Não faz parte da farda, mas é um ingrediente que os portugueses gostariam de juntar à figura do polícia: força. Um estudo sobre a imagem que a população tem da PSP e das suas condições de trabalho revela ser maioritário o grupo defensor de que os polícias deviam usar mais a força. A pouca severidade com os infractores é, por outro lado, apontada como primeira causa da criminalidade.
Segundo este estudo noticiado ontem no jornal i os portugueses querem uma polícia mais violenta e agressiva do que a que temos, mas isto dito assim não diz praticamente nada. Estamos a falar das opiniões reais das pessoas ou falamos dos resultados das campanhas mediáticas sobre imaginárias ondas de criminalidade? É que quem faz essas campanhas, como a do mítico arrastão na praia de Carcavelos, tem os motivos e os recursos necessários para conseguir facilmente manipular a opinião pública em favor de medidas securitárias.
A parcela cripto-fascista da sociedade está receptiva ao autoritarismo, à brutalidade e à austeridade. Essas pessoas julgam com isso obter segurança, embora a única coisa que abdicar da liberdade pode trazer é menos segurança. Sobre estes não há muito a dizer. Mas a impressão que tenho é que em geral o resto da população, que é a grande maioria, desconfia muito da polícia e das suas manobras para impôr a ordem. Opinião que varia conforme a incidência das tais campanhas mediáticas de sensibilização para o medo, é certo, mas que não retira validade à premissa inicial de que as pessoas acham que a polícia é um corpo hostil à sociedade e adversário dos seus interesses. Quando muito o estudo teria que levar a existência dessas campanhas em conta.
O jornalista Miguel Pacheco põe o dedo na ferida num outro artigo no mesmo jornal i:
Em todos os observatórios de segurança feitos em Portugal, há três perguntas essenciais: 1) Sente-se inseguro? 2) Foi roubado nos últimos seis meses ou ameaçado? 3) Conhece alguém próximo, família ou amigos, que tinha sido? As conclusões são sempre as mesmas: 1) Sim, sinto-me inseguro; 2) Não, não fui roubado nem ameaçado; 3) Não conheço ninguém próximo que tenha sido.
Porque se sente inseguro? Não sei, mas sinto-me. É deste sentimento falso de insegurança que parte outra pergunta: a polícia deve recorrer mais à força para assustar os criminosos? A maioria dos portugueses acredita que sim, segundo a amostra descrita no estudo que o i revela hoje. Para seis em cada dez pessoas, a polícia devia dar mais porrada, ser mais bruta.
Mas não creio que a manipulação mediática seja suficiente para explicar estes “6 em 10″. Há processos mentais muito enraizados transmitidos massivamente pela cultura dominante que não permitem ver o “outro” como um igual e que transformam as relações humanas numa guerra permanente e sem descanso para poder ver esse “outro”, quem quer que ele seja, de cima, ou pelo menos não o ver de baixo. É assim que imaginar a polícia a desancar desgraçados se torna numa imagem menos má e transmite pelo menos esse conforto psicológico de estarmos acima de alguém na escala social. Seja um imigrante desamparado, um pilha-galinhas, um manifestante, um cigano, um miúdo negro que leva um tiro na cabeça numa execução a sangue frio num beco escuro, o que interessa é ver alguém pagar. E, sobretudo, interessa muito mais do que essas histórias de encantar sobre a “Lei e a Ordem” de que os livros e as teorias das elites estão recheados e que servem de mote à actuação dos homens de azul.
“O criado arrebatou ao amo seu chicote e se fustigou com ele para assim poder ser amo”. Kafka
74,7% dos inquiridos eram pessoas com formação ou frequência do ensino superior. A instrução e a cultura em definitivo não dizem nada sobre o que uma pessoa sabe sobre a vida em sociedade, ao contrário de uma ideia muito comum de a cultura e o conhecimento serem o remédio para a violência, a discriminação e até para a guerra. Escravos instruídos com desejos de serem amos são apenas e só escravos mais patéticos que os outros. As oportunidades que tiveram não as souberam aproveitar.