Porquê apoiar Obama?

Mais uma vez, uma parte significativa da esquerda dá o seu apoio ao candidato democrata estadunidense. Alguns sectores com entusiasmo, outros com algum cepticismo, mas preferindo-o sempre ao republicano. Barack Obama chega a representar um sinal de esperança, a concretização do seu slogan de campanha – “mudança em que possamos acreditar” -, o fim das trevas da era Bush.

Qual a razão deste apoio se não há, de uma forma geral, identificação de pontos de vista políticos? Obama não é de esquerda. No entanto, eleição após eleição, estes sectores da esquerda dão o seu apoio ao candidato democrático – Clinton, Gore, Kerry – como se estes fossem os seus representantes legítimos.

Mas veja-se o exemplo do último democrata que esteve no poder, Bill Clinton, que agora até presta à campanha democrática e aos seus apoiantes pelo mundo fora, o inestimável serviço de ser o bom exemplo e o contraponto à irracionalidade de Bush.

A administração Clinton bateu, até à altura em que esteve no poder, todos os recordes de autorizações de fusões entre os gigantes empresariais. Sentimos agora na pele o resultado dessa política. Se é verdade que nos anos Clinton houve um crescimento do produto interno bruto, não é menos verdade que isso não teve repercussões na riqueza por habitante. Pelo contrário, assistiu-se ao enriquecimento dos mais ricos, os que se safam sempre bem, e os restantes 80 ou 90 por centro viram os seus rendimentos e património diminuírem. o endividamento aumentou enormemente e bateu recordes históricos.

No plano internacional, a política estadunidense da era Bill Clinton foi tão agressiva como a normalidade de qualquer administração republicana. Bush foi pior é certo, mas Bush teve o pretexto do 11 de Setembro que foi nada mais nada menos que a primeira vez que o território nacional norteamericano foi atacado desde há 200 anos. Ainda por cima, ofensa das ofensas, por terceiro mundistas.

Clinton forneceu armas e instrução aos militares indonésios que massacraram impunemente os timorenses, mesmo depois de proibido pelo congresso. O mesmo se passou em relação à Turquia e ao massacre do povo curdo. Os tanques e os caças bombardeiros continuaram a chegar ao exército turco, para regalo dos dementes genocidas e boa saúde dos bolsos estadunidenses. No Haiti, depois do golpe de estado de 1991, Clinton continuou a política de Bush pai, de boicote ao regime de sanções imposto internacionalmente à junta militar e apoiado em grande medida no próprio país visado, contribuindo para a manutenção do terror. Foi também no tempo de Clinton que os Estados Unidos bombardearam a farmacêutica no Sudão, responsável por metade da produção de medicamentos do país. Um acto deliberado de terrorismo internacional. No Iraque, houve a operação Raposa do Deserto, quatro dias de bombardeamento, entre outras ingerências ilegais. O bombardeamento da ex-Jugoslávia, guerra que tinha muitas hipóteses de ter sido evitada diplomaticamente, e que veio a causar grandes massacres na população civil. A ridícula operação de relações públicas na Somália, ordenada depois da fase pior dos massacres ter terminado, que terminou sem concretizar os objectivos.

Clinton assinou em 92 o NAFTA, zona de comércio livre entre os EUA, o Canadá e o México, mesmo com forte oposição dentro do seu partido. Este acordo era apenas uma fase no caminho para a concretização da ALCA que ambicionava todo o continente americano e que tanta contestação causou pelos movimentos sociais. Clinton reprimiu violentamente as manifestações que aconteceram nos EUA, levando o terror e a estratégia policial a novos patamares de brutalidade e ilegalidade.

É uma lista não exaustiva que infunde respeito a qualquer ditador, imagine-se este homem com a oportunidade que um 11 de Setembro proporcionou.

Porquê então apoiar Obama que vem do partido de um terrorista internacional e que lhe permite discursar no seu congresso? Não será por se acreditar que Obama será diferente, que a mudança que ele adoptou como slogan propagandístico seja verdadeira. Seria uma ingenuidade sem medida e um masoquismo crónico. Quando muito, a mudança de que fala Obama refere-se a Bush, uma volta à fase pré-demência, a Clinton.

Bush ou Clinton sem 11 de Setembro, é esta a escolha existente.

No entanto, vemos fortes apoios à esquerda a uma destas alternativas, apoios que chegam ao ponto de se deixar levar na onda da obamania. É uma lógica retorcida, sem dúvida, a que se sente obrigada a fazer esta escolha. Para os mais crentes é a lógica da fé na mudança, palavra-chave no discurso de Obama, para os desconfiados é a lógica do voto útil no mal menor, sob o argumento capcioso de que se deve votar no candidato que mais se aproxima dos nossos pontos de vista. Capcioso porque não existe realmente coincidência de pontos de vista, ninguém de esquerda pode assinar por baixo o que Clinton fez no seu mandato. O que há é a obrigação na escolha entre o mau e o péssimo, naquele de quem têm menos medo.

Esta lógica retorcida não é conjuntural, faz parte do sistema democrático, nasceu com ele e há-se morrer com ele. É o que acontece quando se elege alguém para nos representar, com base num conjunto de ideias difusas e sem real alternativa e diversidade de propostas. Este sistema desincentiva a participação, fomenta a propaganda e o marketing político em vez da verdade e da clareza, mantém a ilusão de que o poder é do eleitor e não das plutocracias.

mescalero

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Comentários

  • karina  On Sábado, 11 Outubro 2008 at 3:02 am

    a politica não é para politicos…

Trackbacks

  • By obama: os factos para além da esperança « AGITAÇÃO on Quinta-feira, 6 Novembro 2008 at 4:05 pm

    […] no poder nos EUA para se tentar perceber a linha de acção do partido. eu já o tinha feito aqui, mas a lista do Mickey está mais completa “NAFTA; the repeal of welfare; the bombing of the […]

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