A sociabilidade vigiada e castrada
«As gerações que entraram na sua juventude depois de 1974 não imaginam, por felizmente não poderem imaginar, o que representava viver-se sob controlo policial a vigiar toda a rede de sociabilidade. E já não falo do controlo das opiniões políticas organizadas porque essas, naturalmente, tentavam escapar aos ouvidos da secreta. Refiro-me à opinião solta, ao desabafo, ao comentário, ao protesto espontâneo, ao gosto por isto ou aquilo e à aversão por aqueloutro.
O medo da polícia levava à interiorização de um mecanismo de defesa das emoções, da capacidade crítica e do impulso da opinião. Os portugueses aprenderam e refinaram a arte do cochicho, do subentendido e de se exprimirem através de meias palavras bem medidas. Perderam o prazer da alegria espontânea e substituíram-na pela sublimação da revolta e do desacordo. E do prazer. Temente dos ouvidos perigosos, o nosso povo adoptou uma espécie de misantropia social. Que se exercia sobre os incontinentes compulsivos da revolta pois aquele que manifestava abertamente esta ou aquela opinião era imediatamente suspeito de ser aventureiro, provocador ou bufo. Ainda hoje se notam traços da herança desta forma consolidada de contenção verbal e opinativa.»
continuar a ler o João Tunes no Caminhos da Memória
mescalero
Este artigo foi publicado em Quarta-feira, 7 Janeiro 2009 às 7:37 pm, na(s) categoria(s) controle social, fascismo, história . Pode seguir as respostas a esta entrada através do feed RSS 2.0 Pode deixar uma resposta ou fazer trackback do seu próprio site.