
George Blake (Hupa-Yurok, b. 1944)
HANG AROUND THE FORT INJUN 1993
Os índios norte-americanos têm uma expressão que designa os que entre eles se misturavam com os brancos, que se submetiam voluntariamente à sua força e à sua lei e que foram ficando de tal forma aculturados que já se confundiam com os responsáveis pelo genocídio do seu povo. São os “hang-around-the-fort indian”, os índios que vagueiam pelas fortificações do invasor.
Os nossos “hang-around-the-fort indian” são idênticos aos norte-americanos, como se tivessem sido transplantados para outra realidade e circunstâncias mas mantivessem firme a mesma convicção gregária e submissa. Vagueiam pelos partidos políticos constituindo as suas bases sociais, dão-lhes número e força e muitas vezes batem-se encarniçadamente pelas suas cores. As contrariedades e contradições das políticas que emanam do topo da pirâmide partidária são olhadas com benevolência e é com uma certa bonomia que vão permitindo o processo de aculturação do qual acabam por ser agentes activos.
O “hang-around-the-fort indian”, de tanto vaguear pelo forte e se adaptar à nova cultura, mais cedo ou mais tarde deixa de conseguir iludir o desejo de se tornar branco, de se vestir como o branco, ter o que o branco tem, casar com uma branca, ou ser olhado pelos outros como o branco é. Isto não acontece, como sabemos. A nossa versão do “hang-around-the-fort indian” tem o seu próprio mito correspondente, que é o de que qualquer um pode alcançar o poder se para isso tiver qualidades e empenho, que a democracia pela qual se bate é o governo do povo e como tal o povo pode governar. Tal como o capitalismo teve de se adaptar às múltiplas resistências e usar alguns exemplos de novo-riquismo para se mostrar permeável sem ter realmente de mudar, o poder político usa a mesma fórmula para perpetuar a elite e a vontade da elite. O mito mantém-se e nada mudará enquanto não mudar o equilíbrio das forças sociais.







