África do Sul: Greve de 70 mil por aumentos de 13% na construção dos estádios do mundial

Sexta-feira, 10 Julho 2009

South Africa WCup Strike

70,000 strike for 13% pay rise at world cup stadium sites

“This week 70,000 workers started an indefinite strike action on the sites of the stadiums being built for the 2010 football World Cup in South Africa. These construction workers are organised by the country’s National Union of Mineworkers, and the union’s spokesperson Lesiba Seshoka spoke to The Commune about the action.”

[...]

Many western media reporting on the strike have said that they show that South Africa is not going to be ready to hold the tournament. What is your attitude to these claims?

It is no concern of mine whether the stadiums are built, I am a trade unionist and I am fighting for the cause of the workers. Our union is here to fight, not to do as we are told by government or the LOC or managers. Our right to protest and to strike is something we have without question, World Cup or no World Cup. It is our democratic right. We are not going to be stopped from standing up for ourselves by such claims.”

a ler no The Commune


Em Forma De Despedida – Síntese Sobre A Vida E Obra De Edgar Rodrigues

Sexta-feira, 10 Julho 2009

edgar-rodrigues

Foto daqui

Antônio Francisco Correia, que utilizava o pseudônimo de Edgar Rodrigues, nasceu em Angeiras, ao norte da cidade de Matosinhos, distrito do Porto (Portugal), em 12 de março de 1921, filho de Manuel Francisco Correia e Albina da Silva Santos.
Seu pai era militante anarco-sindicalista e participava do “Sindicato das Quatro Artes”, filiado à Confederação Geral do Trabalho (C.G.T.) e à Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.), envolvendo vários ofícios da construção civil de Matosinhos. Seus primos, Armindo da Silva Sarilho e Manuel Sarilho, também pertenciam ao Sindicato.
No final de 1933, esse sindicato foi obrigado a fechar sua sede oficial por causa da repressão da ditadura militar comandada por Antônio Oliveira Salazar. Parte do seu acervo cultural foi guardado na casa da família de Manuel Francisco Correia, onde também passou a realizar-se reuniões noturnas de sua diretoria clandestinamente.
O garoto Antônio Francisco Correia, atrás da porta, escutava com muita curiosidade tudo o que era conversado naquelas reuniões.
Em 1936, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E., depois P.I.D.E.), invadiu de madrugada a moradia de Manuel Francisco Correia e o prendeu.
Antônio Francisco Correia foi várias vezes visitar o seu pai no presídio da polícia política, durante as dez semanas em que ele esteve preso, sem nenhum processo ou julgamento. Quando Manuel Francisco Correia foi solto, foi punido mais uma vez ao ser despedido do seu emprego, o que fez a família passar por uma situação econômica muito difícil.
Dois anos depois, Correia (como era chamado pelos mais próximos) escreveu seu primeiro artigo para o diário “Primeiro de Janeiro” (Porto), mas não foi publicado por causa da censura. Nessa mesma época, já havia começado a escrever os rascunhos que formariam seu primeiro livro.
No dia 1º de maio de 1939, Antônio Francisco Correia e alguns amigos faltam ao serviço como forma de protesto (nessa época era proibido manifestar-se no 1º de maio) e reúnem-se para reafirmar as origens anarquistas dessa data, que é um marco universal.
No dia 1º de março de 1940, filia-se ao Grupo Dramático Flor da Mocidade (teatro amador), de Santa Cruz Bispo, município de Matosinhos, onde conhece Ondina dos Anjos da Costa Santos, que foi sua companheira por toda a vida. Também fez parte da diretoria do Grupo Dramático Alegres de Perafita, onde conheceu o histórico militante anarquista José Marques da Costa.
Em setembro de 1946, o anarquista Luis Joaquim Portela e mais cinco presos políticos fogem da Fortaleza de Peniche. Dois anos depois, Antônio Francisco Correia conhece pessoalmente Luis Portela (1) na clandestinidade e ajuda o companheiro a obter documentação falsa, porém, devido uma delação Luis Joaquim Portela é preso novamente (2).
No dia 19 de julho de 1951, Antônio Francisco Correia conhece pessoalmente o notório escritor anticlerical Tomás da Fonseca e, no dia seguinte, para fugir da perseguição política da ditadura portuguesa, embarca para o Brasil.
Assim que chegou ao Rio de Janeiro, conheceu os companheiros: Roberto das Neves, Manuel Perez, Giacomo Bottino, Ida Bottino, Germinal Bottino, Pascoal Gravina, José Romero, Ondina Romero, Angelina Soares, Diamantino Augusto, José Oiticica, João Peres Bouças, Carolina Peres, Ideal Peres, Afonso Vieira e outros…
A pedido dos dois últimos entregou um texto de sua autoria sobre a ditadura em Portugal, que foi publicado no jornal anarquista Ação Direta (3) e logo estava participando do grupo editor do mesmo. Em seguida, com a ajuda de companheiros como Enio Cardoso, Domingos Rojas e Benjamim Cano Ruiz (entre outros), passou a publicar também textos na imprensa libertária internacional e adotou o pseudônimo de Edgar Rodrigues (4).
Entre os dias 9 e 11 de fevereiro de 1953, participou de um encontro anarquista brasileiro, na residência de José Oiticica, onde conheceu outros militantes ácratas que atuavam em São Paulo: Edgard Leuenroth, Adelino Tavares de Pinho, Lucca Gabriel, Osvaldo Salgueiro e outros… Nesse período, também conheceu pessoalmente o escritor e jornalista espanhol Victor Garcia (Tomás-Germinal Gracia Ibars), o poeta e escritor romeno Eugen Relgis e o companheiro paraguaio Ceríaco Duarte.
Publicou seu primeiro livro “Na Inquisição do Salazar” em maio de 1957, pela Editora Germinal, de Roberto das Neves. Tornou-se membro da Sociedade Naturista Amigos de Nossa Chácara (S.N.A.N.C.) (5).
Em 7 de março de 1958, por iniciativa do Grupo Libertário Fábio Luz (6), foi fundado o Centro de Estudos Professor José Oiticica (C.E.P.J.O.), em homenagem ao recém-falecido José Oiticica (22-07-1882 – 30-06-1957), com o propósito de continuar a prolífera obra do valoroso companheiro. O grupo que assinou a ata de fundação do C.E.P.J.O. era composto por: Edgar Rodrigues, Afonso Alves Vieira, Ideal Peres, Esther de Oliveira Redes, Seraphim Porto, Manuel dos Santos Ramos, Francisco de Magalhães Viotti, Germinal Bottino, Fernando Gonçalves da Silva, Pedro Gonçalves dos Santos, Roberto Barreto Pedroso das Neves, Enio Cardoso e Raul Vital (Atayde da Silva Dias).
Entre as atividades do C.E.P.J.O., constavam conferências, cursos e leituras comentadas sobre arte, política, história, vegetarianismo, psicologia, teatro, cinema, literatura, geografia, sociologia e anarquismo. Os convites para as atividades eram feitos na imprensa diária. O Centro também promoveu, em conjunto com outros grupos, comícios do movimento estudantil e uma campanha pela libertação e asilo político do espanhol anarquista José Comin Pardillos.
Outra iniciativa do C.E.P.J.O. foi a criação da Editora Mundo Livre que publicou os seguintes livros anarquistas: “O Retrato da Ditadura Portuguesa” de Edgar Rodrigues (1962), “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos” de José Oiticica (2ª Edição – 1963), “Anarquismo – Roteiro de Libertação Social” de Edgard Leuenroth (1963), “O Humanismo Libertário e a Ciência Moderna” de Pedro Kropotkine (1964) e “Erros e Contradições do Marxismo” de Varlan Tcherkesoff (1964).
O Centro de Estudos Professor José Oiticica teve uma atuação anarquista durante doze anos (cinco deles sob a repressão da ditadura militar brasileira, 1964-1985), até ser invadido, assaltado e fechado pelas forças armadas (7). As prisões começaram no dia 8, e continuaram nos dias 9, 10, 15 e 21 de outubro de 1969.
Entre os presos, acusados e denunciados estavam: Edgar Rodrigues, Pietro Michele Stefano Ferrua, Ideal Peres, Antonio Costa, Fernando Gonçalves da Silva, Manoel dos Santos Ramos, Paulo Fernandes da Silva, Roberto Barreto Pedroso das Neves, Eli Briareu de Oliveira, Mário Rogério Nogueira Pinto, Antonio Rui Nogueira Pinto, Maria Arminda Sol e Silva, Antonio da Silva Costa, Elisa da Silva Costa, Roberto da Silva Costa e Carlos Alberto da Silva. Foram impronunciados: Michelangelo Privitera e Esther de Oliveira Redes (8).
Militantes anarquistas anônimos (pela conjuntura política da época) de São Paulo e de outras partes do Brasil contribuíram financeiramente com os gastos judiciais, numa grande demonstração de solidariedade libertária. O processo durou até 30 de novembro de 1971.
No mesmo período em que foi vítima desse processo militar, Edgar Rodrigues iniciou, numa atitude pioneira, a publicação de livros resgatando a história do movimento anarquista no Brasil (9), e posteriormente, a história do movimento libertário português (10).
Edgar Rodrigues escreveu 62 livros (entre 1957-2007) publicados, sobretudo, no Brasil e em Portugal, mas também na Itália, Venezuela e Inglaterra (alguns na terceira edição).
Por volta de 1976, participou junto com a companheira Elvira Boni, do documentário “O Sonho Não Acabou” de Cláudio Khans, exibido algumas vezes na televisão e em eventos libertários.
Colaborou com o jornal anarquista O Inimigo do Rei enquanto ele existiu (1977-1988) e também escreveu mais de 1760 artigos na imprensa de 15 países, entre eles: Voluntad (Uruguai), Solidaridad Obrera (França), A Batalha (Portugal), El Libertario (Cuba), Tierra y Libertad (México/Espanha), El Sol (Costa Rica), C.N.T. (França), La Protesta (Argentina), Solidaridad Gastronómica (Cuba), L’Adunata Dei Refrattari (Estados Unidos), Ruta (Venezuela), Reconstruir (Argentina), Voz Anarquista (Portugal), El Libertario (Venezuela) e muitos outros.
Entre abril-maio de 1986, participou do congresso pela reorganização da Confederação Operária Brasileira (C.O.B.), na sede do Centro de Cultura Social de São Paulo, na rua Rubino de Oliveira, número 85, Brás.
Em 21 de agosto de 1986, foi um dos sócios-fundadores do arquivo Círculo Alfa de Estudos Históricos (C.A.E.H.) juntamente com: Nito Lemos Reis, Antonio Martinez, José Carlos Orsi Morel, Jaime Cubero, Francisco Cuberos, Felix Gil Herrera, Liberto Lemos Reis, Fernando Gonçalves da Silva e Ideal Peres (11).
Nesse arquivo deixou boa parte dos materiais de estudo (livros, jornais, fotos, cartas, atas, memórias manuscritas e demais documentos, muitos deles cópias únicas) que reuniu durante toda uma vida dedicada ao resgate da trajetória das atividades anarquistas no Brasil e no Mundo. Conseguiu todo esse acervo visitando velhos companheiros anarquistas, convencendo-os a escreverem suas memórias, entrevistando-os, tendo correspondência com eles, comprando e conseguindo doações desses materiais com militantes históricos do movimento (novamente numa iniciativa pioneira para seus contemporâneos), tais como: Joaquim Fernandes, Manuel Lopes, Luís Saturnino, Manuel Perez, Ideal Peres, José Marques da Costa, José Francisco dos Passos, João Perdigão Gutierrez, Manuel Marques Bastos, Pedro Catallo, João Navarro, Adriano Botelho, Elias Iltchenco, entre outros… (12)
Não obstante, o sofrido esforço de Edgar Rodrigues para adquirir esses materiais e todos os riscos que enfrentou durante a ditadura militar para preservar esses documentos, os membros remanescentes do Círculo Alfa de Estudos Históricos, na pessoa de José Carlos Orsi Morel, trocou as fechaduras do imóvel do arquivo, localizado na rua Gonçalves Dias, número 220, no bairro do Brás (São Paulo), impedindo que Edgar Rodrigues tivesse acesso ao arquivo, para logo em seguida, numa manobra obscura, expulsá-lo da entidade sem direito à defesa, demonstrando uma atitude completamente antagônica com os princípios anarquistas e os conceitos básicos de justiça.
Em abril de 2002, Rute Coelho Zendron fez “Um Estudo Sobre Edgar Rodrigues” pela P.U.C., que virou um interessante vídeo documentário sobre a vida e obra de Edgar Rodrigues (13).
Edgar Rodrigues faleceu na noite de 14 de maio de 2009 (quinta-feira), na sua residência, no bairro do Méier (Rio de Janeiro), devido uma parada respiratória. Deixa esposa, filhos, netos, uma vasta obra anarquista para ser estudada e um grande exemplo a ser seguido.

Marcolino Jeremias

Notas

1. Ambos tinham trocado correspondência entre 1932-1937, enquanto Luis Joaquim Portela estava preso.

2. Em 10 de setembro de 1952.

3. “Fala Um Operário Português” foi o primeiro artigo publicado por Antônio Francisco Correia, o texto saiu no jornal Ação Direta (Rio de Janeiro), número 80, em maio/junho de 1952.

4. Antônio Francisco Correia também chegou a escrever usando pseudônimos como Varlin, Zola e outros…

5. A Sociedade Naturista Amigos de Nossa Chácara foi registrada em 9 de novembro de 1939, e o grupo que iniciou o trabalho de construção dela era composto por: Germinal Leuenroth, Nicola D’Albenzio, Virgilio Dall’Oca, Justino Salgueiro, Salvador Arrebola, Antônio Castro, João Rojo, Benedito Romano, José Oliva Castillo, Roque Branco, Antônio Valverde, Cecílio Dias Lopes e Lucca Gabriel. A Nossa Chácara/Nosso Sítio foi uma iniciativa essencial para a reorganização do movimento anarquista no Brasil, após o final da ditadura de Getúlio Vargas, e foi palco de importantes congressos e encontros libertários entre 1948 até o final dos anos sessenta.

6. O Grupo Libertário Fábio Luz (depois Grupo de Ação Libertária), formado por militantes como: Edgar Rodrigues, Seraphim Porto, Roberto das Neves, Enio Cardoso e Afonso Vieira, existiu entre a morte de José Oiticica e a fundação do Centro de Estudos Professor José Oiticica. Com o passar do tempo após a fundação do Centro, o Grupo Libertário foi absorvido pelo C.E.P.J.O.

7. Os militares também invadiram moradias, escritórios profissionais, a Editora Germinal e roubaram centenas de pertences desses locais.

8. Edgar Rodrigues ajudou a esconder Esther de Oliveira Redes num sítio em Jacarepaguá, e através de troca de serviços “comprou” o impronunciamento dela e retirou vários documentos do processo que poderiam comprometer outros companheiros.

9. Entre os livros clássicos de Edgar Rodrigues que resgatam a história do movimento anarquista no Brasil, estão: Socialismo e Sindicalismo no Brasil (1675-1913) de 1969, Nacionalismo e Cultura Social (1913-1922) de 1972, Trabalho e Conflito (1900-1935) de 1977 e Novos Rumos – Pesquisa Social (1922-1946) de 1978.

10. Os principais livros de Edgar Rodrigues que refazem a trajetória dos anarquistas em Portugal são: O Despertar Operário Em Portugal (1834-1911) de 1980, Os Anarquistas e os Sindicatos Em Portugal (1911-1922) de 1981, A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura (1922-1939) de 1981 e A Oposição Libertária em Portugal (1939-1974) de 1982.

11. Esther de Oliveira Redes não assinou a ata de fundação, mas esteve presente nas reuniões e contribuía para a manutenção do arquivo até comunicar seu desligamento do mesmo.

12. Conseguiu com Sônia Oiticica, por exemplo, cartas de quando seu pai José Oiticica, esteve preso na Ilha Rasa (Rio de Janeiro) entre 1924-1925.

13. Outros estudos acadêmicos sobre Edgar Rodrigues foram feitos, entre eles, constam-se: a tese “Edgar Rodrigues: I Tempi e Le Opere” de Marco Mazzeo, Universidade de Nápoles/Itália (2005) e o trabalho de pós-doutorado (monografia) “A Sementeira de Idéias – Edgar Rodrigues Uma Vida Dedicada A Memória Anarquista”, de Anna Gicelle Garcia Alaniz, para a Faculdade de Educação da Unicamp (2008).

via Eidos Info Zine

mescalero


Confusão no Irão

Quarta-feira, 1 Julho 2009

Reese Erlich é correspondente da Znet e esteve a cobrir as eleições no Irão e os acontecimentos posteriores. É também o autor de Iran Agenda: the Real Story of U.S. Policy and the Middle East Crisis. (Polipoint Press), um livro que tem sido citado como fonte para a teoria de que houve intervenção dos EUA nos protestos iranianos. O que acontece é que ele discorda desta teoria e aponta as falhas na argumentação de analistas de esquerda como James Petras.

Erlich defende que há evidências suficientes a validar a tese de fraude eleitoral. Já em 2005 Ahmadinejad havia ganho as eleições por muito pouco a Karoubi, que alegou fraude mas sem grande capacidade de protesto já que sob o regime clerical iraniano não há forma substantiva de apelo.

Na fase final da campanha para estas eleições, os iranianos estavam muito preocupados com a possibilidade de haver fraude por parte do governo.  No dia da eleição, o acesso à contagem dos votos foi impedido a muitos observadores da oposição. A oposição planeou comunicar os resultados das diversas contagens através de SMS a uma localização central mas o governo impediu o uso de SMSs. Assim, a contagem dos votos ficou inteiramente dependente de uma contagem governamental. Há histórias de caixas de votos que chegaram já cheias e de terem sido impressos mais boletins de voto do que os eleitores que constam dos registos oficiais.

Um estudo de dois académicos de Chatham House e do Institute of Iranian Studies at University of St. Andrews, na Escócia, sustentava que para Ahmadinejad ter tido aquela vitória maciça em 1/3 das províncias iranianas ele teria que ter tido os votos de todos os seus apoiantes, todos os novos votantes, todos os eleitores que antes votavam ao centro e de cerca de 44% dos eleitores reformistas.
http://www.chathamhouse.org.uk/files/14234_iranelection0609.pdf

Erlich também sustenta que os argumentos que referem a longa história de intromissões dos EUA no Irão para deduzir que desta vez o império também estaria por trás dos acontecimentos, são meras suposições. E que analisando o que aconteceu no terreno, as conclusões poderão ser diferentes.

Dezenas de milhões de iranianos deitaram-se na sexta-feira, 12 de Junho, convencidos que, ou Mousavi tinha ganho as eleições, ou haveria uma segunda volta entre ele e Ahmadinejad. Quando acordaram no Sábado ficaram pasmados. Tinha sido um golpe de estado. Em dois dias havia centenas de milhares de pessoas demonstrando-se pacificamente nas ruas de Teerão e outras grandes cidades. Seria a CIA capaz de uma mobilização destas em apenas dois dias? Terá a CIA o tipo de redes extensivas que seriam necessárias para controlar ou até influenciar um movimento deste tipo? Esta teoria sobrevaloriza a capacidade da CIA e substima a independência do movimento de massas.

Quanto à acusação de que a CIA está a fornecer tecnologia avançada como o Twitter, Erlich afirma que a grande maioria dos iranianos não têm acesso ao Twitter e que as manifestações foram sobretudo organizadas por telemóvel e passando-palavra.

No decorrer da semana após as eleições o movimento de massas evoluiu de um protesto contra a fraude eleitoral para a exigência mais vasta por liberdades. Pode-se ver isso na mudança da composição das marchas com cada vez mais trabalhadores e mulheres com trajes conservadores.

A juventude iraniana está ressentida com Ahmadinejad pelos ataques das milícias aos jovens e às jovens não casados por passearem juntos e contra as mulheres por não cobrirem suficientemente o cabelo com o hijab. Os trabalhadores ressentem a inflação anual de 24% que lhes retirou poder de compra. Sindicalistas independentes lutam por salários decentes e pelo direito a organizarem-se. Alguns manifestantes reclamam um governo islâmico mais moderado. Alguns reclamam pela separação da religião e do estado e um retorno à democracia parlamentar que tinham antes de 1953.

Erlich argumenta que a oposição iraniana aos EUA é meramente retórica e tem muito pouco de palpável. Ahmadinejad não fez nada para ajudar os palestinianos para além de enviar alguns fundos para o Hamas e a sua retórica de negação do holocausto e de crítica feroz a Israel apenas tem alienado as pessoas por todo o mundo e tornado a vida mais difícil aos palestinianos. Portanto, tirando os falsos ou exagerados problemas levantados pelos EUA para exercer pressão sobre o Irão (programa nuclear iraniano, apoio ao Hamas e ao Hezbollah e apoio a grupos shiitas no Iraque), o Irão não representa uma verdadeira ameaça para os EUA.

resumo/tradução da Znet

mescalero


Justice for Iranian Workers

Sexta-feira, 26 Junho 2009

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“26 June 2009 – Global Solidarity Action Day

Cuatro organizaciones sindicales mundiales, que representan a más de 170 millones de trabajadores en todo el mundo, han pedido que el 26 de junio sea un día de acción destinado a exigir justicia para los trabajadores y trabajadoras iraníes. Las manifestaciones se llevarán a cabo frente a las embajadas y consulados de Irán para protestar por la continua negación de los derechos sindicales y las detenciones de sindicalistas en el país.

La CSI (Confederación Sindical Internacional), la IE (Internacional de la Educación), la ITF (Federación Internacional de Trabajadores del Transporte), la UITA(Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines) han formando una coalición para este evento, el acontecimiento más reciente de una campaña permanente destinada a velar por la justicia y los derechos sindicales en Irán. Amnistía Internacional respalda esta campaña.

Se pide:-
* La liberación inmediata e incondicional de todos los sindicalistas encarcelados, y en especial de Mansour Osanloo, Ebrahim Madadi y Farzad Kamangar, así como la anulación de las recientes sentencias a un año de prisión impuestas a cinco dirigentes de la Unión de Trabajadores Azucareros de Haft Tapeh;
* Reconocimiento incondicional de todas las organizaciones independientes representantes de trabajadores en Irán, y la readmisión de los trabajadores y trabajadoras que ha sufrido represalias por el hecho de apoyar a dichas organizaciones;
* Ratificación por parte del gobierno iraní de los Convenios
fundamentales de la OIT sobre libertad de asociación y sobre el derecho a la negociación colectiva;
* Firma de convenios negociados colectivamente entre sindicatos independientes y empleadores.”

—————————————-

No site Justice for Iranian Workers pode-se acompanhar as diversas acções de protesto e solidariedade que estão a acontecer por todo o mundo.

Ligação fornecida por anon no Libertário

mescalero


A velha e nobre arte de mijar do alto em presidentes

Quinta-Feira, 25 Junho 2009

Um olhar anarquista sobre os protestos no Irão

Quinta-Feira, 25 Junho 2009

A entrevista a seguir, realizada pelo portal anarquista espanhol de notícias A Las Barricadas, com apoio de José Antonio Gutiérrez (colaborador de anarkismo.net), foi realizada com Payman Piedar, militante anarquista e exilado iraniano, que participou de numerosas iniciativas libertárias tanto nos Estados Unidos como no Peru. Além disso, foi o editor da revista anarquista Nakhdar, editada em inglês e em farsi (pode se consultar mais sobre sua trajetória política e sua análise geral sobre a situação iraniana na seguinte entrevista realizada pelos companheiros do NEFAC¹). Na entrevista que se segue, tentamos elucidar, em meio às distorções da mídia ocidental e da censura dos meios de comunicação iranianos, as chaves para compreender o que realmente está se passando nestes dias no Irã. Ainda que não estejamos ante uma sublevação de caráter revolucionário, no calor da agitação social sempre crescem as probabilidades de subversão popular.

A Las Barricadas > Se diz que estas são as manifestações mais importantes desde a Revolução de 1979… Você vê alguma continuidade entre estes protestos e aquelas?

Payman Piedar < Sim, é verdade que estas mobilizações ou manifestações são as maiores e mais importantes desde a revolução de 1979. Na realidade, desta forma começou a revolução de 1979.

O Shah, ditador e marionete do imperialismo yankee, cometeu o erro de não aceitar nenhuma crítica a seu poder máximo e o povo, que já estava farto de seu reinado de tantos anos de repressão, por fim se levantou, e lhe mandou ao lixo da história.

E claro que há uma continuidade na revolução, ou melhor, na insurreição de 1979, porque na realidade não houve revolução social, mas uma revolução política, uma mudança do controle político de um regime monárquico a um religioso-teocrático, foi seqüestrada pelos mulahs (sacerdotes), com o Aiatolá Ali Khamenei como chefe máximo, e na realidade iniciou outra era de sistema ditatorial.

Então, o povo anseia e se mata pela liberdade como pelo pão e a água. Especialmente os jovens, já que 65% da sociedade iraniana têm menos de 30 anos e já estão fartos de ser humilhados e reprimidos. Mais ainda, este movimento que já aparece como outra revolução a qual espero que continue nestes momentos, e a continuação da revolução constitucional de 1905 que não chegou a seu fim. A liberdade, ainda assim sendo de tipo burguês e limitada, é algo que a sociedade iraniana não teve até hoje. Olha só, o governo democrático da burguesia nacional do Dr Mosadegh não durou mais de 2 anos, de 1951 a agosto de 1953, porque os yankees e a CIA fizeram seu primeiro experimento com a derrota de seu governo, ainda antes de derrotar a Arbenz na Guatemala, em 1954.

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O Paraíso da Burocracia

Segunda-feira, 22 Junho 2009

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Publico aqui uma entrevista da Folha de São Paulo a Mauricio Tragtenberg (1929-1998), um dos mais importantes sociólogos brasileiros, professor de ciência política e socialista libertário, sobre um dos temas que mais o interessavam, a burocracia, que ele via como “a grande jaula de ferro que aprisionava os indivíduos, bloqueava os projetos de emancipação e facilitava o cerceamento da ação política das classes sociais. Escreveu a respeito um livro fundamental, Burocracia e Ideologia, publicado em 1974 pela Editora Ática.”

O Paraíso da Burocracia – Entrevista de Maurício Tragtenberg a Maria Carneiro da Cunha

FOLHETIM: Qual é a natureza na burocracia?

TRAGTENBERG: Sob o capitalismo ocidental, a burocracia é, ao mesmo tempo, o corpo que “organiza” a produção nas empresas privadas e semipúblicas e representa o poder executivo no funcionamento das grandes unidades administrativas, constituindo parte integrante do Estado. No modo capitalista de produção, ela administra uma coletividade. Para servir ao capital, recebe dele um conjunto de imunidades e privilégios (mordomias) e pulveriza a responsabilidade. Ela é independente e soberana perante a coletividade e possui relativa autonomia em relação à classe dominante, que utiliza para definir seus métodos de recrutamento, sistema de promoção, estatuto e condições de trabalho. Nas sociedades pós-capitalistas, atua como nova camada dominante, ocupando o espaço que antes pertencia à antiga classe capitalista. A burocracia na sociedade capitalista procura legitimar-se em nome dos interesses nacionais; nas sociedades pós-capitalistas, isso é feito em nome dos interesses do proletariado.

FOLHETIM: A burocracia é necessária na educação?

TRAGTENBERG: Um dos elementos em que a burocracia fundamenta sua legitimação consiste em se atribuir a tarefa de “organizar” tudo. Sob o nazismo, a palavra de ordem do regime era: organização. Existe aí uma confusão interessada. Qualquer grupo humano, tendo em vista as finalidades que persegue, organiza-se para tanto. Mas a burocracia é outra coisa: está montada como estrutura de controle, dispondo de imunidades e privilégios. As formas de organização das coletividades visando aos seus próprios fins ocorrem através de uma igualdade básica entre seus membros; a burocracia “em nome da organização”, usa e abusa das imunidades e privilégios inerentes a ela enquanto poder acima dos organizados.

Por isso, ela tem como religião o culto da hierarquia, ou seja, o culto da distribuição desigual do poder, onde poucos podem muito e muitos não têm voz. Assim, na universidade, a principal preocupação da burocracia é o controle: ela procura controlar um saber inexistente ou escasso, da mesma forma que são escassos os recursos a ela atribuídos. Se entendermos a universidade como a sede de produção e reprodução de conhecimentos, a burocracia cumpre um papel inteiramente supérfluo. Se entendermos a comunidade acadêmica como o conjunto de alunos e professores, a burocracia tem um papel parasitário, convertendo os meios (controles) em fins e desestimulando a criação intelectual.

É impossível termos uma universidade avançada num capitalismo retardatário

FOLHETIM: Como a burocracia se institucionaliza nos vários níveis de ensino?

TRAGTENBERG: Esse fenômeno é inerente a qualquer Estado, mas no Estado autoritário ele se acentua, pois há a tendência à centralização monocrática. Cito o exemplo da UNESP, que é a realização de uma utopia burocrática. Nessa instituição, a organização é centralizada e autoritária, as decisões são de cima para baixo e os postos-chave são ocupados por docentes aposentados pela USP ou outros cuja meta científica é uma aposentadoria, constituindo uma cúpula medíocre, sem imaginação ou espírito universitário. O resultado é o pior possível; além da evasão de pessoal qualificado, ocorrem a falta de pesquisa de nível superior (o pessoal de Ciências Humanas surge como novo “Cristo”); a ausência de articulação científica entre as áreas que ocupam os vários campi; a carreira universitária retrógrada, que leva o docente a passar a vida fazendo tese e não ciência (algumas vezes a própria UNESP não reconhece os títulos que “cobra” de seus docentes). Sem falar do salário dos professores, mais baixo do que é pago pelas próprias universidades federais.

Em suma, foi na UNESP que melhor se traduziu a síndrome autoritária do Estado brasileiro, pois lá se recorrei a todas as “salvaguardas” possíveis para manter uma reestruturação desestruturante. Foi esse o destino dos antigos institutos isolados que hoje integram a UNESP. Ela é a realização do modelo estado-novista nos dias que correm, é o passado oprimindo o presente como fantasma, com os mortos governando os vivos. Evidentemente, isso ocorre na medida em que estes se deixam governar por aqueles.

FOLHETIM: Os fatores externos influenciaram essa burocratização?

TRAGTENBERG: Os motivos são inúmeros, havendo articulação entre fatores externos e internos. No plano externo, é impossível termos uma universidade avançada num capitalismo super-retardatário como o existente no Brasil. entre nós, o capitalismo vem realizando seu processo de acumulação, utilizando o Estado como força econômica e tendo como conseqüências a repressão política efetuada pelo Estado; a criação de organismos burocráticos especializados nessa repressão; a intervenção nas associações de classe e sindicatos; a formação de dois “conglomerados” políticos – Arena e MDB – o primeiro no poder e o segundo apenas como eterno aspirante; a institucionalização da censura; a socialização do medo, etc.

Tudo isso deu origem a um período de decréscimo da participação popular nos processos decisórios e fortaleceu a onipotência da burocracia como agente qualificado do poder econômico, que é exercido em nome da sociedade, mas em benefício de alguns poucos. Nesse quadro, as universidades – especialmente as recém-formadas como a UNESP – tiveram seu comando entregue àqueles que possuíam como título maior sua cumplicidade com o poder, muito mais do que sua qualificação científica.

No plano interno, a divisão dos docentes em inúmeros escalões, por decretos do poder, através de “reformas” que são verdadeiras “restaurações”, o culto do “doutorismo” substituindo o “bacharelismo”, constituíram fatores de transformação dos campi universitários em cemitérios de esperanças perdidas. No caso específico da UNESP, há outro elemento a considerar: distribuída pelas cidades do interior a instituição é vulnerável à politicagem local, que interfere nas nomeações dos diretores de suas unidades. Ainda estamos na época da enxada e do coronelismo, sem o voto.

FOLHETIM: A burocratização afeta a transmissão do conhecimento e a liberdade de ensino?

TRAGTENBERG: Sem dúvida, mas é necessário acentuar que nenhum campus universitário é uma ilha. A falta de liberdade de associação e pensamento na sociedade global torna inviável a liberdade acadêmica. A hegemonia do serviço de segurança na estrutura universitária socializa a insegurança. Quando um operador de xerox da Universidade do Rio Grande do Norte, em natal, envia ao serviço de segurança da mesma e este ao MEC uma entrevista publicada na revista IstoÉ sobre trabalho médico, passando por cima do reitor, isso significa que a liberdade está em sursis; quando um ex-chefe de “segurança e informação” da Universidade Federal do Paraná converte-se em seu reitor, isso quer dizer que o regime da “incompetência treinada” é o predominante.

O cancro que corrói a universidade burocrática é que a escolha de seus dirigentes se dá menos pela competência acadêmico-científica e muito mais por sua cumplicidade com o poder. Geralmente, eles sobem pelo elevador de serviço (por serviços prestados ao poder) e não pelo social (por serviços prestados à sociedade global). É claro que a universidade burocratizada, onde a função mais importante não é a produção de conhecimentos, mas o controle sobre eles e as pessoas, tende, no plano interno, à multiplicação das “panelas burocráticas”. No tipo dessas “panelas”, professores investidos do poder de coordenadores de programas de graduação ou pós-graduação, chefes de departamentos, institutos ou faculdades, colocam seus colegas sob “estado de sítio”. Estabelece-se na instituição universitária uma certa “ditadura acadêmica” em que a dissensão é punida com o ostracismo, onde a fofoca de corredor age como retaliação do “excluído”.

FOLHETIM: Quais as conseqüências para a qualidade de ensino e a orientação das pesquisas?

TRAGTENBERG: As piores possíveis. Hoje temos curso de pós-graduação, que não são pós coisa alguma, na medida em que não houve graduação. Eles se constituem em reciclagem de uma graduação inexistente e também cumprem outro papel requerido pelo sistema: manter a maior parte do tempo possível na rede escolar uma mão-de-obra potencial, que se fosse lançada prematuramente no mercado constituiria um fato de tensão social. A pós-graduação é a hibernação de uma mão-de-obra que se encaminha para um mercado saturado, para maior tranqüilidade dos donos do poder. Num país onde o professor universitário – como mostra Karl Popper em A sociedade aberta e seus inimigos – perde seu posto porque é tachado de “comunista”, falar em autonomia universitária, liberdade acadêmica ou participação chega a ser um escárnio. O que os mandarins estatais e universitários não entenderam é que a liberdade não é a submissão livremente consentida a seus ditames; ela é a aceitação daqueles que pensam de forma diferente, em termos estruturais e não meramente ocasionais. Mesmo alguns professores participam dessa visão de mandarins, porque não percebem que não é o professor que ensina e o aluno que aprende, mas que o grande educador é a comunidade; por isso mesmo, o próprio educador precisa ser educado.

Os dirigentes da universidade são escolhidos por serviços prestados ao Poder

FOLHETIM: Como combater nos vários níveis os (eventuais) excessos ou malefícios da burocracia?

TRAGTENBERG: Respondo com os argumentos que Rosa Luxemburgo utilizou em sua polêmica com Lenin: “sem eleições gerais, sem liberdade ilimitada de imprensa e de reunião, sem a livre luta entre as opiniões, a vida morre em todas as instituições públicas, torna-se uma vida aparente, onde resta a burocracia como único elemento ativo” (A revolução russa). E claro que a democracia, como qualquer forma participativa, tem seus limites e defeitos; nesse contexto, a liberdade é uma e indivisível e restringi-la equivale a negá-la.

A burocracia nega a liberdade na medida em que “organiza’ os professores e estudantes por escalões (mestres, doutores, livres-docentes ou alunos de graduação, pós-graduação ou especialização). E uma das muitas manhas burocráticas para dividir o subproletariado intelectual, o qual enfrenta uma burocracia unida por seus interesses e prebendas, que procura preservar e aumentar o seu poder.

A liberdade só é possível entre iguais, socialmente falando; portanto, ela só é possível quando se desvincula o saber do poder na sociedade civil e na universidade. O saber do mestre é a única condição de sua “autoridade”; o controle burocrático dos alunos pelo sistema diferencial de avaliação nas mãos do docente e pela freqüência obrigatória constitui uma forma de autoritarismo. A abolição do sistema de exames e da freqüência obrigatória constituem os pré-requisitos da democratização da universidade, assim como a participação real e não simbólica dos alunos nos órgãos colegiados.

À ditadura da cátedra ou do departamento devemos opor a participação comunitária (estudantes e professores) ma instituição, com iguais direitos de influir nas decisões em todos os níveis. Isso só se torna possível quando, na sociedade global, a maioria dos assalariados tem liberdade para se auto-organizar em seus locais de trabalho ou em órgãos associativos de todo tipo; em suam, quando aqueles que não têm voz conquistam o direito de tomar a palavra.

__________
Fonte: Folha de S. Paulo, Folhetim, 21.10.1979.

via Maurício Tragtenberg – Educador Libertário

mescalero


Humanocracia

Sábado, 20 Junho 2009

Dei com um blog perdido nos confins da blogosfera que profetiza a revolução em Portugal e desenha o que o autor está certo de ser o sistema político que vai existir neste país após o previsível  e não distante descalabro da democracia – a  Humanocracia. Pelo que entendi, a humanocracia é de lavra própria e construída solitariamente. O primeiro encontro de humanocratas apenas teve a presença do criador. O termo não é novo mas para o efeito até serve.

Não li nem assisti à grande maioria dos vídeos que explicam o sistema, o início bastou-me. Um Conselho de Representantes que é uma espécie de conselho de sábios, composto por 52 pessoas com ligação directa à população. Ou seja, 10 milhões a interagirem directamente com o poder executivo via correio, email, telefone ou fax. Mas a parte mais surpreendente do que pude assistir é a existência do cargo de Protector de Portugal que será ocupado, caso a população portuguesa aceite a Humanocracia, … pelo próprio criador do sistema, com uma compensação financeira correspondente ao salário mínimo e por um período nunca superior a um ano.

Há algo de incrivelmente  ingénuo nisto tudo, cândido até, e uma inconsequência desmedida, é verdade, mas o que eu pergunto é, quantos é que nesta terra já perceberam que são precisas transformações radicais para atacar eficazmente os nossos problemas? Que é necessária uma revolução? A mim parece-me que o humanocrata está um passo à frente dos doutores, intelectuais, ilustres e respeitáveis cidadãos desta sociedade que ainda nem isso perceberam. Dou-lhe esse crédito pelo menos.

Uma das coisas que o autor várias vezes repete é que quer críticas construtivas. Ora bem, a humanocracia não é tão revolucionária como o seu criador julga porque afinal continua a basear-se em representantes decisores, ou seja, seria mais uma revolução política que manteria as estruturas de poder intactas. É esta a crítica que faço. Uma revolução verdadeiramente transformadora terá de ser social e não política, pelo controle das estruturas de poder pelas pessoas, pela descentralização.

mescalero


Nós vos pedimos com insistência:

Quinta-Feira, 18 Junho 2009

Nunca digam – Isso é natural

Diante dos acontecimentos de cada dia,

Numa época em que corre o sangue

Em que o arbitrário tem força de lei,

Em que a humanidade se desumaniza

Não digam nunca: Isso é natural

A fim de que nada passe por imutável.

Berthold Brecht

via República do Fiume


Greenpeace: a ambiguidade de uma ONG

Quinta-Feira, 18 Junho 2009

Com quase quarenta anos de experiência e com sedes estáveis em quarenta países do mundo, o Greenpeace demonstra ser a multinacional eco-pacifista mais famosa do planeta. Numa perspectiva de liberação sócio-ambiental, oferecemos algumas reflexões críticas sobre a prática e a modalidade de ação deste gigante do ambientalismo.

Com 2 milhões e 800 mil sócios, entre cidadãos de base e entidades sem fins lucrativos, a organização não aceita dinheiro nem de governos nem de grandes empresas, a fim de manter sua independência e imparcialidade. Mas está também imersa no mercado mundial e sujeita às leis e às lógicas mercadológicas. Esta sua característica de estar com um pé nas lutas ambientais, com ações e outras coisas mais, e outro nos serviços de contratação dos governos e das grandes empresas, mesmo que seja para o desenvolvimento da tecnologia verde e para salvaguardar o meio ambiente, o une, sem concessões, a este sistema capitalista gerador de toda a problemática contra o que ele mesmo combate.

A ação do Greenpeace se baseia em poucos, mas fundamentais temas, entre eles a luta contra as usinas nucleares, o carvão mineral, o uso de organismos geneticamente modificados, o desmatamento e outros mais.. É notório que a política do grupo se centra na realização de grandes ações espetaculares com o objetivo de atrair, o tanto quanto possível, a atenção dos meios de comunicação sobre temas particulares, apresentando aos cidadãos a iniqüidade de determinadas opções político-ambientais.

Estas ações podem ser complexas e perigosas, e cada ativista é provido de material e preparação técnica necessária para que tudo corra bem. Da roupa ao material de escalada, cada detalhe é organizado e financiado de maneira que não se deixe nada à sorte do acaso e assim se reduzam os riscos ao mínimo.

Visto de fora, o Greenpeace pode parecer que não vai mais além da luta ambiental e pacifista, enchendo de protagonismo o ativista comum que cheio de energia embarca em um navio zodiac para enfrentar as maléficas multinacionais, mancha de tinta os petroleiros, navega pelos mares ou se acorrenta com o/as companheiro/as em uma central nuclear.

Mas além do desejo de lutar na primeira linha de combate, da notícia nos meios de comunicação, existe uma realidade tremendamente hierarquizada que reduz o campo de ação à um círculo de temas muito restrito, minimizando a iniciativa local e se relacionando com o/as ativistas de base com critérios nada diferentes dos que podemos encontrar entre um trabalhador e um diretor empresarial. Da sede central de Amsterdã partem as decisões dos dirigentes sobre qualquer tema, das campanhas a serem realizadas aos métodos de ação, e chegam até os grupos locais, espalhados um pouco por todo o mundo, que levam à pratica as decisões tomadas na cúpula.

Cada grupo local trabalha ao redor dos mesmos temas e o método é “a união faz a força”, que podia ser muito bom se não fosse por alguns defeitos essenciais que reduzem a potência aos efeitos. O Greenpeace, por exemplo, não leva em conta, nem um pouco, os problemas das realidades locais, das pequenas e grandes desgraças político-ambientais das comunidades nas quais está inserido. Nestes tempos absurdos em que é difícil estabelecer uma relação entre áreas extremas com temas como a ecologia e o meio ambiente, o Greenpeace evita lutar na batalha das comunidades locais, que são as que se manifestam mais próximas, que nos tocam de perto e nos faz sentir parte da luta. Por isto é fácil de compreender porque uma realidade tão eco-pacifista não se encarnou nos milhões de comunidades em luta ao redor do mundo.

Também está claro que o Greenpeace dificilmente terá muita agilidade em propor seus temas aos cidadãos de Nápoles que suportam pela enésima vez o escândalo do amianto e o regime militar.. Igualmente será difícil de consolidar em Vicenza um grupo local frente ao silêncio do Greenpeace sobre a devastação ambiental (para não falar das manobras políticas) que acontecerá em Del Molin. O mesmo pode se dizer dos milaneses, que terão muito trabalho para conseguir acabar completamente, de cara, com a inauguração da Expo 2015. E os exemplos se acumulam nos múltiplos desastres ambientais que devastam os territórios até agora desprezados pelo Greenpeace. Está claro como uma organização de tal envergadura econômica poderia se relacionar com todas as comunidades em luta do mundo, criando um sistema de contestação e de apoio mútuo muito superior à suas forças atuais.

Mas a política do grupo não contempla o chamado à ação cidadã, à sensibilização das pessoas, à colaboração com o resto do mundo do associativismo. Falta uma clara referência à participação popular para a resolução dos problemas ambientais e, em conseqüência, frente à impossibilidade, na prática, de bloquear minas com grandes gestos e grandes manchetes, falta a retroalimentação cidadã que com sua ação direta poderia continuar as mobilizações e as ações.

Falta uma clara correlação entre as causas e os problemas que se buscam afrontar. Como sempre, o dinheiro e o poder são os responsáveis pelas opções políticas mais desastrosas, como o uso da energia nuclear ou do carvão mineral.  E atrás de certas opções existem nomes e sobrenomes que se movem somente pelo poder e benefício. Nomes e governos que dificilmente a multinacional verde se oporá.

Através do uso de um ecologismo light, sempre escandaloso e nunca profundo, se cria uma sensação de distância entre o problema enfrentado e as pessoas que os criaram. Problema, este último, gerador de disfunções psicológicas dificilmente superáveis, como o profundo sentimento de impotência e de distância às questões afrontadas.

Não podemos julgar em um contexto separado a luta ecologista das outras lutas porque cada uma delas forma parte de uma grande rota de libertação que, incompleto, tenderá a recriar os mesmos conflitos.

Marco Rizzato

Fonte: “Umanità Nova”, semanário da Federação Anarquista Italiana (FAI)

Tradução > Marcelo Yokoi


Nã, nã

Quarta-feira, 17 Junho 2009

Queria ser empregado da British Airways só para poder dar resposta àquela ideia peregrina de trabalhar uma semana ou um mês sem receber. A continuar assim daqui a uns anos estamos a pagar para pegar no batente. Ah, já me esquecia que isso já existe e está mais em voga do que nunca. Chama-se escravatura.

mescalero


Presos em Luta: Apresentações e debates em Junho

Segunda-feira, 15 Junho 2009

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Quinta do Castanheiro, em Sintra
travessa de santa maria nº 13
junto à igreja de santa maria em s. pedro de sintra
Club Aljustrelense, em Aljustrel
mescalero

Where The F*ck is The Muslim World?

Sábado, 6 Junho 2009

“I am a Muslim and live in South Africa where my ancestors have been for more than 400 years. Am I in or out of the “Muslim world”?

The notion that there is a “Muslim world” is a deeply racist idea steeped in the colonial myth that westernization and its ideological project, whiteness, ‘civilized the world’.”

continuar a ler

mescalero


DECLARAÇÃO COMUNISTA ANARQUISTA POR OCASIÃO DAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

Sábado, 6 Junho 2009

“Eleições europeias: Apenas o combate vale a pena!

De 4 a 7 de Junho os votantes europeus são chamados às urnas para escolher quem os irá «representar» no Parlamento europeu. Enquanto comunistas anarquistas, não pensamos que as eleições possam trazer qualquer mudança real, sendo que preferimos a democracia directa à democracia representativa. Por outras palavras, preferimos que as decisões que afectam os trabalhadores sejam tomadas pelos próprios, colectivamente. O funcionamento e objectivos da União Europeia são opostos a este modelo de auto-decisão e portanto aos interesses dos trabalhadores e do povo. Os seus líderes desprezam tanto o povo que – embora perguntem a nossa opinião – a única resposta permitida é a que aceita a linha política da UE, definida previamente noutra instância. A atitude da UE face à rejeição por referendo do Tratado estabelecendo a Constituição para a Europa exemplifica este facto. Além disso, os reais líderes da UE (a Comissão Europeia, o presidente do Banco Central Europeu, etc) não estão sujeitos a qualquer controlo democrático e portanto estão ainda mais livres para defender esses interesses contra os interesses da classe trabalhadora. Isto pode ver-se com as políticas de descarada liberalização e privatização que têm sido aplicadas, na austeridade orçamental e monetária (política iniciada em Maastricht). No actual período de crise, tais políticas somente causam sofrimento às pessoas da classe trabalhadora. Não tem sido visível qualquer efeito prático no relaxamento do Pacto de Estabilidade, que impõe défices públicos muito baixos. Embora o Banco Central Europeu tenha aceite atenuar a política de austeridade monetária, fê-lo de uma maneira muito limitada, que apenas irá contribuir para o aprofundar da crise na Europa. A União Europeia é uma máquina de guerra contra os direitos sociais e os trabalhadores, em especial contra os migrantes: o «dumping» social, o corte nos «custos do trabalho», a caça aos imigrantes, os fechos de fronteiras, a cooperação entre polícias, etc. Portanto, a União Europeia não é uma instituição neutral cujas políticas precisam de ser «redesenhadas» – é a satisfação do poder capitalista, dedicado a servir os patrões e os banqueiros. A eleição de novos deputados não mudará, de modo nenhum, esta situação. Apenas as lutas sociais conjuntas de todos os trabalhadores por toda a Europa, num vasto movimento social, poderão parar estas políticas e encorajar o crescimento de uma força revolucionária contra o capitalismo e suas instituições, em direcção a outra sociedade. Uma sociedade baseada nos verdadeiros ideais internacionalistas da liberdade, igualdade e solidariedade.”

Federazione dei Comunisti Anarchici (Itália)
Alternative Libertaire (França)
Workers Solidarity Movement (Irlanda)
Liberty and Solidarity (Reino Unido)

[tradução para português por Luta Social ]

mescalero


Actuação policial no bairro do Fim do Mundo

Sábado, 6 Junho 2009

Via Café Moçambique

mescalero


Sobre a Bela Vista…

Segunda-feira, 1 Junho 2009

por um anarquista em Londres

Este texto é endereçado a todos os portugueses que se considerem de esquerda, que ligam a política, e que se importam com a existência e bem-estar de algo que chamamos de comunidade e de sociedade. Pretende ser uma critica breve e directa dos eventos que se passaram recentemente no bairro da Bela Vista em Setúbal (Abril e Maio de 2009) e, da maneira como as reacções a esses eventos demonstram o falhanço da politica em Portugal e, noutra escala, da sociedade portuguesa em geral. Admito que praticamente todo este texto se poderia estender bem para lá do território português, mas tentei focar-me em Portugal e tentar não perder a acuidade da crítica em si.

Antes de mais é preciso falar da Bela Vista. A situação, só por si, é absurda. Um país onde os comunistas (de várias estirpes) têm forte expressão nas urnas e onde a hegemonia bi-partidária se diz socialista, e no entanto, é um dos poucos países ditos desenvolvidos que tolera no seu território a existência de bairros de lata e bairros sociais em que o tijolo das casas não invalida semelhante estatuto em todos os outros aspectos. Além de inconcebível, esta situação também é trágica não só porque envolve o sofrimento de seres humanos mas também porque ilustra de maneira exemplar a falta de solidariedade do resto da sociedade. Não somos inocentes, sabemos que a Bela Vista ou qualquer outro bairro social em Portugal é irrelevante para o Estado. Por um lado, não produz votos – os excluídos não votam, são mais sábios que nós nesse aspecto. Sabem perfeitamente que ninguém quer saber deles tirando eles próprios, e eles nunca apareceram num boletim de voto e nunca aparecerão a não ser que reneguem as suas origens, e nesse caso, o voto seria fútil. Por outro lado, eles não constituem ameaça ao Estado. Sem consciência politica, os excluídos não vem a sua luta como a luta de todos; não têm a união nem a força (politica, económica, militar, etc.) para efectuar qualquer acto revolucionário que ameace verdadeiramente o Estado. Sendo assim, são invisíveis, valendo apenas pela sua influência nos votos do resto da sociedade – se cometem crimes que prejudicam os contribuintes, então é preciso reprimi-los como mostra de força; se as suas condições de vida degradantes ofendem os burgueses mais caridosos, então é preciso por exemplo dar-lhes casas menos sujas e aumentar em qualquer insignificância as suas esmolas mensais.

Uma criança foi executada pela polícia. As circunstâncias são irrelevantes – nada justifica a morte de um ser humano tirando defesa pessoal perante ameaça igual. O código penal português não sanciona a pena de morte em nenhum caso logo a pistola de um polícia devia ser sempre a segunda a aparecer em qualquer situação. Não foi isso que se passou, nem de perto nem de longe, e portanto não podemos usar outro termo que não execução. Uma criança é executada pela policia e a comunidade da Bela Vista insurge-se atacando quem os atacou, usando fogo contra fogo.

A resposta dos políticos é ao mesmo tempo previsível e chocante.

A direita faz o que lhe compete, expondo novamente as suas demagogias odiosas anti-imigração, racistas e exigindo com ultraje impotente a repressão destes bárbaros. O centro analisa a situação e rapidamente formula uma resposta que apesar de não agradar nem a gregos nem a troianos também não os desagrada, e age da maneira que a situação exige, i.e. não faz nada porque de facto não lhe interessa fazer nada. A esquerda tem talvez a mais chocante das respostas. Ao invés de agir (e de facto um partido dito de esquerda controla a Câmara de Setúbal), apenas considera a situação como mais uma oportunidade de tentar desestabilizar o governo e assim caçar votos. Sendo assim, faz críticas ao governo e comenta o que se passa quando está por perto um microfone da rádio ou uma câmara de televisão de maneira a criar um bonito retrato da sua indignação.

Estas respostas são hipócritas e insignificantes mas tem a virtude de ilustrar perfeitamente o que está podre com a política em Portugal. Da direita e do centro não esperávamos diferente, mas a esquerda choca. Para a esquerda uma acção consiste sempre em algo que:

1.  está focado na procura de votos;

2.  ameaça o partido no poder em termos de eleições mas não ameaça o Estado em si.

Ocorrem portanto manifestações organizadas pela esquerda em que se fazem uns pedidos quaisquer ao governo, pedidos esses que a própria esquerda sabe intimamente que não irão ser satisfeitos. Cria-se um jogo simbiótico entre a esquerda e o governo. A esquerda precisa de organizar manifestações, proclamar discursos inflamatórios e mais uma série de iniciativas para satisfazer os seus apoiantes e votantes. Mas, sejam quais forem estas iniciativas, elas nunca podem realmente anteceder ou lançar as sementes duma revolução. Basta ver alguns dos pedidos que a esquerda faz. Alguns são insignificantes para a esmagadora maioria dos portugueses tal como acabar com as touradas (sem acabar com os matadouros) ou legalizar os casamentos homossexuais, e portanto acatar estes pedidos não traria impacto nenhum de fundo  à sociedade. Outros pedidos são irrealizáveis num país neo-liberal da UE, e.g.  a nacionalização de ramos de empresas multinacionais de maneira a manter postos de trabalho em Portugal. Ficam-se assim por pedidos vazios, sem qualquer expectativa de cumprimento. O governo aceita as manifestações como mostra de que está aberto a ouvir críticas, absorvendo e discutindo as mesmas enquanto estas fazem parte da actualidade política mas eventualmente pondo-as num segundo plano quando algo de novo surge no panorama. No final de contas, tanto os protestantes quanto o governo sabem a verdadeira natureza vã destes pedidos. Joga-se de maneira cíclica e cretina,  mão após mão, um jogo onde nada muda. Os políticos de ambos os lados fazem carreiras e tornam-se aquilo que se pode chamar de políticos profissionais, uma classe que por si só é uma negação total do espírito democrático que a sociedade pós-25 de Abril afirma como um dos seus pilares. O espírito revolucionário esse não passa de um slogan publicitário para recrutar jovens idealistas (passe o pleonasmo) que serão gradualmente transformados pelo partido em conformistas e reformistas acomodados na futilidade deste jogo político.

Mas o que é que isto tudo, toda esta conversa sobre política, esquerda, direita, revolução, reforma, e por aí a fora tem a ver com quem resiste na Bela Vista? Nada, absolutamente nada.

O que é que alguns residentes da Bela Vista fizeram como protesto à execução do seu amigo? Incendiaram carros e atacaram uma esquadra da polícia. Agiram contra o Estado com plena consciência da sua insignificância no processo político actual. Agiram sem os constrangimentos e compromissos da esquerda que se organiza em partidos e que luta por votos. Naquele momento reconheceram nos seus próprios termos a luta imanente na nossa sociedade. Reconheceram que a sua luta para sair do bairro é uma luta sem esperança, bloqueada por uma diferença irreconciliável de classe, educação e poder económico e fizeram a única coisa que podiam fazer – agir. Na verdade agiram como qualquer organização verdadeiramente revolucionária, e porque não? Eles têm uma organização (paralela ao resto da sociedade) e um ódio e desrespeito pela autoridade invejável por qualquer verdadeiro revolucionário de esquerda. E tudo isto sem precisarem de líderes, da intervenção de políticos, de manifestos, de lerem textos como este e de serem membros dum partido. Eles têm muito a nos ensinar, nós que queremos derrubar o capitalismo, criar uma nova sociedade sem classes, sem exploração, sem ser preciso mendigar postos de trabalho e tudo o mais que é nosso por direito.

Mas nós também temos algo a ensinar-lhes.

Terem sido abandonados e ignorados pela sociedade é o seu maior triunfo e o seu maior defeito. Como tal, podemos mostrar-lhes o contexto histórico da sua luta, como outros já foram excluídos no passado e como tentaram organizar-se para lutar contra essa situação. Podemos falar-lhes que até os que tem emprego nesta sociedade são explorados (embora de maneira diferente e mais subtil), e de como a dita classe média portuguesa a que alguns deles aspiram pertencer de médio só tem a mediocridade. Podemos criar laços que cruzam classes, raças e as geografias fascistas das nossas cidades. Podemos fazer tanto ao lado destas pessoas que todos ignoram e no entanto não fazemos nada. Não sabemos como lhes falar sem citar Marx, sem lhes dar formulários de inscrição no partido, ou sem lhes vender um jornal. Mas podemos aprender, criando campos comuns de luta, com métodos que usam a simbiose das nossas experiências e qualidades.

Unidos pela alienação, exploração e necessidade de revolução JÁ, entramos nos bairros proibidos sem medo e com a nossa mente aberta. Ouvimos com atenção mas sem medo de contribuir. Encontramos ali, naquele lugar ignorado pela política, os nossos verdadeiros camaradas.


Shell, culpada

Quarta-feira, 27 Maio 2009

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Fotos: Remember Saro-Wiwa

Foi adiado o julgamento contra a Shell que deveria começar hoje.

mescalero


Tudo para mim – nada para vocês!

Terça-feira, 26 Maio 2009

“Um político croata de nome Josko Risa foi eleito para o Município de Prolozac, tendo utilizado como slogan de campanha a frase “Tudo para mim – nada para vocês!”.

Com base na plena honestidade, Risa sempre disse aos eleitores que iria roubá-los o máximo possível a cada oportunidade e que a cidade se tornaria no seu negócio.”

Ler o resto no Marreta ou a notícia no Croatian Times

O que há realmente de diferente entre esta campanha e as convencionais? A resposta é o pudor que nas campanhas convencionais os eleitores têm em admitir que estão a ser enganados, em reconhecer que sabem perfeitamente da impossibilidade dos políticos serem diferentes do que são, de fazerem as coisas de forma a irem de encontro às promessas que fazem. Ninguém gosta de admitir que está a ser enganado, que caiu no conto do vigário. Por razões óbvias.

As sofisticadas máquinas partidárias modernas, seguindo avançadas estratégias de marketing e publicidade, simplesmente dão às pessoas o que elas esperam: o conforto da ilusão. E se alguém pensa que os publicitários brincam em serviço, pense duas vezes. O que eles fazem funciona. São extremamente eficientes e persuasivos. A abstenção que se adivinha nas eleições europeias não prova o contrário, apenas que o empenho dedicado à política nacional é muito maior.

mescalero


[Grécia] Assassino de Alexis pede para sair sob fiança

Segunda-feira, 25 Maio 2009

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«Ontem (24 de Maio) as agências noticiosas do estado estavam a dar a notícia de que A. Kougias, advogado do polícia assassino Korkoneas e do seu cúmplice, pediu para ambos serem libertados sob fiança. Kougias pediu que o pedido fosse analisado num prazo de 10 dias.

Recorde-se que este advogado disse que a morte de Alexis foi “vontade de deus” e que “cabe à justiça grega decidir se a morte do jovem foi justa ou não.”

Korkoneas não mostra remorsos e afirma que “Alexis tinha um caracter desviante”.»

retirado do Contra o Capital

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Vírus

Quinta-Feira, 21 Maio 2009

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