Somália

Posted in somália on Sexta-feira, 13 Novembro 2009 by mescalero

Ainda os bons piratas somalis, dito na primeira pessoa por quem beneficia com a sua actuação.

«A expropriação bancária está tão desfasada do assalto a bancos como estão os políticos da vida real.»

Posted in grécia on Sexta-feira, 13 Novembro 2009 by mescalero

Entrevista a Yiannis Dimitrakis, libertário preso pelas forças repressivas gregas por expropriar bancos.

You justified your participation in the robbery where you were arrested by talking of an act of “expropriation”: What is the difference between an expropriation and a common robbery?

The difference is made by the subject of the action, even if for me the two terms are as detached as politicians are from real life. For a person to name their action “expropriation” they need nothing more than to pass over from their natural reaction against the conditions they are faced with, to the conscious revolutionary position: which is no other than the struggle against the powerful of this world. The difference is signified by the subject of the action.

Penso que vale bem a pena ler a entrevista toda que entra por temas sensíveis da acção libertária como a violência para com a polícia e tem alguns momentos bem conseguídos de crítica e recolocação dos problemas. Yiannis Dimitrakis dá-nos uma visão comprometida com uma luta social consequente que, concorde-se ou não com os aspectos mais polémicos, é a de quem está a dar muito e enfrenta forças poderosas e sem escrúpulos.

Baixas expectativas

Posted in Uncategorized on Segunda-feira, 9 Novembro 2009 by mescalero

Diz um estudo de uma multinacional de recursos-humanos que 72 e dois por cento das empresas portuguesas pondera baixar os prémios ou o salário base aos executivos de topo.

Será que estes ajustes, a acontecerem, são uma questão de justiça e de moralização, como é dito neste post do Delito de Opinião? É concerteza uma forma de pensar partilhada por muita gente, quer à esquerda (pela diminuição da desigualdade), quer à direita (por ser o mercado a funcionar), mas haverá realmente alguma ponta de moralidade ou de justiça na colossal desigualdade de rendimentos que existe entre trabalhadores e executivos, com ou sem ajustes, com ou sem milhares de despedimentos e ponderações sobre se se baixa ou não prémios chorudos, ou sou eu que estou a ver mal a coisa?

Não me parece. Acho é que as expectativas sobre a possibilidade de justiça e de moralidade são tão baixas, que se chama de moralização e de justiça à manutenção da situação, desde que por um momento e ainda que numa medida despicienda o topo da hierarquia partilhe as perdas do povo.

A opinião e as formas mais radicais que ela poderia assumir são logo à partida tão restritas, tão auto-limitadas, tão pouco ambiciosas, que tende para o zero a possibilidade de mudança efectiva no que diz respeito à salubrização da sociedade. Não se deseja nada de profundo ou transformador, apenas limitar os danos, arrecadar vitórias simbólicas ou morais, com que se engana a consciência.

O mérito dos que têm estado nos degraus cimeiros da hierarquia social é conseguir limitar a opinião ao inócuo, manter aceso o debate sobre tudo o que não arrisque revolucionar a ordem instituída, mantendo a ilusão da participação. As eleições são um bom exemplo e talvez dos maiores do que é o engodo lançado aos que desejam manifestar-se. Não conheço nenhuma eleição que tivesse provocado uma mudança profunda para melhor numa sociedade. No entanto, a promessa do pequeno avanço e da pequena reforma apela directamente a essa mentalidade de baixa expectativa e com isso mantém os interessados iludidos numa batalha perdida a priori. O raciocínio é que não se podendo ter o que se quer, pelo menos se tenha o que se pode. Sendo o problema deste raciocínio que o que se pode, é basicamente a manutenção da situação.

Solidariedade com as 11 pessoas detidas na manifestação anti-autoritária contra o fascismo e o capitalismo de 25 de Abril de 2007

Posted in repressão on Sexta-feira, 6 Novembro 2009 by mescalero

Parasitas essenciais

Posted in Uncategorized on Quarta-feira, 4 Novembro 2009 by mescalero

«Compreende-se que gente dos partidos e deputados sejam, como diz a DGS, “essenciais ao normal funcionamento da sociedade”. Pode perguntar-se é como, sem padeiros que lhes façam o pão, sem motoristas que os levem ao Parlamento e às sedes, sem pessoal das águas e da electricidade que lhes garanta o banho diário, a energia para os computadores e a luz para estudar os dossiês, sem educadoras e auxiliares de infantários que lhes tomem conta dos filhos enquanto trabalham e toda a mais gente não “imprescindível” nem “essencial ao normal funcionamento da sociedade”, uns e outros poderão cumprir as suas funções.» Manuel Pina, Jornal de Notícias

Não. Não se compreende em que é que deputados e burocratas de partido possam ser essenciais à sociedade. Nem sequer é para ser compreendido. É para ser aceite.

O resto que o Manuel Pina diz é óbvio, é o tipo de coisa que até devíamos estranhar alguém achar necessário escrever num jornal. Ter uma noção clara das tarefas que são essenciais numa sociedade e das pessoas que carecem de mais protecção deveria ser um dado adquirido. É umas das coisas sem que uma sociedade funcional não pode passar.

Não é o caso, mas se realmente houvesse uma crise de saúde pública, as vacinas sempre poderiam ser confiscadas pela população e distribuídas racionalmente. Sem parasitas a passar à frente dos outros.

 

Da anarquia ao anarquismo

Posted in anarquia on Terça-feira, 3 Novembro 2009 by mescalero

«Durante dezenas de milhares de anos, os seres humanos viveram em sociedades sem qualquer instituição política formal ou autoridade constituída. Acerca de 6000 anos atrás, pela altura da chamada aurora da civilização, começaram a surgir as primeiras sociedades com estruturas formais de hierarquia, comando, controle e obediência. No início, estas sociedades hierárquicas eram relativamente raras e isoladas principalmente no que é agora a Ásia e o Médio Oriente. Lentamente elas aumentaram de tamanho e influência, usurpando, por vezes conquistando e escravizando as sociedades tribais anárquicas circundantes em que a maioria dos humanos continuava a viver. Por vezes independentemente, por vezes em resposta a pressões de fora, outras sociedades tribais também desenvolviam formas hierárquicas de organização social e política. Ainda assim, antes da era da colonização europeia, grande parte do mundo permanecia essencialmente anárquico, com pessoas em várias partes do mundo a continuar a viver sem instituições formais de governo até o século XIX. Foi apenas no século XX que o globo foi definitivamente dividido em estados nacionais em competição que passaram a reclamar soberania de praticamente todo o planeta.

A ascensão e triunfo da sociedade hierárquica está longe de ter sido pacífica. A guerra e a civilização marcharam sempre de mãos dadas, deixando para trás um rasto de destruição dificilmente concebível para as suas numerosas vítimas, muitas das quais tinham pouca ou nenhuma compreensão das forças alinhadas contra elas e o seu chamado modo de vida primitivo. Foi uma disputa tão desigual como implacável.

Inocentes do que é o governo, tendo vivido sem ele toda a sua vida durante milhares de anos, as pessoas das sociedades anárquicas não tinham a concepção de anarquia como uma forma distinta de viver a vida. Viver sem governantes era algo que eles simplesmente faziam. Consequentemente, o anarquismo, a ideia que viver sem governo é um modo de vida superior, nunca lhes teria ocorrido, faltando-lhes algo com que comparar a anarquia até ao momento em que era tarde demais.

Foi apenas quando surgiram as sociedades hierárquicas que as pessoas dentro delas começaram a conceber a anarquia como uma alternativa séria. Algumas, como os antigos filósofos taoístas na China, olharam para trás para uma idade sem governação, quando as pessoas viviam em paz consigo próprias e com o mundo. Várias seitas cristãs aguardaram com expectativa a segunda vinda, quando o amor igualitário e fraternal de Cristo e dos seus discípulos triunfariam sobre o mal. Racionalistas, como Zeno, fundador do estoicismo na Grécia antiga, e mais tarde os pensadores do Renascença e do Iluminismo, previram uma nova era de luzes, em que a razão poderia substituir a coerção como a principal forma de resolver os assuntos humanos.

Apesar de nenhum destes primeiros defensores da anarquia se tenha descrito a si mesmo como anarquista, o que eles partilhavam era a oposição à autoridade coerciva e relações hierárquicas baseadas no poder, riqueza e privilégio. Em contraste com outros radicais, eles também rejeitavam qualquer papel autoritário ou de privilégio para eles próprios na luta contra a autoridade e na criação de uma sociedade livre.

Encontramos atitudes idênticas entre alguns revolucionários da era moderna. Durante a Revolução Francesa, os enragés e os radicais igualitários opuseram-se às ditaduras e governos revolucionários como sendo uma contradição nos termos, e tentaram abolir todas as distinções hierárquicas, incluindo entre governantes e governados.

Mas foi apenas por volta das revoluções de 1848 na Europa que o anarquismo começou a emergir como uma doutrina distinta.»

Do prefácio de Anarchism: A Documentary History of Libertarian Ideas, Volume One: From Anarchy to Anarchism, de Robert Graham

 

Tácticas para a anarquia

Posted in anarquia on Segunda-feira, 26 Outubro 2009 by mescalero

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«No seu livro Anarchisme et changement social, Gaetano Manfredonia faz o delineamento geral das principais tácticas usadas pelos anarquistas na sua luta. Estes pontos são uma síntese realizada por Manuel García, colaborador do portal alasbarricadas.org:

- a confrontação directa (“homens e mulheres de acção”; levantamentos camponeses e operários; luta armada na Ucrânia makhnovista, na Espanha da guerra civil, na luta contra as ditaduras militares na América Latina, …),

- o sindicalismo (intervenção não só no mundo do trabalho mas nas lutas sociais em geral, promovendo a organização horizontal dos de baixo frente à exploração e à opressão),

- a educação (propaganda, criação de escolas populares, de ateneus libertários…)

- a realização (criação no presente, aqui e agora, de espaços libertários que prefigurem a sociedade a que se aspira: cooperativas, comunidades, centros sociais, formas de relação social libertária…).

Um indivíduo, um grupo, uma organização, não têm porque se restringir a uma ou outra táctica e desprezar o resto. Pode-se usá-las simultaneamente e diria, inclusive, que o êxito da nossa acção reside em saber conjugá-las bem, dar-lhes a cada uma a importância devida e fazer uso delas na medida adequada a cada momento.

De facto, é francamente difícil prescindir de alguma das quatro patas da acção anarquista que Manfredonia enumera. Um sindicato, por exemplo, terá que fazer uso de medidas de força, distribuir propaganda pelo resto dos trabalhadores, levar a cabo tarefas de formação de militantes e procurar no funcionamento diário ser uma prefiguração da sociedade libertária.»

retirado de Ordem sem Autoridade

Onda Livre

Posted in media on Sábado, 24 Outubro 2009 by mescalero
«No próximo Sábado dia 24 de Outubro a Tertúlia Liberdade estreia-se na Rádio com o programa Onda Livre. A emissão será feita às 21 horas através da Rádio Zero. Um programa de uma hora recheado de músicas e entrevistas a não perder.
Para dar voz aos que não tem voz. Aos moradores dos bairros, aos trabalhadores precários, aos imigrantes, aos jovens e a todos que lutam por um mundo diferente e melhor. A Liberdade está no Ar.»
Rádio Zero

“Só pode ser coisa de anarquistas”

Posted in acção directa, imigração on Sábado, 24 Outubro 2009 by mescalero

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A polícia belga diz que a vandalização do escritório de uma empresa de construção civil “só pode ser coisa de anarquistas”.

Mas não, não se trata da simples tentativa de incriminar a dissidência que as polícias de todo o mundo tanto gostam de fazer. Esta empresa está a construir um novo centro de detenção de imigrantes ilegais, o que a torna cúmplice dessa política de encarceramento ilegítimo. Nas paredes foram escritos os slogans “Sem fronteiras” e “127 tris NUNCA”. Foi também espalhada tinta preta por todo o lado que danificou equipamento eléctrico e mobiliário.

Não se sabe ao certo se foram anarquistas que vandalizaram o escritório, mas o facto de se pensar que aquilo “só” poderia ter sido feito por anarquistas faz-nos pensar o que andam a fazer as outras forças que se afirmam de resistência.

via Agência de Notícias Anarquistas

Quem disse que os apoiantes de Obama não têm espírito crítico?

Posted in obama on Quinta-Feira, 22 Outubro 2009 by mescalero

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“Se Obama não terminar as guerras no Iraque e no Afeganistão, fechar Guantánamo e parar de bombardear o Paquistão, juramos pelos colhões de Deus que votamos por ele com um pouco menos de entusiasmo em 2012.”

For Fuck’s Sake (A Webcomic): Another Successful Protest

Irão: 40 blogs para controlar a opinião pública

Posted in irão on Quinta-Feira, 22 Outubro 2009 by mescalero

«Iranian Revolutionary Guard Corps (IRGC) announced that more than forty blogs have been created to struggle against IRGC’s enemies on cyber space.

These new blogs have launched to publish IRGC’s dogmas and are aiming to change people’s mind. Moreover, these blogs are intended to avoid current Iranian issues to be debated online and replace them instead with governmental propaganda.

It should be mentioned that The Islamic Revolutionary Guards Corps announced the launch of 10.000 blogs for the paramilitary Basij forces at the end of 2008 “to control the Internet and other digital devices including SMS“»

Global Voices

Para acompanhar o que vai acontecendo no Irão: Rise of The Iranian People (Tracking, reporting and analyzing the movement and events taking place in Iran)

Últimas da situação de António Ferreira

Posted in antónio ferreira de jesus, prisões on Segunda-feira, 19 Outubro 2009 by mescalero

“Após 14 dias, António Ferreira abandona greve de fome, mas continua em luta

O António encontra-se ainda no pavilhão de segurança, isolado de toda a gente, sem qualquer objecto pessoal, fechado numa cela pequena, apenas com 1 hora de “pátio”, num buraco mais pequeno que a própria cela e com uma grade no topo.

Desde a sua transferência à força para este pavilhão que António iniciou um protesto que a prisão tentou encobrir. Só agora, através da visita do advogado, confirmámos que ele nunca esteve em greve de sede e que começou a comer no dia 12 de Outubro, por razões de saúde. Tinha já debilidades e dores no aparelho digestivo. O nosso companheiro não pretende ceder nas suas reivindicações quanto às celas onde o querem pôr e, portanto, insiste na transferência para outro estabelecimento prisional.

Continuaremos a informar, assim que se souber mais novidades.”

Retirado de Rede Libertária

ACÇÃO DE SOLIDARIEDADE COM ANTÓNIO FERREIRA EM ROMA

Hoje, dia 8 de Outubro, realizou-se uma acção de solidariedade com António Ferreira junto à Embaixada Portuguesa em Roma. A acção consistiu numa concentração de 7 pessoas à porta da embaixada, distribuindo informação sobre a situação do António, enquanto outras três entraram exigindo o envio de faxes de protesto às instituições responsáveis por esta tortura. Simultaneamente meteu-se uma faixa na entrada na qual se podia ler : “BASTA TORTURE. ANTÓNIO FERREIRA LIBERO! ( por motivos técnicos não podemos mostrar as bellissimas fotos tiradas). Depois de alguma insistência foi garantido que os faxes foram enviados e que as entidades seriam informadas da situação actual do Antonio.
O objetivo foi cumprido, destabilizar o normal funcionamento desta instituição, de modo a pressionar os responsáveis pela situação actual em que Antonio se encontra e para que se apercebam que estamos atentos e solidários.

Não nos calaremos perante este silêncio!

Não vamos parar até que António esteja livre…com folclore ou sem ele!

Retirado de Rede Libertária

O comunismo

Posted in comunismo on Sexta-feira, 16 Outubro 2009 by mescalero

por Anônimo

retirado de Café Moçambique

Tudo se passa como se cada um fosse apenas cada um. Como se vivêssemos numa sonhada “diversidade absoluta”. Essa situação é muito bem exemplificada por um edifício numa metrópole: cada qual se acredita totalmente livre em seu apartamento, mas o próprio edifício em que se encontram não é expressão de suas individualidades. Isso torna esses indivíduos supostamente livres uma massa amorfa que é unificada não pela livre relação entre si, mas por uma coisa morta, o prédio. Não há, de fato, nenhuma liberdade, mas apenas utilização, tanto do edifício quanto do apartamento.

O segredo de toda dominação está em reduzir tudo ao individual, à personalidade, ocultando desse modo o comum, a inter-relação, o comunal. Assim, o poder surge separando os indivíduos do que é comum a eles e apresentando a si mesmo como sendo o que é comum a todos.

Por isso, a crítica da sociedade que só vê os “maus” dominando os “bons”, ou a “sociedade” oprimindo os “indivíduos”, ou vice-versa, faz exatamente o jogo da classe dominante.

Os comunistas, ao contrário, procuram apreender o comum, as inter-relações. Porque é ocultando de todas as maneiras as inter-relações e separando os indivíduos das relação entre si que a dominação ocorre, massificando-os. A finalidade dos comunistas, a comunidade humana mundial, ou comunismo, é a livre associação dos indivíduos. Isto é, seu objetivo é uma inter-relação, uma comunidade, que possibilite o livre desabrochar das individualidades e o livre encontro entre elas.

Tal objetivo não será alcançado pela educação (“consciência”, “moralidade”) dos indivíduos e nem alterando as relações (“meio”, “condicionamentos”) das quais eles são separados. Tudo isso reforçaria a separação entre os indivíduos e suas inter-relações, reforçando então a dominação (não importa se dominadores forem trocados por outros), por mais que o objetivo não seja este. A praxis revolucionária consiste em destruir essa separação, de modo que a dominação perca todo o seu fundamento.

***

Há milhares de anos, a humanidade vivia em agrupamentos espalhados pelo globo e isolados entre si. Essas sociedades não conheciam dinheiro, mercadoria e nem estado e quase sempre viviam em guerra umas com as outras. Serras quase intransponíveis, florestas quase intransponíveis, mares quase intransponíveis, desertos quase instransponíveis separavam essas diversas sociedades. Todos esses obstáculos naturais dificultavam muito o contato entre essas sociedades e, portanto, para os transpor, era necessário um grande sacrifício. Essa condição implicava que o contato com outros povos só podia ser feito levando-se em conta esse trabalho, esse sacrifício. Considerando-se também que cada agrupamento via os outros agrupamentos como inimigos e não-humanos (no mínimo como se fossem animais de outra espécie, no máximo, como subespécies), sempre prontos para entrar em guerra, transpor essa separação só foi possível mediante coisas que eram transportadas e que interessavam os povos separados a ponto de motivá-los a suportar todo o sacrifício de levar esses objetos de um povo a outro. O transporte dessas coisas exigia trabalho e, conseqüentemente, essas coisas só podiam ser dadas se fossem trocadas por outras coisas consideradas de mesmo valor, isto é, que tivessem a mesma quantidade de sacrifício, a mesma quantidade de trabalho, caso contrário o contato se converteria novamente em guerra e isolamento das comunidades, porque eles considerariam isso uma injustiça. Então, com base nessa separação entre as diversas comunidades, surge o mercado, primeiro com o escambo e depois com as coisas sendo trocadas por dinheiro, a representação do equivalente geral (trabalho).

O mercado surge sob o selo dessa separação. Ele unifica o separado mas só se sustenta pela separação. Depois de milhares de anos, e após um longo e tortuoso caminho, foi acontecendo algo que modificou fundamentalmente a situação: desde o século XVI, o mercado foi unificando a humanidade mundialmente, ultrapassando as separações naturais que antes eram seu fundamento. Mas o mercado se perpetuou. Quando as separações naturais são ultrapassadas, o mercado só pode continuar existindo se novas separações, dessa vez artificiais (socialmente determinadas), forem criadas: cercas, muros, polícia, fronteiras, divisão social do trabalho, propriedade privada. A mercadoria se torna algo autônomo que molda a sociedade (e destrói a natureza) para que sua condição – a separação e o trabalho a ela relacionado – não seja destruída. Nesse momento, o mercado se torna capital.

Para que esse processo simultâneo de unificação planetária da humanidade e perpetuação do mercado fosse possível, foi necessário aquilo que Marx chamou de acumulação primitiva do capital: os seres humanos são violentamente separados dos meios de produção, privados de todos meios que possibilitavam a realização e criação de seus desejos e necessidade, tornando-os proletários.

Essa privação, a instituição da propriedade privada, é a condição si ne qua non para a perpetuação do mercado, ou seja, ela é a condição fundamental para o surgimento (e, depois, para a manutenção) do capital. Separando os seres humanos dos meios de se satisfazerem, o capital não apenas faz com que eles sejam obrigados a ter dinheiro para comprá-los, como também obriga que os proletários se submetam aos proprietários privados (não importa se forem indivíduos particulares, instituições, coletividades cooperativas, comunitárias ou autogeridas, Estados – como os chamados “socialistas” – etc.), ou seja, aos detentores de dinheiro, aos capitalistas, para conseguirem o próprio dinheiro que o capital os força a ter para se satisfazerem.

Com a acumulação primitiva do capital, um órgão especializado na violência é aprimorado para garantir, com polícia e exércitos, que a propriedade privada não seja destruída pelos que são privados de propriedade, isto é, para que ela não seja destruída pelos proletários. Mediante o mercado, pela primeira vez na história, o Estado se torna absolutamente totalitário, regulando todas as inter-relações entre os indivíduos, ameaçando incessantemente com armas, bombas, cassetetes e prisões toda e qualquer tentativa dos proletários para se libertarem de sua condição. A “liberdade” (não importa se “conquistada” ou “concedida”) que o estado dá de escolher os governantes (a democracia) não somente não muda esse fato, como também ilude os proletários, fazendo-os, mediante a cidadania, participar do órgão responsável pela manutenção violenta, sanguinária e brutal de sua própria escravidão, de sua própria condição de proletários.

A mesma (i)lógica explica a divisão do mundo em fronteiras, em nações, países, pátrias, blocos etc., recriando assim artificialmente, e levando às últimas conseqüências, aquilo que era a condição mais primitiva do mercado: a separação entre as várias tribos e comunidades e a conseqüente tensão sem fim diante da guerra iminente entre si. Os diversos capitalistas (individuais ou coletivos) só podem manter o capital mundial mantendo ao mesmo tempo a tensão de um estado de guerra permanente (concorrência) em cada uma das compartimentações da sociedade que ele criou: empresas, países, política, etnias, indivíduos… Na medida em que o capital consegue dominar os proletários, estes participam de todas essas compartimentações, sendo jogados uns contra os outros em todos os tipos de guerras que a classe dominante faz entre si. Sem exceção, todas as ideologias que falam em defender a pátria, a nação, em lutar contra os imperialistas (ou a favor), em se orgulhar de ser trabalhador, em se unir contra “culpados” (bodes espiatórios), em apoiar partidos de esquerda ou de direita, em apoiar a democracia contra o fascismo ou o fascismo contra a democracia etc., procuram fazer com que os proletários se submetam aos mecanismos de compartimentação pelos quais são lançados ao matadouro e dominados. Os proletários não tem nada a fazer em nenhum tipo de guerra exceto voltar as armas contra seus superiores, contra todos esses carniceiros empresariais, militares, políticos, comerciais, gerenciais, eleitorais etc., e se solidarizar com todos os demais proletários do mundo inteiro, constituindo a comunidade humana mundial que lhes possibilite se libertar da condição de proletários, destruindo o capital juntamente com todas as suas compartimentações (política, economia, estados, empresas, propriedade privada, trabalho, família, nações etc.). Qualquer pretensão de “diálogo” ou “democracia” com os carniceiros não passa jamais de um mecanismo pelo qual se procura levar o proletariado a aceitar a carnificina que o capital os submete permanentemente, dia a dia, segundo a segundo, por sua própria natureza.

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Normalizar o impensável

Posted in controle social, guerra on Quinta-Feira, 15 Outubro 2009 by mescalero

“During the Cold War, a group of Russian journalists toured the United States. On the final day of their visit, they were asked by their hosts for their impressions. “I have to tell you,” said their spokesman, “that we were astonished to find, after reading all the newspapers and watching TV, that all the opinions on all the vital issues were, by and large, the same. To get that result in our country, we imprison people, we tear out their fingernails. Here, you don’t have that. What’s the secret? How do you do it?”

“In the British media, as in the United States, as in Australia, rapacious western actions are reported as moral crusades, or humanitarian interventions. At the very least, they are represented as the management of an international crisis, rather than the cause of the crisis.”

“The unspoken task of the reporter in Vietnam, as it was in Korea, was, to normalise the unthinkable – to quote Edward Herman’s memorable phrase. And that has not changed.”

Transcrições da palestra de John Pilger’s na Universidade de Columbia, Nova Iorque, 2006 – ‘War by Media

“O importante ensaio de Edward S. Herman, “A Banalidade do Mal”, nunca pareceu mais adequado. “Fazer coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na ‘normalização’ “, escreveu Herman. “Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directa feita por um conjunto de indivíduos … e outros a trabalharem para melhorar a tecnologia (um melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada, bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É função do peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o público geral.”

John Pilger

Neto de Estaline processa o jornal Novaya Gazeta por difamar o seu avô

Posted in humor on Sábado, 10 Outubro 2009 by mescalero

Não devo ser o único a pensar assim

Posted in obama on Sexta-feira, 9 Outubro 2009 by mescalero

Dar o prémio Nobel da Paz a um senhor da guerra é o mesmo que dar o prémio de cozinheiro do ano a Hannibal Lecter.

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Isaltino vai ganhar em Oeiras. Viva o Isaltino!

Posted in eleições on Quinta-Feira, 8 Outubro 2009 by mescalero

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Viva também o Avelino Ferreira Torres, a Fátima Felgueiras, o Santana Lopes, o Alberto João, o Mesquita Machado, o Sócrates e os amigos deles.

Questiono-me que poderosa magia pode dar alguma credibilidade e decência a esta democracia representativa. Há pensos rápidos para estas queimaduras do terceiro grau?

Diga-se que apesar do elevado abstencionismo, pessoas sãs no que respeita ao voto, ainda são muitos os que persistem no mesmo caminho esgotado. É como jogar no Euro Milhões umas vezes a seguir às outras sem nunca sair nada, com a singela nuance de que o Euro Milhões efectivamente sai a alguém, e na política, só saírem duques e jokers.

A hipocrisia preguiçosa

Posted in rsi on Quinta-Feira, 8 Outubro 2009 by mescalero

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«Agora estou a lembrar-me de ti… tu eras o gajo que estava sempre a mandar-me arranjar um trabalho».

Rendimento Social de Inserção: Entraram 50 mil em seis meses

E para os hipócritas que passam a vida a chamar de preguiçosos aos que mais precisam:

Mais de 38 mil beneficiários do rendimento social de inserção são trabalhadores

Percam mas é a preguiça e informem-se.

Julgamento de 11 presentes na manifestação Anti-Fascista e Anti-Capitalista de 25 de Abril de 2007

Posted in prisões, repressão on Terça-feira, 6 Outubro 2009 by mescalero

Uma igreja sofrida

Posted in igreja católica on Terça-feira, 6 Outubro 2009 by mescalero

Este blog recebeu um comentário de um tal de Felipe Góes que merece por sua vez um comentário. O post comentado é já de finais do ano passado e falava de uma campanha claramente racista do clero de uma cidade polaca. Os panfletos diziam nem mais nem menos isto:

“Uma lâmpada sem azeite é escura, um humano sem oração também.” Em cima um menino negro diz: “Que pena que a oração não aclare a pele”

E o comentário de Felipe Góes foi este:

«Não acredito que pelo passado de figuras heróicas que o clero católico da Igreja Católica Romana na Polônia possa ser racista, como a conferência episcopal polonesa e seus fiéis. O catolicismo polonês foi o fator de união nacional contra invasões de suecos luteranos, russos ortodoxos e posteriormente russos comunistas e seus lacaios.

Figuras como o Cardeal Adam Sapieha, o Cardeal Stefan Wyszynski e o Papa João Paulo II são figuras heróicas da resistencia católica contra o regime comunista polones e a tirania soviética. O padre Jerzy Popieluszko é também outra importante figura, sendo morto pelos comunistas poloneses.

Uma igreja tão sofrida jamais expressaria racismo ou discriminação por já ter sentido isto na pele por séculos.»

Será demais acharmos que aconteça o que acontecer, nada poderá mudar esta opinião? Toda a informação que este comentador tem sobre a Igreja Católica o faz pensar que uma atitude racista do clero polaco é inverosímil. Ou, por outro lado, toda a informação que este comentador filtrou sobre o assunto o leva a tirar essa conclusão. A mente humana é altamente selectiva, escolhe o que quer incorporar e ignora o resto, o que na sabedoria popular poderia ser traduzido na máxima “a quem procura porcos até as moitas lhe roncam“.

Uma pessoa pode ver na misoginia do clero uma defesa dos valores tradicionais do papel da mulher na sociedade mas não é isso que vai transformar a moita num porco. Pode-se achar a campanha contra o uso do preservativo uma defesa da castidade e da família mas a moita não deixa de ser moita. Pode-se esquecer o anti-semitismo histórico da Igreja Católica, mas a moita continua a não ser um porco. Pode-se ignorar o papel conivente da Igreja Católica com o nazismo e preferir valorizar os que na Igreja ajudaram judeus a escapar, mas estes porcos não fazem com que as outras moitas se transformem em porcos. Pode-se preterir a homofobia católica aos sagrados valores da família, mas mais uma vez a moita está lá a roncar alto e bom som. Pode-se esquecer a cumplicidade dos papas e das hierarquias católicas com os regimes fascistas de Salazar, Franco, Pinochet, Somoza da Nicarágua e tantos outros, com o pretexto de se combater comunistas ou outras ameaças úteis para o fascismo, mas os porcos serão sempre porcos e as moitas, moitas.

Não pretendendo ser enfadonho com mais exemplos já de si demasiado conhecidos, deixo o assunto neste ponto: não é tarefa impossível encontrar porcos na Igreja Católica, mas que essa instituição é sobretudo um maciço compacto de arbustos roncadores, ai isso é inegável. O que é preciso é desligar o filtro perceptual que rejeita os aspectos negativos.

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