Novo tiroteio num bairro
Mais um tiroteio num bairro e voltamos ao mesmo. Por todo o lado a corrente de “pensamento” dominante clama por mão-de-ferro do estado. Quer seja à velha maneira autoritária, com mais agentes policiais, melhor armados e com licença para matar, quer seja revestida da película liberal da meritocracia, pugnando pela restrição ou extinção de subsídios ou outros apoios sociais.
Torna-se pungente ler os comentários por essa net fora. Pela auto-vitimização de gente de bem, trabalhadora e cumpridora da sua carga fiscal. Gente que é ameaçada pelos negros, ciganos, brasileiros, beneficiários do RSI e, em geral, todos aqueles desenquadrados da sua mundividência. Do mesmo modo, seguindo o mesmo reflexo acção/reacção, a corrente de “pensamento” dominante atira-se como um lobo esfaimado à contestação que episodicamente se faz ouvir, como nos casos do movimento Verde Eufémia e da manifestação antiautoritária e anticapitalista do 25 de Abril de 2007.
Os chavões são auto-explicativos: nos bairros sociais anda tudo no esquema; os negros juntam-se em gangues criminosos; os ciganos são uma classe que se julga com direitos especiais; o trabalho dignifica; acabe-se com a subsídiodependência; a polícia tem que fazer cumprir a ordem. É muita fineza argumentativa.
O facto desta corrente de “pensamento” ser de facto dominante, com voz mediática liderada por comentadores todo-o-terreno como Miguel Sousa Tavares, e institucional como a daquela juíza pouco ajuizada que no texto da sentença descrevia os ciganos como bandidos porcos, feios e maus, o facto de pertencer a uma maioria ruidosa não diminui o seu ímpeto auto-vitimizante.
Por último, as derivas racistas e xenófobas, ganham terreno quando viram o bico ao prego e catalogam de fascistas das palavras quem ousa dar os nomes correctos a esses comportamentos, quando sabemos que é precisamente no fascismo que germina o racismo e a xenofobia.
mescalero