
George Grosz, O Agitador (1928)
“Com ou sem propaganda abstencionista, não faltam as manifestações de cepticismo na democracia representativa, e o que vemos por todo o mundo é uma colossal perda de legitimidade desses regimes.”
Um longo texto de João Bernardo no Passa Palavra (um site novo que vai ganhando interesse) que aconselho a leitura. Nele, são analisados dados sobre as eleições em diversos países. O panorama parece ilucidativo, a abstenção é uma força tremenda e potencialmente demolidora porque traz consigo a desligitimação das próprias eleições.
“serão raros aqueles que julgam que podem mudar o mundo através do voto. Uns esforçam-se por conservar o tipo de sociedade em que vivem, sem pretenderem alterá-la, e não há dúvida de que as eleições são adequadas para deixar tudo na mesma fingindo que mudam alguma coisa.”
Eu diria que não é preciso ir tão longe como querer “mudar o mundo”. Não querem mudar sequer a política do centrão, e em muitos casos só não mantêm lá as mesmas fuças indefinidamente porque não podem, como acontece nas autarquias.
Opôr-se a esta estagnação sufocante é mais do que abster-se nas eleições, é preciso abster-se politicamente e começar a agir independentemente à procura da autonomia. A inacção não significa neutralidade porque se está a permitir a manutenção do que está. A inacção é ela própria uma contribuição, tem peso e significado.
“É interessante considerar que uma percentagem muito significativa de pessoas prefere mostrar a sua descrença pela democracia representativa pura e simplesmente não votando, em vez de eleger os candidatos de extrema-esquerda que se apresentam em plataformas críticas dessa democracia representativa.”
Talvez seja por essas pessoas terem a percepção que o facto dessas extremas-esquerdas concorrerem às eleições torna-as tão parlamentaristas como as outras forças políticas e, consequentemente, tão sujeitas como elas à perniciosidade do poleiro. Em bom rigor este parágrafo nem faz sentido, porque a crítica que essas forças de esquerda fazem não é à democracia representativa mas às políticas que são levadas a cabo por forças políticas opositoras. Que eu saiba nenhuma força de esquerda se opõe à representatividade e defende a autogestão e a horizontalidade.
mescalero








Comentários
Eu vou demonstrar o meu descontentamento com inacção e acção, uma delas nas urnas.
Saudações do Marreta.
Eu também não sou muito entusiasta das democracias representativas, ou melhor , acho que elas são pouco representativas. Mas o problema, tanto quanto eu saiba, é que não está construído nenhum modelo teórico que a substitua e sem ideias também não se vai a parte nenhuma, a menos que se queira retornar aos totalitarismos de esquerda ou de direita, mas esses já sabemos onde levam e temos obrigação de não deixar que a história se repita.
Então e a alternativa libertária? Tem história, aplicações no terreno e teoria que chegue e que sobre. O anarquismo não tem passado de totalitarisnmo e é a única lógica de pensamento que coloca o problema do autoritarismo no centro das suas preocupações.
Terá algumas arestas a limar concerteza mas, na minha opinião, é por onde teremos que seguir, opondo a autogestão, a horizontalidade e a descentralização à realidade vergonhosa em que está o mundo.
Quem não vota consente! A abstenção serve o interesse dos eleitos. Quantos menos votantes existirem mais fácil se torna a propaganda!
Há muitos em quem votar e para além disso há muitas formas de votar, até em branco!
Todos às urnas para impedir que reclamem legitimidade para decidirem a seu belo prazer!
Um abraço de voto em riste
Caro Pata Negra,
votar é que traz legitimidade aos políticos profissionais. Pôr o papelinho significa que se aceitou as regras do jogo.
abraço e desejos que a febre eleitoral não te contamine
Penso que votar em branco deslegitimiza mais o processo democratico actual do que a abstencao.
Caro Carlos,
O voto em branco pode deslegitimar os vencedores das eleições, não as eleições.