bem, de Vitória, no Espírito Santo, o primeiro da Região Sudeste.

Valores
Em três anos, o modelo do Banco Bem já foi replicado no Banco Terra e Banco Verde Vida, em Vila Velha, e no Banco Sol, em Cariacica. A proposta de abrir um banco social chegou a ser apresentada em Uberlândia, mas não foi para frente. A entidade recusou também o projeto de instalar uma filial do Banco Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil voltado para o microcrédito. “O BB estava mais interessado em dar empréstimos aos moradores, a juros que variam de 1,5% a 3,5% ao mês. Não havia uma contrapartida”, reclama Oswaldo Cetti. Segundo ele, algumas vezes não adianta explicar a proposta da entidade. “Nessa altura da vida, o dinheiro além do necessário perde o sentido. De herança, quero deixar outros valores”, conclui.

Moedas já circulam em 33 cidades
As moedas sociais circulam hoje em 33 comunidades, sendo 24 delas no Ceará. Em municípios menores, a moeda circula por toda a cidade, caso do acaraú, em Tamboril. Na capital Fortaleza, a mais forte é a palmas, do Conjunto Palmeiras. Pelo Banco Palmas, circulam atualmente cerca de 25 mil palmas, aceitas em 250 pontos de comércio cadastrados.

“Na nossa comunidade não tem inflação, porque não há excesso de dinheiro na praça. Nós mapeamos a produção e a necessidade de consumo local. Se os moradores precisam de 800 sabonetes por mês, damos um incentivo para abrir a fábrica da Palmalimp, que vai produzir sob encomenda”, explica João Joaquim de Melo Segundo, coordenador da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e do Instituto Banco Palmas.

Oferta e procura
Segundo Joaquim, ao fazer isso, a economia solidária não subverte a lei da oferta e da procura (a lei máxima do mercado), mas equilibra os pratos da balança. “É a lei da justa medida. O capitalismo trabalha com o princípio da escassez, onde uns ganham e outros perdem. A nossa é a teoria da abundância, onde tem espaço para todo mundo.” A teoria é muito bonita. Mas funciona, na prática? “Estamos provando que sim. Basta reorganizar a economia para gerar trabalho e emprego”, defende João Joaquim.

Um desafio é o livre-arbítrio dos moradores nas decisões de compra. Surge a dúvida: e se a dona-de-casa do Conjunto Palmeiras quiser continuar usando o detergente da Bombril? “É preciso conscientizar a comunidade, mostrar que existe uma diferença profunda entre levar o produto da Palmalimp e o da Bombril, uma grande marca americana que já está rica. Ela terá de fazer a opção entre ter o bico dosador ou apostar na fábrica local, que no futuro vai contratar um jovem do bairro. A maneira como a gente consome define o tipo de sociedade que queremos construir”, afirma. Para substituir o bico dosador, Joaquim sugere bater um prego na ponta da embalagem plástica, que, segundo ele, faz o mesmo efeito.

* Texto de Sandra Kiefer, publicado no jornal Estado de Minas, 9/11/2008

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