Confusão no Irão
Reese Erlich é correspondente da Znet e esteve a cobrir as eleições no Irão e os acontecimentos posteriores. É também o autor de Iran Agenda: the Real Story of U.S. Policy and the Middle East Crisis. (Polipoint Press), um livro que tem sido citado como fonte para a teoria de que houve intervenção dos EUA nos protestos iranianos. O que acontece é que ele discorda desta teoria e aponta as falhas na argumentação de analistas de esquerda como James Petras.
Erlich defende que há evidências suficientes a validar a tese de fraude eleitoral. Já em 2005 Ahmadinejad havia ganho as eleições por muito pouco a Karoubi, que alegou fraude mas sem grande capacidade de protesto já que sob o regime clerical iraniano não há forma substantiva de apelo.
Na fase final da campanha para estas eleições, os iranianos estavam muito preocupados com a possibilidade de haver fraude por parte do governo. No dia da eleição, o acesso à contagem dos votos foi impedido a muitos observadores da oposição. A oposição planeou comunicar os resultados das diversas contagens através de SMS a uma localização central mas o governo impediu o uso de SMSs. Assim, a contagem dos votos ficou inteiramente dependente de uma contagem governamental. Há histórias de caixas de votos que chegaram já cheias e de terem sido impressos mais boletins de voto do que os eleitores que constam dos registos oficiais.
Um estudo de dois académicos de Chatham House e do Institute of Iranian Studies at University of St. Andrews, na Escócia, sustentava que para Ahmadinejad ter tido aquela vitória maciça em 1/3 das províncias iranianas ele teria que ter tido os votos de todos os seus apoiantes, todos os novos votantes, todos os eleitores que antes votavam ao centro e de cerca de 44% dos eleitores reformistas.
http://www.chathamhouse.org.uk/files/14234_iranelection0609.pdf
Erlich também sustenta que os argumentos que referem a longa história de intromissões dos EUA no Irão para deduzir que desta vez o império também estaria por trás dos acontecimentos, são meras suposições. E que analisando o que aconteceu no terreno, as conclusões poderão ser diferentes.
Dezenas de milhões de iranianos deitaram-se na sexta-feira, 12 de Junho, convencidos que, ou Mousavi tinha ganho as eleições, ou haveria uma segunda volta entre ele e Ahmadinejad. Quando acordaram no Sábado ficaram pasmados. Tinha sido um golpe de estado. Em dois dias havia centenas de milhares de pessoas demonstrando-se pacificamente nas ruas de Teerão e outras grandes cidades. Seria a CIA capaz de uma mobilização destas em apenas dois dias? Terá a CIA o tipo de redes extensivas que seriam necessárias para controlar ou até influenciar um movimento deste tipo? Esta teoria sobrevaloriza a capacidade da CIA e substima a independência do movimento de massas.
Quanto à acusação de que a CIA está a fornecer tecnologia avançada como o Twitter, Erlich afirma que a grande maioria dos iranianos não têm acesso ao Twitter e que as manifestações foram sobretudo organizadas por telemóvel e passando-palavra.
No decorrer da semana após as eleições o movimento de massas evoluiu de um protesto contra a fraude eleitoral para a exigência mais vasta por liberdades. Pode-se ver isso na mudança da composição das marchas com cada vez mais trabalhadores e mulheres com trajes conservadores.
A juventude iraniana está ressentida com Ahmadinejad pelos ataques das milícias aos jovens e às jovens não casados por passearem juntos e contra as mulheres por não cobrirem suficientemente o cabelo com o hijab. Os trabalhadores ressentem a inflação anual de 24% que lhes retirou poder de compra. Sindicalistas independentes lutam por salários decentes e pelo direito a organizarem-se. Alguns manifestantes reclamam um governo islâmico mais moderado. Alguns reclamam pela separação da religião e do estado e um retorno à democracia parlamentar que tinham antes de 1953.
Erlich argumenta que a oposição iraniana aos EUA é meramente retórica e tem muito pouco de palpável. Ahmadinejad não fez nada para ajudar os palestinianos para além de enviar alguns fundos para o Hamas e a sua retórica de negação do holocausto e de crítica feroz a Israel apenas tem alienado as pessoas por todo o mundo e tornado a vida mais difícil aos palestinianos. Portanto, tirando os falsos ou exagerados problemas levantados pelos EUA para exercer pressão sobre o Irão (programa nuclear iraniano, apoio ao Hamas e ao Hezbollah e apoio a grupos shiitas no Iraque), o Irão não representa uma verdadeira ameaça para os EUA.
resumo/tradução da Znet
mescalero
Quarta-feira, 1 Julho 2009 às 8:09 pm
Olá Mescalero
Li o artigo e de facto há dados que nos devem levar a pensar e a repensar eventuais estratégias de acção e esses dados tem a ver com os novos meios de comunicação que criam possibilidades até há pouco insuspeitadas de organizar as pessoas, pena é que ainda não estejam a ser devidamente exploradas, por outro lado, pelas minhas digressões pela blogosfera fico com a sensação de que a direita está mais bem posicionada do que pessoas de outros quadrantes políticos na exploração da internet e suas potencialidades. Porque será? já pensou nisso.
A título de provocação convido-o a visitar o meu blog pois no ultimo post critico a perspectiva do anarquismo sobre o movimento feminista.
Sexta-feira, 3 Julho 2009 às 9:26 pm
E que crítica! Apetece-me mesmo republicar a minha tradução do Contra o Feminismo que zurze precisamente em feminismos burgueses deste manso calibre. Recomendo apesar das limitações um texto que publiquei em parte no meu blog do trotskista Alan Woods. O contra o feminismo tirei-o do ar por parecer bastante misógino, mas se pensarmos que era dirigida a feminismo de manso calibre e a mulheres emancipadas que o apoiam, está perfeito.
http://www.geocities.com/lipstickinrage/acabarcomfeminismo.htm
Sexta-feira, 3 Julho 2009 às 9:45 pm
Devo acrescentar que partilho todo o desprezo, para não dizer asco, por todos os ideólogos e ideólogas do Capital, contido nesse texto, o que desde já me exclui de qualquer possível “diálogo” com tais criaturas. Espero que o Mescalero não se incomode com as minhas “provocações” que não o são. É bom ver espécimes ao vivo do que eu na minha distracção considerava um espantalho. Nem me vou espantar se na minha próxima entrevista de emprego encontrar uma mulher emancipada a olhar-me de alto a baixo para ver se as farpelas que envergo não trairão a minha falta de ambição carreirista, comprometendo a rentabilidade de mais um antro de reprodutores da miséria geral em que chafurdamos Continuarei, nem que seja entre dentes, a insultar alegremente as mães de muita gente.
Que se pode esperar duma liberal senão superficialidades apologéticas?
Sábado, 4 Julho 2009 às 10:50 am
Bom dia! E muito importante:
http://gataescondida.wordpress.com/2009/07/04/a-liberdade-de-expressao-e-a-blogoesfera/
Bem-hajam!