
Um dos factos mais demolidores para a ideia de que a humanidade tem vindo a progredir social, política e culturalmente ao longo dos séculos, é a constatação de que, no dealbar do séc. XXI, a escravatura não só não desapareceu mas há hoje mais escravos do que no auge do tráfico negreiro, quando a escravatura estava legalmente instituída.
E. Benjamin Skinner fez uma pesquisa, durante quatro anos, pelos cinco continentes, da escravatura no mundo moderno, que descreve no artigo A World Enslaved para o Foreign Policy.
In Africa, tens of thousands are chattel slaves, seized in war or tucked away for generations. Across Europe, Asia, and the Americas, traffickers have forced as many as 2 million into prostitution or labor. In South Asia, which has the highest concentration of slaves on the planet, nearly 10 million languish in bondage, unable to leave their captors until they pay off “debts,” legal fictions that in many cases are generations old.
No início do seu artigo ele descreve a conversa que teve com o facilitador do negócio de venda de seres humanos – ou agente de emprego, como ele se autodenomina – dos quais dois terços são crianças. Demorou-lhe apenas cinco horas desde Nova Iorque até conseguir realizar este negócio no Haiti.
Um aspecto para o qual ele nos chama a atenção é o erro de se pensar que grande parte desta escravatura é sexual. Na verdade, para cada mulher ou criança escravizada no comércio do sexo, há pelo menos 15 homens, mulheres e crianças escravizados de outras formas, como o trabalho doméstico ou agrícola.
O que fazemos nós, no ocidente da abundância, para combatermos este flagelo?
Benjamin Skinner apela a novos paradigmas legislativos de luta contra a escravatura. Aqui, não posso deixar de estranhar que se pretenda encontrar uma solução no mesmo código de leis que é irredutível na protecção da globalização capitalista, do novo colonialismo das multinacionais, da cooperação com os regimes corruptos e ditatoriais do terceiro mundo e que permite e fomenta guerras dementes.Romper com esta lógica terá de ser de baixo para cima, dos escravizados para os escravizadores e não o contrário. E nós, no nosso conforto e abundância primeiromundista, teremos que começar por não compactuar com o mercantilismo escravizante, deixando de fornecer hordas de consumidores inconscientes e manipuláveis à lei da oferta e da procura.
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