O poder corrompe. A hierarquia é uma má forma de organização. I

Um artigo no Wall Street Journal que descobri através do Vento Sueste, aborda um tema predilecto dos anarquistas: a corrupção pelo poder. A origem social do artigo levou-o a cair não inocentemente na secção Life and Culture do jornal, junto de curiosidades para entretenimento das massas como Medical Bracelets Go High-Tech. Anda tudo a correr a gastar quase 40 euros nessa porcaria dessa pulseira do equilíbrio e já não resta disposição para raciocinar sobre o facto da corrupção pelo poder estar a ser comparado a lesões cerebrais.

Chamam-lhe o “paradoxo do poder”, porque se percebeu que se por um lado as pessoas boas têm mais possibilidades de chegar a posições de poder, por outro lado acontece uma transformação com a ascensão e essas pessoas deixam de racionalizar da mesma forma, de ser tão honestas, passam a ser mais impsulsivas, descuidadas e rudes, deixam de considerar tantas nuances nas questões como costumavam fazer, e deixam de se colocar no papel dos outros, características que à partida as beneficiaram na sua escalada hierárquica.

Há dois pontos importantes aqui. O primeiro é que ao contrário do que muita gente pensa, o tipo maquiavélico não é uma receita para o “sucesso”. A maioria das pessoas não gosta dos que só se servem a si próprios, não gosta da manipulação, da traição, do desprezo pelo próximo, e tendem a rejeitar os useiros e vezeiros nessas práticas. As pessoas dão poder a quem genuinamente gostam, e esses são aqueles que procuram seguir a regra de ouro da moral “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti” (que, não haja confusões, é um preceito anterior ao cristianismo).

O outro ponto é que o que muita gente pensa acerca do poder corromper, ser de facto verdade. Não sabem como nem porque é que acontece, mas sabem que é assim, e com razão. Neste artigo são referidos vários estudos que ajudam a perceber o que muda no comportamento do que antes era uma pessoa compassiva e solidária.

Dacher Keltner, um psicólogo da Universidade da Califórnia, Berkeley, que realizou alguns desses estudos, chega a notar que pessoas com cargos de autoridade tendem a comportar-se como pacientes neurológicos com um lobo órbito-frontal danificado, uma área do cérebro crucial para a empatia e a tomada de decisões.

Não é uma curiosidade ou um entretenimento para a secção Life and Culture de um jornal. É um assunto que diz respeito à forma mais básica como nos organizamos e nos relacionamos uns com os outros. É uma questão de racionalidade ao escolher as estruturas sociais que sejam as mais proveitosas para todos. Fala-se demasiado em Democracia, República, Partidos e Política. Fale-se antes de hierarquias.

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