Humanocracia
Dei com um blog perdido nos confins da blogosfera que profetiza a revolução em Portugal e desenha o que o autor está certo de ser o sistema político que vai existir neste país após o previsível e não distante descalabro da democracia – a Humanocracia. Pelo que entendi, a humanocracia é de lavra própria e construída solitariamente. O primeiro encontro de humanocratas apenas teve a presença do criador. O termo não é novo mas para o efeito até serve.
Não li nem assisti à grande maioria dos vídeos que explicam o sistema, o início bastou-me. Um Conselho de Representantes que é uma espécie de conselho de sábios, composto por 52 pessoas com ligação directa à população. Ou seja, 10 milhões a interagirem directamente com o poder executivo via correio, email, telefone ou fax. Mas a parte mais surpreendente do que pude assistir é a existência do cargo de Protector de Portugal que será ocupado, caso a população portuguesa aceite a Humanocracia, … pelo próprio criador do sistema, com uma compensação financeira correspondente ao salário mínimo e por um período nunca superior a um ano.
Há algo de incrivelmente ingénuo nisto tudo, cândido até, e uma inconsequência desmedida, é verdade, mas o que eu pergunto é, quantos é que nesta terra já perceberam que são precisas transformações radicais para atacar eficazmente os nossos problemas? Que é necessária uma revolução? A mim parece-me que o humanocrata está um passo à frente dos doutores, intelectuais, ilustres e respeitáveis cidadãos desta sociedade que ainda nem isso perceberam. Dou-lhe esse crédito pelo menos.
Uma das coisas que o autor várias vezes repete é que quer críticas construtivas. Ora bem, a humanocracia não é tão revolucionária como o seu criador julga porque afinal continua a basear-se em representantes decisores, ou seja, seria mais uma revolução política que manteria as estruturas de poder intactas. É esta a crítica que faço. Uma revolução verdadeiramente transformadora terá de ser social e não política, pelo controle das estruturas de poder pelas pessoas, pela descentralização.
mescalero
Domingo, 21 Junho 2009 às 12:03 am
Também já tinha dado com ele (ou ele é que deu comigo, pois deixou-me um comentário no Pafúncio!). Fui lá e gostei do que vi. Proponho que o autor seja convidado para se juntar ao Libertário.
Um abraço
Segunda-feira, 22 Junho 2009 às 12:45 pm
Boa! Convide-se o Humanocrata libertário! Avancemos. Entretanto, vou aprofundar a coisa.
Saudações do Marreta.
Segunda-feira, 22 Junho 2009 às 2:04 pm
Boas,
Aqui escreve humanocrata, João Correia.
Alguma explicações sobre a Humanocracia:
1. os representantes não são sábios, claro que tem de possuir conhecimentos da sua área, mas acima de tudo, são gestores de informação, ou seja, recebem a informação dos cidadãos, processam-na e depois transmitem aos restantes técnicos da sua área.
2. Eu digo e afirmo que a Democracia vai acabar baseando-me em muitos factos da sociedade e humanos, ou seja, com a relação causa/consequência, é possivel, analizando a actualidade verificar que a sociedade portuguesa, bem como a mundial, não vai permitir que a Democracia continue.
3. Estamos de acordo numa coisa, a revolução que proponho é social, não politica, no final todo o sistema politico vai desaparecer, pois os representantes serão o que estudaram, ou seja, haverá representantes da Engenhaira, e chamar-se-am engenheiros, não politicos.
Quanto à descentralização não concordo, defendo que haverá uma entidade que gere toda a informação e conhecimento, e que também, tem a obrigação de a divulgar a todos os cidadãos trazendo assim beneficios para toda a sociedade.
No final, todos os seres humanos que vivem aqui funcionaram como uma Equipa e com isto todos avançaremos.
Estou agora a estudar vários temas que regem a sociedade actual, tais como, a Constituição Portuguesa, os Direitos Humanos entre outros, e vou mostrar-vos exctamente porque a Democracia não funciona nem nunca poderá funcionar.
Cumprimentos
João Correia
Segunda-feira, 22 Junho 2009 às 6:57 pm
Caro João Correia,
O termo “sábios” não é para ser levado à letra, apenas quer dizer que essas pessoas são especialistas numa área específica do conhecimento. A ideia de juntar as melhores cabeças na governação é muito antiga, e o que propões é basicamente uma variação dessa ideia. Essa governação por representantes, sejam eles políticos, especialistas ou outra coisa qualquer, chama-se de política. Os políticos são pessoas que administram os assuntos de todos.
Eu defendo que a única forma verdadeiramente democrática de organização social é aquela em que as pessoas se associam livre e autonomamente em estruturas horizontais que resolvam os seus problemas e satisfaçam as suas necessidades. Horizontais porque não há hierarquia interna nem externa, todos têm exactamente o mesmo poder dentro da estrutura e ela não depende hierarquicamente de nenhuma outra. As pessoas podem organizar-se de diversas formas conforme as conveniências, no local de trabalho, no bairro, etc. e a diversos níveis, local, regional, global, mas o que se tem de fazer obrigatoriamente é acabar de vez com essas classes parasitárias que são os políticos e os patrões. A isto se chama de anarquia, o fim da política e do capitalismo, a busca do fim de todas as formas de dominação.
Não sei se a democracia vai acabar a curto ou médio prazo. Acho que a probabilidade de haver derivas autoritárias é maior do que a da democracia se democratizar. De qualquer forma não precisas de demonstrar porque é que a democracia não funciona, estarias a pregar a um convertido.
cumps,
mescalero
Sexta-feira, 26 Junho 2009 às 7:18 pm
Enquanto houver classes os problemas não serão meramente técnicos para que simplesmente se possam resolver como tal,por especialistas. Mesmo que a esse sistema seja associado um mecanismo mais aberto de auscultação ou de participação, mantém a realidade da divisão de classes e portanto a opressão e a opacidade social. Os indivíduos auscultados ou participativos seriam os indivíduos mutilados desta sociedade, com os seus horizontes limitados, com a sua actividade igualmente limitada a reproduzir a sua própria opressão. O problema destas análises é que propõem certas formas de organização como panaceias sem terem em conta o conteúdo do que se organiza.