A guerra não é um jogo

No início deste mês cerca de 50 activistas reunidos pela organização Direct Action to Stop the War, juntaram-se num protesto em São Francisco contra a campanha do exército de recrutamento de crianças, alegando que o recrutamento de menores de 17 anos é ilegal. Em causa o jogo para a Xbox, America’s Army, produzido pela famosa Ubisoft e propriedade do Departamento de Defesa.

“America’s Army”, available since 2002 as a free download, is a game developed by the U.S. military to instruct players in “Army values,” portray the army in a positive light, and increase potential recruits. The “game” is the property and brainchild of the US Army, which admit freely, and with pride, that it is one of their principal recruitment tools.

Já em Maio o American Civil Liberties Union havia publicado um relatório bastante detalhado em que denunciava o recrutamento feito regularmente a menores de 17 anos. Na terra da liberdade, jovens de apenas 14 anos podem entrar para o programa Junior Reserve Officer Training Corps (JROTC). Este programa opera em 3000 escolas por todo o país. Os cadetes JROTC recebem uniformes militares e participam em exercícios militares e paradas, manejam espingardas reais e de madeira e aprendem história e comportamento militar. O objectivo declarado é melhorar as perspectivas perante a possibilidade de uma carreira no exército.

Em Setembro de 2006 havia 7,5 milhões de utilizadores registados no site do America’s Army. Segundo o próprio exército norte-americano, em declarações perante a Senate Armed Services Committee, os seus esforços de recrutamento, que incluem o America’s Army, têm como objectivo penetrar a cultura juvenil e tornar o exército uma opção no conjunto de interesses dos jovens. Consequentemente, o website do America’s Army tem uma ligação directa para a página web de recrutamento do exército.

Numa sondagem num quartel da Geórgia – a americana, claro – ficou-se a saber que 60% dos recrutas haviam jogado o America’s Army mais de 5 vezes por semana, e que 4% afirmavam que se tinham alistado por causa do jogo.

Na secção FAQ (Frequently Asked Questions) do website do jogo, como resposta à pergunta se crianças de 13 ou mais anos devem ser expostas ao que o exército faz, aparece a resposta

In elementary school kids learn about the actions of the Continental Army that won our freedoms under George Washington and the Army’s role in ending Hitler’s oppression. Today they need to know that the Army is engaged around the world to defeat terrorist forces bent on the destruction of America and our freedoms. The game provides a virtual means to explore a variety of Soldier experiences in basic training, advanced training, and training missions in real world Army units, so that young adults can see how our training builds and prepares Soldiers to serve in units in defense of freedom.

Quanto ao jogo em si, ele pretende ser o mais fiel possível à vida militar. O jogador cria o seu soldado virtual, escolhe a sua especialidade e gere a sua carreira e a sua progressão ao longo da hierarquia desde a carreira de obstáculos até à chefia de um esquadrão. O resto é shot’em up tradicional. Não é considerado dos melhores do género, perdendo claramente para rivais como o Call of Duty 4: Modern Warfare, mas o facto de ser gratuito sempre contribui para a sua divulgação.

Têm sido vários os protestos contra este tipo de recrutamento, envolvendo activistas, escritores, ex-soldados, membros da Iraq Veterans Against the War e educadores preocupados.

Ironicamente, em resposta, a Ubisoft invoca o direito constitucional à liberdade de expressão. A fronteira entre a liberdade de expressão e de manipulação é realmente muito ténue.

“Ubisoft is a leading publisher that strives to create the best entertainment experiences possible. Ubisoft worked with the U.S. Army to create America’s Army games for the Xbox and Xbox 360 in order to deliver a compelling experience for our customers. As we discussed with the Direct Action to Stop the War (DASW) organization, our games are created to meet a diverse range of interests and not to express or endorse any political view. We respect DASW’s First Amendment rights, and would hope they also respect and recognize ours.”

Como li escrito algures “O entretenimento não é a razão pela qual o mundo não presta. É a razão pela qual sabemos que o mundo não presta.”

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Comentários

  • Savonarola  On Segunda-feira, 18 Agosto 2008 at 11:13 pm

    Uma situação escandalosa e a merecer o repúdio geral. É a partir da infância que as mentes se vão formando, ou deformando… A partir daí, o cidadão adulto já tem grande parte do seu manancial cultural e ideológico enraizado. Não pretendo ser simplista, mas como diz a sabedoria popular “de pequenino se torce o pepino”…
    Este sistema capitalista neoliberal que vigora nos nossos tempos, em toda a sua força, incontrolável, fez tábua-rasa da ética humanista que ainda se vivia no século passado, embora já em decadência.
    Se a Ubisoft pode vender este tipo de jogos perversos, pelas leis da economia livre de mercado, e se o Exército “angaria” recursos, através de um jogo legalizado, quem é que vai impedir a primeira de vender e a segunda de beneficiar com o produto vendido livremente?
    E agora, pergunto eu: não há regras? Tudo é possível?

    Um abraço anarquista

  • Tárique  On Quarta-feira, 20 Agosto 2008 at 4:49 am

    descarreguei esse jogo há uns tempos, ainda ele estava numa fase embrionária, suponho. nem me lembro se tinha o mesmo nome. o facto de ser uma valente merda, difícil de jogar, etc. deixou-me na altura mais descansado. pelos vistos evoluiu :(

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