Superioridade moral do ocidente?

A escravatura moderna tem muitas máscaras tal como afirmou Benjamin Skinner no seu perturbador artigo A world enslaved. Algumas delas pavoneiam-se mesmo debaixo do nosso nariz, nos países ricos e civilizados, nas democracias liberais que se reivindicam de elevados valores morais, mas em que o elevado grau de intolerância a estes fenómenos bárbaros é frequentemente uma amarga hipocrisia.

Nos EUA, algumas penitenciárias continuam a antiga prática do trabalho forçado dos reclusos, no algodão, trigo, milho ou soja, com rendimentos de 4 cêntimos por hora e sujeitos a abusos e violência. Muitos deles passarão ali o resto dos seus dias e nem sempre por terem sido condenados a pena perpétua.

Um aspecto marcante é a enorme percentagem de negros nessas condições, fazendo pensar que muito ficou por fazer pelo movimento pelos direitos civis dos anos 60, e que o aparecimento de um candidato negro à presidência não será o resultado de uma transformação tão profunda nas mentalidades como alguns querem fazer crer.

Evidentemente não é só na existência de escravatura ou de práticas racistas institucionais que a pretensa superioridade moral do ocidente deixa muito a desejar. Tendo ainda como pano de fundo as prisões – centros de controlo e dominação por excelência – dei com um artigo no Corrier Internacional deste mês sobre protestos contra o centro de detenção de imigrantes Cornebarrieu, nos arredores de Toulouse, França. condições assombrosas de encarceramento de pessoas inocentes, famílias inteiras, devidamente gradeado, revestido de arame farpado, câmaras omnipresentes, e, claro, placas de metal para impedir a observação do exterior para o pátio onde brincam as crianças.

Afirmar que a superioridade moral do ocidente é uma falsidade não significa que pelo resto do mundo as coisas estejam melhores. É evidente que os direitos humanos são mais respeitados no ocidente do que em África ou no médio oriente, por exemplo. A mim parece-me é muito simplista esta visão do mundo. A prática das democracias ocidentais é muito diferente quando se trata dos seus próprios países ou de países do terceiro mundo ou em desenvolvimento, é muito diferente quando se trata de cidadãos nacionais ou de estrangeiros. Para lá do muro fronteiriço e fortemente vigiado que existe entre o hemisfério norte e o hemisfério sul, as práticas mudam radicalmente e são numerosos os casos de violações graves dos direitos humanos.

A enorme quantidade de produtos fabricados em condições de escravatura do lado de lá do muro, mas com etiquetas ocidentais bem conhecidas com que somos inundados, é um exemplo maior da forma encapotada com que se pretende manter a pose moral e ao mesmo tempo o nível de vida de riqueza e abundância depredadora.

mescalero

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